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Positividade tóxica nas redes sociais ganha forma com fala de Regina Duarte

Christian Dunker

15/05/2020 04h00

Freepik

Tem circulado pelas redes sociais uma novíssima moralidade digital. Sua máxima afirma que se não falarmos de coisas desagradáveis, se não mencionarmos frustrações e se não nos aproximarmos de conflitos, isso faz bem à nossa saúde mental e deixa nosso ânimo melhor.

De fato, há algum tempo, reverbera o estudo sobre usuários de Facebook que tiveram seu humor manipulado por contágio gerado pela indução de palavras positivas e palavras negativas [1]. Mas se a potência do contágio emocional e da manipulação do humor atmosférico por quem detém força no big data, ou sabe manipular atitudes digitalmente, parece óbvia, nem sempre a solução é o que parece.

Uma leitura básica deste fato, que ao que tudo indica chegou a se expressar agora com a noção de positividade tóxica, nos levaria a argumentar que, sob qualquer situação ou cenário, deveríamos nos comportar como a heroína de Eleanor H. Porter conhecida como Pollyanna.

Isso tem gerado uma batalha de filosofia miúda entre otimistas e pessimistas, acirrada agora pelo estado de quarentena. Para os primeiros, já estamos saturados de más notícias e de infelicidades, portanto, por que não olhar para o lado bom da vida e tomar, devagarinho, o resto de meio copo cheio? Para os ditos pessimistas, a vida boa é a vida intensa e o maior intensificador de experiência que pode existir é saber que aquilo com o qual se está é real.

Pessimistas chamam os otimistas de iludidos e idealistas, negadores da realidade tal como ela é. Otimistas declaram que os pessimistas estão apenas querendo exagerar conflitos e tensões para manipular as coisas em seu favor. Tudo se passa como se os pessimistas fossem inertes observadores do mundo, queixando-se de seus infortúnios, enquanto os otimistas pelo menos estão "fazendo alguma coisa". Enquanto os otimistas querem engajamento e atividade, os pessimistas parecem nos empurrar para a aceitação complacente e fatalista das coisas.

Ainda que Schopenhauer ou Nietzsche estejam rastejando em seus túmulos, ambos parecem ter razão. Schopenhauer porque provou afinal que a vida termina mal e que nada mais somos do que ilusões e representações moldadas por nossa própria vontade de auto-engano. E Nietzsche porque o amor ao destino faz sobreviver nossas obras e ideias, afinal estamos aqui discutindo qual dos dois tem razão até hoje.

Fato é que quando colocamos o problema desta maneira dual estamos obviamente no interior de um problema maior, qual seja, o de que queremos amputar uma perspectiva, demandando um sentido para a vida e negando que, obviamente, há bons e maus momentos na existência. A verdadeira oposição deveria se estabelecer entre fatalistas e positivistas de um lado e dialéticos do outro.

A positividade tóxica fez sua declaração programática na entrevista de Regina Duarte à CNN, semana passada. Diante do número de mortes em ascensão no Brasil, da pauperização econômica gerada pela covid-19 e dos mortos deixados pela ditadura militar, a resposta parece ser a mesma: que tal deixar o lado ruim da vida para trás? Ou, de forma mais textual, por que ficar carregando um cemitério nas costas?

A frase serve para estabelecer o litoral entre uma perspectiva de otimismo desejante, ou seja, o que Freud chamava de uma certa ilusão necessária para continuar caminhando, e a mais pura negação perigosa de conflitos e infortúnios. Este segundo caso é particularmente dramático para a saúde mental, pois ele equivale a expulsar pela porta da frente o conflito que se reapresentará inesperadamente na porta dos fundos. Mas durante o tempo entre expulsão e retorno, em vez de examinarmos o problema e nos dedicarmos a enfrentá-lo objetiva e subjetivamente, nos comprazemos com uma paisagem de mundo confortável ou um estado mental harmonioso.

O caráter tóxico da positividade começa quando passamos a achar que apenas pela ação do nosso pensamento ou por nossa disposição de humor a realidade vai se alterar. A pessoa simplesmente não lê a continuação de "Pollyanna", chamada "Pollyanna Moça", publicada em 1915, na qual nossa heroína torna-se paralítica e sofre outras tantas desventuras.

O otimismo não nos protege do pior. Quando ele se torna tóxico, não só perdemos precioso tempo como nos colocarmos em situação de fragilidade ainda pior quando o problema retorna. Em geral, e desagradavelmente, ele retorna com uma feição cada vez pior, porque intratado.

Quando a voz do otimismo pergunta "por que carregar um cemitério nas costas", há algumas suposições em jogo como, por exemplo, o fato de que o cemitério é uma palavra "ruim", que nos traz tristeza e provavelmente seria capitalizada pelos algoritmos como indutora de pessimismo.

Mas isso deixa de lado que é lá no cemitério que estão nossos e muitas vezes mais preciosos entes queridos. O cemitério representa nosso passado, mas também nosso futuro.

Ele é lugar comunitário de respeito e sabedoria, onde nos reunimos para coisas tristes, mas também para praticar o dever de memória, que transforma gradativamente a dor em parte das saudades com a qual trazemos — desde sempre e já– um cemitério dentro de nós.

O que eu quero dizer com isso é que "carregar um cemitério nas costas" pode nos tornar mais fortes, desde que estejamos reconciliados com aqueles que se foram. Desde que os que se foram façam parte inesquecível do melhor que nós somos.

Pensando assim fica claro a inversão. O dito otimista é apenas alguém que está pensando curto, que quer ficar em uma vida no alcance imediato de sua mão.

Se aprofundamos o próprio otimismo vemos que ele se inverte em "pessimismo" para depois renascer como otimismo ampliado porque carrega nas costas a gratidão para com a história. Otimismo mais forte porque filtrado pela realidade e pela certeza da experiência que ela nos traz. Otimismo cujas costas se tornaram mais musculosas porque vivemos nosso luto coletivamente e não apenas como culpa e individualização.

Para o bem, para o mal e para além do bem e do mal.

REFERÊNCIA    

[1] "Os pesquisadores fizeram um experimento dividindo os usuários do Facebook, em geral, quase 700 mil deles, em dois grupos: um teve mais palavras positivas introduzidas em seus feed de notícias, o outro grupo foi exposto a mais palavras negativas. Os pesquisadores então mediram se esses usuários, subsequentemente, à luz dos dois tratamentos, publicaram mais palavras positivas ou negativas. Eles descobriram que, de fato, o fizeram, confirmando o contágio social. Para nossos propósitos, o ponto principal é que o estudo mostrou experimentalmente que, sem o conhecimento dos usuários do Facebook, seu humor (contágio emocional) poderia ser manipulado." In Schroeder, R. (2018) Big data: moldando o conhecimento, moldando a vida cotidiana. Revista Matrizes V.12 – Nº 2 maio/ago. 2018

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.