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Como saber quem viu humor no racismo do Xbox Mil Grau no mundo digital

Christian Dunker

12/06/2020 04h00

Pixabay

Esta semana o canal de games Xbox Mil Grau –cujo nome quase foi mudado para XMG depois de intimação da Microsoft mas agora se chama Não-Playstation Mil Grau— , teve sua conta suspensa pelo Youtube. Isso impede que o canal tenha monetização e corte recursos como o super chat, fonte de arrecadação, mas não impede a postagem de material novo e não retira todas as mensagens anteriores.

O jornalista Ricardo Regis mostrou a permanência de postagens com altas doses de racismo, transfobia e misoginia, desencadeando uma campanha: #YoutubeApoiaRacista.

Tudo começou quando um dos membros do canal, Xcapim360 (depois xCapimBr) fez uma publicação cinco dias depois do assassinato de George Floyd, comparando o que negros e brancos faziam naquela ocasião, respectivamente arruaças na rua e decolagem em uma nave espacial. A Xbox Brasil pede a remoção da postagem, o canal Nautilus faz uma live pedindo que as plataformas vetem o conteúdo. A defesa do Mil Grau [veja abaixo] apresenta o seguinte conteúdo:

  1. Não somos racistas, porque não discriminamos usuários por cor, crença, gênero ou classe social, como outros streamers fazem
  2. O perfil é para maiores de 18 anos e faz "humor negro"
  3. O perfil defende a liberdade de expressão
  4. O meme não foi postado pelo canal, mas por um usuário.

Reprodução

Assim como na postagem de retratação, feita por xCapim, encontramos a mesma expressão: "repostei apenas para polemizar e não esperava tanta repercussão em cima disso".  Esta frase condensa os argumentos anteriores, pois afirma, ainda que indiretamente, tratar-se de uma mensagem para um grupo específico e que não deveria ter extrapolado sua repercussão para fora dele.

Este grupo compreende uma espécie de "nós", no qual o racismo estaria excluído porque ele não é institucionalizado, como se para praticar o racismo tivéssemos que colocar uma placa ou um formulário de ingresso selecionando pessoas por cor, classe ou gênero. Por outro lado, este "nós" é reforçado como um lugar de acesso voluntário, onde se exercerá o direito de livre expressão, para adultos que estão advertidos de que ali se pratica o humor negro.

Fora o fato de que usar a expressão "humor negro" em uma defesa de acusação de racismo parece uma auto-ironia involuntária, o conceito ainda assim não se aplica.

O subgênero cômico foi assim designado por André Breton, criador do surrealismo, para designar o humor trágico, pessimista, que envolve a consideração de miserabilidade da espécie humana, não para designar o humor humilhante onde um grupo se destaca em relação ao outro. Ora, o humor e a comédia são decisivos tanto para pensarmos os limites de nossa liberdade quanto os sintomas do racismo e da segregação, porque ele envolve nosso desejo inconsciente.

Quando falamos em inconsciente geralmente pensamos nos sonhos, que são realizações alucinatórias de desejos, ou nos sintomas, que são realizações de desejos em uma formação de compromisso, ou ainda nos lapsos e pequenas trocas nas palavras e gestos, que Freud estudou em sua psicopatologia da vida cotidiana. Em um segundo plano, vamos lembrar que inconsciente também designa estados de alteração da consciência, como ocorre no hipnotismo e no amor delirante apaixonado.

Poucos se lembrarão de que Freud tem um extenso estudo sobre o humor [1] onde a cena do inconsciente aparece de uma maneira específica. Neste trabalho Freud traz um bom exemplo do que seria um humor trágico (ou "noir" na acepção de Breton): um prisioneiro condenado à morte na segunda-feira sai de sua cela e comenta com o carrasco: "que bela maneira de começar a semana!"

O chiste é um processo social pelo qual duas ou mais pessoas negociam a admissão de conteúdos que deveriam permanecer censurados socialmente. Esta aparição do que não pode ser dito, requer certas deformações concernentes ao uso da linguagem, por exemplo, modificação de palavras e duplos sentidos ou jogos de pensamento, como a falácia e o sofisma. Há, portanto, uma certa "inteligência" requerida para quebrar a barreira moral, o que tem por efeito aproximar as pessoas por identificação.

Quem conta piadas sabe que elas só funcionam para um determinado público, e se você não consegue ler ou interpretar bem este público, seja na sua composição, seja na sua temporalidade (o timing), a apresentação ou a piada fracassará.

Quando escuto uma piada –e se ela é realmente uma piada–, ela deve provocar um determinado efeito pragmático, uma experiência de prazer, por breve que seja, denunciada pelo riso ou sorriso. O prazer, principalmente quando ele traz algo de inédito, demanda uma espécie de compulsão por repetir-se. Mas não funciona muito bem se chego em casa e conto a piada para mim mesmo. Por isso quando a piada é boa, temos o desejo irresistível de passá-la adiante, porque vendo o outro rir, nos identificamos com ele e recapturamos um fragmento de nosso gozo inicial.

Por isso o chiste é um poderoso modelo para pensarmos a transmissão da cultura em geral.  Das artes à ciência e religião e da educação aos esportes, incluindo-se os e-sports, temos um impulso a generalizar nossa experiência de satisfação, como forma de recuperar um prazer inicial que nós mesmos tivemos com aquela construção de linguagem.

As fake news não são só um problema de desinformação e distorção cognitiva. Elas funcionam como uma massa digital que experimenta prazer a cada retuíte, que se satisfaz com a narrativa de culpa, ódio e indignação, violando imaginariamente a censura e criando uma paróquia imaginária, disposta a "livremente" reproduzir a piada recebida para gozar mais uma vez.

Por isso é preciso apoiar iniciativas como as do Sleeping Giants como forma de imprimir consequências institucionais ao uso da palavra, mas também cruzá-las com iniciativas comunitárias nas quais a palavra deve criar responsabilidades, digamos, no nível da pessoa e do sujeito.

Considerando que o humor é uma forma social de admitir, dar forma linguístico-discursiva e transmitir desejos inconscientes, teremos que admitir que ele é um forte meio de expressão da liberdade e de violação da censura. Mas isso deixa de lado os desejos inconscientes que não queremos admitir e também ignorar que a maneira como se dá a deformação é decisiva para o processo. Ou seja, se eu simplesmente declarasse, a céu aberto: gostaria de me casar com mamãe, isso não tem graça alguma, a não ser para um auditório sumamente infantil ou imbecilizado.

Chegamos assim em uma expressão chave empregada por Freud em seu estudo sobre a piada, ou seja, ela depende sempre da paróquia no interior da qual é contada. A expressão "paróquia" refere-se a uma posição intermediária, que reúne crentes de uma mesma comunidade, mas que não se encontram plenamente no espaço público, nem estão sujeitos ao mesmo tipo de responsabilidade e consequência.

FabiArts/ Pixabay

Esta ambiguidade entre público e privado, que de certa maneira define o novo espaço da linguagem digital, é um tremendo problema político por permitir que eu module os efeitos de minhas falas dizendo que:

  1. Se "pegou mal", posso me defender dizendo que ela "era dirigida à minha paróquia", ou seja, minha família, meu clube, meus amigos, onde supostamente posso continuar a praticar livremente meus preconceitos e a violência que a posse dos meios me permite.
  2. Se "pegou bem", posso dizer que ela é a expressão de uma comunidade que está generalizando uma demanda, que precisa ser reconhecida, com o consequente rebaixamento da censura.

Cara eu ganho, coroa você perde. É o que Freud chamou de dupla moralidade. É o que aparece na declaração de que "era só para polemizar, não para ter esta repercussão". É o que se admite quando se fala em um clube para maiores esclarecidos, que curtem violência verbal com duas desculpas suplementares: o canal permite e o nome que pagará, publicamente, a conta pelo desrespeito é "xCapimBR".

Ora, há um critério para saber se a piada deve ser admitida, ainda que seja dura e contrarie interesses, e a piada que deve gerar outro tipo de consequência. Este critério é o tamanho da paróquia.

Se a piada tende a expandir a paróquia, incluindo mais gente, deixada de fora por outras piadas, muito que bem. Se a piada tende a reduzir a paróquia, terminando por fazer apenas e tão somente aqueles que são "gente como a gente", ela deve ser objeto de uma inquirição. Isso significa um terceiro caminho entre a liberdade de expressão e a censura.

Imaginemos então um videogame no qual todos os competidores entram com seus nomes, reputações e posições institucionais, um jogo que se desenvolve em um espaço bem específico, chamado espaço público. Do outro lado está você, no parquinho de diversões do espaço privado, onde podemos dizer qualquer coisa, como uma criança, mas em contrapartida seremos ensinados e advertidos que o desrespeito e a ofensa não são admissíveis aqui. Quando você fizer um deslize terá que pedir desculpas e deverá reparar o efeito devastador de afeto que terá causado naqueles que te criam. Ou seja, nos dois tabuleiros o jogo da palavra tem consequências.

Mas a única consequência que vemos no episódio do XBox Mil Grau é um efeito de perda de dinheiro. Mesmo assim isso é relativo porque a publicização do escândalo pode atrair mais seguidores e eventualmente mais racistas e xenófobos para a "paróquia dos que gostam de polemizar".

Dinheiro e culpa são duas formas simples e relativamente ineficazes de punir alguém pelo racismo.

Esse dinheiro alimentará alguma transformação social das bases do racismo? Ele vai gerar um reposicionamento subjetivo e uma reparação aos que estão sendo atingidos pelo meme?

A punição e culpa são importantes, mas precisamos de mais do que isso.

Gostaria de ver o tal Capim falando de forma continuada e aberta, com o nome real na paróquia, com pessoas interessadas em discutir racismo. Outras pessoas que, aliás, talvez também gostem de "polemizar" nesta matéria.

Ou seja, se há uma moralidade entre os jogadores de videogame, ela está baseada em valores como habilidade e coragem.

Para reparar um dano como este seria preciso não apenas punir e pagar a conta, mas criar um desdobramento deste jogo, no qual, de forma pública a palavra, que foi maltratada, pudesse ser recomposta e este "nós" que funciona como abrigo e segurança para a falsa valentia possa ser colocado à prova de maneira mais expansiva e menos centrífuga.

REFERÊNCIA

[1] Freud, S. (1905) O Chiste e suas Relações com o Inconsciente. Obras Completas de Sigmund Freud. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.