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Blog do Dunker

Tecnologias da Felicidade (2): você é um zumbi controlado pelos algoritmos?

Christian Dunker

10/01/2020 04h00

kues1/ Freepik

No post anterior examinei a curva descendente da felicidade ao longo da última década. Quatro hipóteses são convocadas para explicar o fenômeno:

A primeira aponta que este período coincide com a crise do neoliberalismo, iniciada em 2008, e com a mutação de nosso modo de trabalhar que cada vez mais explora, de forma calculada nossas formas de sofrimento para extrair mais desempenho.

A segunda hipótese, que abordarei na coluna da semana que vem, diz respeito a uma modificação na maneira como calculamos a relação entre prazer, satisfação e gozo em uma cultura que identifica afetos, emoções e sentimentos de modo individualista, normalopático e não distributivo.  

A terceira hipótese aponta para a incorporação de tecnologias de controle da paisagem mental como sutura para o enfrentamento de conflitos e qualificação da felicidade.   

A quarta hipótese, à que me dedicarei aqui, reza que isso tem uma relação direta com a disponibilidade e acesso às mídias digitais, que sugaram nosso tempo livre para uma experiência de baixa qualidade de satisfação.

O Instituto Nacional de Saúde, dos Estados Unidos, traz dados colhidos ao longo de dez anos sobre os efeitos do uso de telas (celular, computador, TV ou iPad) sobre o cérebro de crianças e adolescentes. A exposição excessiva a telas provoca atrofia do córtex, redução da sensorialidade não visual, envelhecimento cerebral, aumento de dopamina (um neurotransmissor associado com a dependência química), diminuindo o desempenho em linguagem e matemática.

O aperfeiçoamento cognitivo, adquirido no contexto de um vídeo game, aparentemente não é derivado para habilidades conexas. Adolescentes que usam menos de 30 minutos diários de telas são menos expostos a depressão. Aqueles que fazem uso intenso estariam mais propensos à sintomas de automutilação.  

Talvez o potencial indutor de infelicidade atribuído às telas esteja relacionado com o uso inadvertido e pouco qualificado. Duvido que aquele que usa as redes sociais para estar com o outro, para aprender ou para tornar mais rica sua experiência intersubjetiva declare altos graus de infelicidade no fim do ano. Parece mais provável que as telas tornem-se um vilão quando são usadas como antídoto selvagem para a complexidade que a tarefa da felicidade assumiu para nós.

Quero apontar aqui para a mutação social do lugar da felicidade, justamente nestes vinte últimos anos. Lembremos que as pesquisas de mensuração comparativa da felicidade datam mais ou menos desta época. Alguém da minha geração, nascido por volta de 1966, tinha a felicidade como uma questão subsidiária, uma espécie de bônus que poderia acontecer se você não fizesse nenhuma grande besteira diante dos grandes desafios da vida: sobrevivência, escolha de companheiros, impasses familiares ou carreira.

Perguntar-se pelo propósito era uma espécie de luxo para os que haviam resolvido as questões envoltas no manto da necessidade. O grande valor problemático não era mais o amor, como teria sido para a geração de meus pais e avós, mas o desejo. Como encontrar suporte e expressão para o queremos e principalmente, como suportar que o desejo pode nos levar a estados dramáticos de angústia, sofrimento e desprazer?   

Digo isso, porque as patologias digitais parecem depender mais da qualidade de uso e da finalidade subjetiva do manuseio das redes do que da radiação tóxica supostamente exalada por telas e smartphones. Sim, aqui vale a regra de que a quantidade afeta a qualidade e que alguém que passa mais de cinco horas por dia, do seu tempo livre, já limitado na tela, dificilmente poderá integrar esta experiência com o resto de sua vida.    

Assim o problema não está no uso das redes mas como elas se traduzem, ou não, em conversas e compartilhamentos com o outro. Elas são um meio para aumentar a excelência da experiência subjetiva com o outro ou uma forma de fugir do outro?

Se depois de três horas combatendo "League of Legends", "Assassins Creeds" ou "Counter Strikes",  você não tiver nenhuma história interessante para dividir com os outros, sentir um vazio existencial e comportar-se como um zumbi na mesa de jantar, considere que você está sendo levado para o "lado obscuro da força".

Por outro lado, se você só consegue falar de si a partir dos stories e das fofocas do Instagram, considere uma temporada com Ana Karenina ou Quincas Borba. Se a sua política do Twitter resume-se a falar mal do PT e replicar fake news, considere uma visita "presencial" ao Psol ou a Escola Florestan Fernandes.  Se você passa o tempo como um vaga-lume entrando e saindo dos aplicativos de sexo e encontros, ou se você amaldiçoa estas práticas "antinaturais" para amar e ser amado, pense que elas não são nada sem as interpretações, ficções e apresentações que você faz de si e do outro. Lembre-se o "match", quem faz é a sua cabecinha. Se você ainda é súdito do soberano algoritmo, está na hora de escrever sua Carta Magna.

Aqui vão algumas perguntas para você meditar sobre seu uso de telas:

  1. Você sai de uma sessão de uso orientado para a redução da tolerância à diversidade ou usufruindo efeitos benéficos do estranhamento?
  2. Depois de uma rodada digital lhe ocorre uma sensação de superestimação da felicidade alheia ou uma espécie de fuga para a individualização de seu bem-estar?
  3. O uso de pornografia digital te aproxima e traz novidades para sua cama ou ela continua pobre e desértica de fantasias?
  4. Você é invadido por sentimentos recorrentes de incômodo, inutilidade e ausência em situações sociais, como se precisasse encurtar o tempo passado com os outros e a acelerar o futuro?  
  5. Ao longo do tempo você sente uma redução ou ampliação da extensão daqueles que contam em sua escala pessoal de sofrimento-felicidade (o tamanho relativo do "nós").

Leia também:

Tecnologias da Felicidade (1): o que estar conectado revela sobre ser feliz

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.