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Tecnologias da Felicidade (3) : a satisfação do outro afeta o seu prazer

Christian Dunker

17/01/2020 04h00

Pixabay

[Este texto faz parte de uma série. Recomendamos ler os artigos anteriores para acompanhar o argumento do autor. O link para os textos anteriores está no final desta página]

Um erro comum nas métricas e no próprio conceito corrente de felicidade é torná-la equivalente de um estado mental positivo ou agradável. Ora, um copo de água depois de uma travessia no deserto é fonte absoluta de felicidade, apenas pelo contraste que representa com o estado anterior.

Os teóricos utilitaristas ingleses, do século XVIII e XIX, como Jeremy Bentham e Stuart Mill já haviam tentado decompor o cálculo dos prazeres levando em conta variáveis como duração, expectativa, intensidade, constância e controlabilidade. Para eles nossa mente funcionava como um grande contabilista, comparando riscos e garantias, avaliando decisões pesando o princípio da maximização de prazeres e minimização de desprazeres.

Esse ponto de partida tem três fragilidades. Em primeiro lugar ele tende a generalizar o cálculo de maneira a criar um sujeito conjectural que "deveria agir" de certa maneira, como sujeito racional de decisões, o que sistematicamente não acontece quando vamos segmentando mais a nossa amostra. O segundo problema é que ele faz equivaler a felicidade de um estado mental individualizado, composto por afetos e emoções, entendidos como equivalentes potenciais de circuitos do cérebro. O terceiro problema é que ele ignora a existência de escolhas nas quais encontramos um certo prazer no infortúnio, ou seja, naqueles que representariam um tipo de patologia mental do conceito de felicidade como ela "deve ser". Ora, este conceito de felicidade é genérico, individualista e normalopático demais. Vamos excluir a loucura e tudo termina mal, como diria o grande psiquiatra, Simão Bacamarte.   

Um bom caso modelo para questionar a insuficiência deste modelo de felicidade pode ser encontrado no teorema examinado por Amartya Sen:

O indivíduo chamado Puritano odeia um certo livro e não pretende lê-lo, mas sofreria ainda mais se o livro fosse lido por outro indivíduo, chamado Luxurioso, que adora o tal livro. Puritano está particularmente incomodado porque Luxurioso pode estar rindo entredentes com o livro. Luxurioso, por outro lado, gostaria de ler o livro, mas preferiria, ainda mais que Puritano o lesse, revirando o estômago, espera o Luxurioso.[1]   

Ou seja, o exemplo, que parece altamente realístico, mostra que nossa satisfação ou insatisfação, depende da interpretação que fazemos da satisfação ou insatisfação dos outros. O modelo genérico de felicidade sobrepõe afetos, emoções e sentimentos. O prazer, que podemos obter no nível dos afetos, que sentimos individualmente, parece obedecer um gradiente de qualificação primária que vai do prazer ao desprazer tendo seu epicentro na angústia.

Afeto, vem de affectio, nossa capacidade de ser afetado pelo mundo, pelos outros e por nosso próprio corpo. Todo afeto é, portanto, mediado por uma autoafetação, que é altamente dependente da forma como o nomeamos ou interpretamos. Por exemplo, pessoas que sofrem com alexetimia, ou seja, dificuldade de nomear afetos, tendem a descrevê-los como experiências de conforto sensorial. A alexitimia parece ser uma das condições associadas com uma espécie de debilitação da experiência de felicidade, pois ela será lida na chave de oposições mais simples, como as que estabelecemos entre dor e indiferença. A alexitimia parece ser um sintoma primário de quadros genericamente ascendentes nos últimos vinte anos, como a depressão, a ansiedade e o pânico.

As emoções são as repostas mais ou menos padronizadas para estes circuitos. Elas foram descritas por Darwin como medo, raiva, surpresa, alegria, tristeza e nojo. Apesar de universais elas parecem reguladas pela reação ao outro e as circunstâncias situacionais nas quais ocorrem, por exemplo, a resposta de riso e sorriso de crianças pequenas em adultos.

Emoção vem de motus, movimento e elas também são mediadas pela leitura que temos, por exemplo, da sincronia ou descompasso com as emoções alheias. Por exemplo, quando em 2018, o Brasil ficou entre os quatro últimos colocados no ranking da tristeza, ganhando apenas do Irã, Argentina e Venezuela (última colocada), inferimos que nosso estado de infelicidade progredia. Nada mais falso, qualquer um que tenha visitado os países eslavos sabe que a tristeza pode ser um orgulhoso traço nacional. Certa vez ouvi de um esloveno que eles haviam demorado séculos para construir esta abordagem triste e profunda do mundo e não seria qualquer promessa tola de felicidade que iria alterar isso. Como que a dizer: "tristes, mas felizes".

Os sentimentos correspondem a partilha social dos afetos e emoções. Freud descreveu três sentimentos sociais, adquiridos em função do progresso em nossa constituição subjetiva e consequente interiorização da lei: a vergonha, a culpa e o desamparo. Ou seja, eles são interpretações dos afetos e emoções articuladas com as expectativas de prazer e desprazer que colocamos nos outros e construímos sobre nós mesmos. Lacan construiu a noção suplementar de gozo para se referir a este efeito específico de restituição, retorno ou de repetição do prazer suposto no outro, ao nível do sujeito.

Se consideramos que a felicidade é um sentimento, dependente de como traduzimos nossas experiências individuais  de prazer em um sistema intersubjetivo de partilhas, exclusões e segregações, vemos como o exemplo de Amartia é pertinente para trazer um conceito mais apurado de felicidade. Nossa felicidade depende da felicidade alheia, assim como nosso sofrimento, por isso estes conceitos são também conceitos políticos.  

Isso nos ajuda a entender, indiretamente porque certos modos de prazer, satisfação e gozo são extremamente sensíveis para a gênese de preconceitos. Aquele que não negocia bem sua economia de prazer, satisfação e gozo, tenderá a interpretar sua própria infelicidade como proveniente da felicidade alheia.  Daí se entende porque os totalitarismos se importem tanto com a sexualidade alheia e estão sempre dispostos a limitá-la, quer em sua expressão cultural ou em seu uso do corpo.

Na verdade, tais tecnologias políticas se apoiam no reforço da ideia de que a sua insatisfação decorre do excesso de gozo dos outros intrusivos: os judeus, os imigrantes, os negros, as mulheres, os corruptos e assim por diante. Quando no cálculo da felicidade só existem indivíduos, quando supomos que todos deveriam usar a mesma gramática de satisfação e quando excluímos a loucura, (supondo que o normal somos nós), caminhamos para o estado endêmico de infelicidade violenta que parece ter se tornado a paisagem mental da humanidade, ainda que objetivamente tivéssemos progredido, como mostrou Yuval Harari [2].

 [1] Sem, Amartya (2009) A Ideia de Justiça. São Paulo: Companhia das Letras, pág. 344.

[2] Harari, Yuval (2014) Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. São Paulo: LPM.

 

Leia também:

Tecnologias da Felicidade (1): O que estar conectado revela sobre ser feliz

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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