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O que é preciso saber para que o seu crush seja o verdadeiro amor digital

Christian Dunker

26/06/2020 04h00

Freepik

Os hotéis internacionais em Israel apresentam, caracteristicamente, um vasto saguão de entrada com muitas mesas e cadeiras para dois ou quatro lugares. No começo achei aquilo pouco funcional, pois não servia nem como cafeteria muito menos como restaurante, mas como uma sala de estar ampliada. Gradualmente comecei a perceber que as mesas estavam quase sempre ocupadas por casais vestidos de modo ortodoxo. Fiquei observando os encontros e logo ficou claro que aquele antigo costume, mediado por profissionais casamenteiros, aliás tão divertidamente descritos por Freud em livros como "Chistes e suas Relações com o Inconsciente" ou "Interpretação dos Sonhos" estava no mais vigoroso uso e atualidade.

Os jovens casais pareciam se divertir, ainda que sóbrios, tipicamente com uma garrafa de água mineral de soslaio. Não aparentavam o menor traço de vergonha ou embaraço com a situação. Alguém me disse depois que as práticas variam, mas que a mulher tem direito a um número relativamente finito de recusas, depois dos quais sua prerrogativa de escolha pode cair. O incrível aqui não é que a prática exista ainda hoje, mas que ela pode dar certo, no limite tênue e improvável do que podemos empregar essa expressão para casamentos.

Comparei aquele ritual com o similar nacional, que acompanho cotidianamente no Brasil. No começo achei inconcebível que ainda hoje tantos casais se formassem com tantas mediações, regras e ritos. A coisa toda lembra os casamentos arranjados pelas famílias, com seus interesses, o que remonta aos tempos pré-históricos, antes de termos inventado esta maravilha chamada "escolher alguém livremente baseado neste supremo valor chamado amor".

Mas a comparação não saiu tão devastadora quanto eu previa. Pensei naqueles solitários contumazes que não conseguem ir a um cinema desacompanhados porque sentem-se em assédio moral imaginário permanente por aquela voz que diz e aquele dedo que aponta: "seu fracassado amoroso". Pensei que eles poderiam contratar os serviços de um casamenteiro judaico. Mas logo vi que isso seria uma espécie de comprovação humilhante de que eles estão "mesmo"  fora da curva de como "as coisas devem ser".

Lembrei de quantos pacientes parecem ter na cabeça uma narrativa condicional quanto a forma como o amor acontece. Lembrei dos textos de Freud sobre a psicologia da vida amorosa e de como produzimos condições, negativas e positivas, para a escolha de nosso objeto de amor. Entre elas é comum encontrar uma espécie de horror à própria ideia de que devemos agir ativamente para nos propiciarmos situações nas quais a contingência do amor pode acontecer. Aqui a palavra-chave costuma ser: "natural".

Natural como sempre foi, amigos de amigos em turmas e festas ou baladas e barzinhos. Um exame mais apurado costuma mostrar que este natural indica apenas a retenção de condições nas quais outros amores aconteceram, em outras épocas da vida as quais, por exemplo, os amigos não estavam casados, as baladas tocavam rock progressivo e inexistiam aplicativos.

Apesar do aumento exponencial deste tipo de tecnologia na aproximação entre casais, há ainda efeitos residuais da primeira geração de usuários deste tipo de rede social. No seu agora clássico "Tinderellas[1], Lígia Figueiredo e Rosane de Souza, detectaram três estilos de uso destes aplicativos:

  1. O curioso, que conversa muito, mas fala pouco de si, demora para se envolver, tal qual um antropólogo que está pesquisando uma outra cultura
  2. O recreativo, que está em busca de diversão, que forma certos códigos e procedimentos para conectar-se a alguém ajustado para a ocasião.
  3. O racional, que está olhando para a tarefa em busca de uma escolha de longo prazo, com forte intimidade e investimento de parte a parte.

Cada perfil de uso combinaria-se com um tipo de apego –seguro ou inseguro, evitativo ou ansioso–, que exprimiria de forma compacta a maneira como teríamos aprendido a amar quando de nossos primeiros amores, ou seja, com nossos pais e cuidadores.

Descobrindo-se com mais clareza o que cada um quer (seu estilo de uso), esclarecendo-se as condições e escolha (o tipo de apego) e estabelecendo-se com maior transparência do que se compõe o outro, seus traços e qualidades "dinheirais, sexuais e intelectuais", nada poderia escapar ao procedimento. Bastaria se dar o trabalho de repeti-lo até encontra o match, crush e seguir viagem.  

Mas não é isso que está acontecendo. A quantidade de sequelados pelos desencontros digitais, dos cansados de tanta oferta enganosa, dos que simplesmente não suportam a situação tal qual ela se apresenta ainda é muito grande.  Talvez esteja faltando ao procedimento alguns ingredientes da velha sabedoria judaica.

Cena do episódio "Hang the DJ" da série Black Mirror (Jonathan Prime/Netflix)

No episódio "Hang the DJ" da série Black Mirror, um programa determina o encontro entre casais assim como o tempo que eles permanecerão juntos. Amy e Frank ficam apenas doze horas, dormem juntos, mas não transam neste primeiro fugaz encontro. Nada de surpreendente e notável acontece neste primeiro encontro, a não ser o fato de que nele "algo" realmente aconteceu.

Depois disso ambos têm relacionamentos mais longos e curtos, mais ou menos desastrosos, até que o programa os recoloca juntos novamente. Desta vez, eles agem de modo contraintuitivo decidem juntos não olhar o tempo de duração que este encontro terá.  Ora, esta decisão de "não saber" parece ser essencial para que o amor aconteça.

Talvez o que os aplicativos carreguem como falsa demanda reside na ideia de que saber mais sempre aumenta nossa perspectiva de decisão. Às vezes saber menos –sobre o que se quer, sobre quem se é e sobre o que queremos do outro– abre o vão necessário para que o amor aconteça em sua lógica de encontro e de transformação.

Logo no primeiro encontro entre Frank e Amy acontece algo quase imperceptível para o espectador, mas crucial para tudo o que se seguirá: eles descumprem juntos uma regra. Isso se repetirá na decisão de não saber e também no que sucede a trama (o spoiler para aqui e você vai ficar sem saber como acaba).

Isso ajudaria a entender porque tantas pessoas têm ódio mortal dos aplicativos, como se eles vendessem uma falsa promessa, que na verdade estaria mais na nossa interpretação e uso sobre o que eles oferecem, ou seja, como método de encontro eles trazem este efeito iatrogênico de nos fazer acreditar que saber mais e mais rápido é melhor.

Talvez sejam as mesmas pessoas que antes amaldiçoavam o amor romântico antes mesmo de ler seu manual de uso (Goethe, Balzac, Flaubert, Stendhal,  Tolstoi, Clarice Lispector, Ana Cristina César, Hilda Hist e todos os outros). Isso nos leva a formulação de tipos e enquadramentos muito rápidos sobre o outro, sobre nós naquela situação. Isso aumenta a pressão urgente para decidir e não "perder mais tempo".

Uma leve coerção, como a exercida pela regra casamenteira judaica, de que você pode escolher, mas depois de certo número de tentativas sua liberdade pode cair, me parece essencial para aqueles que ainda acham que encontrar alguém é como andar pelas vitrines do shopping center ou expor-se como pedaço de carne no açougue.  

Em síntese, o amor digital não tem que ver com contrato, não tem que ver com livre escolha de mercadorias, não tem que ver com gostos semelhantes, nem com "tipos" ou "traços" humanos que se completam.

Ele depende de nossa capacidade, cada vez mais rara, de suportar não saber e de agir em conformidade com o seu desejo, assim mesmo.

REFERÊNCIA

[1] Figueiredo, L.B. & Souza, R.M. (2017) Tinderellas. São Paulo: Ema Livros.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.