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Oniropolítica: nossos sonhos refletem o estado das coisas no Brasil

Christian Dunker

08/05/2020 04h00

Engin Akyurt/ Pixabay

Um dos efeitos mais notáveis e surpreendentes que nossos pacientes e analisantes têm relatado durante o confinamento social, estabelecido por causa da pandemia de coronavírus, é que seus sonhos se tornaram mais intensos, longos e marcantes.

Pessoas que raramente lembravam de seus sonhos passam a se intrigar com sua constância. Pessoas que costumavam trazer sonhos para a análise começam a relatar episódios mais extensos e narrativamente mais ricos.

Tudo se passa como se tivéssemos nos aprofundando em nossos sonhos, como se eles tivessem sido convocados por este estado de realidade cada vez mais nebulosa e inacreditável.

A jornalista Charlotte Beradt [1] sentiu uma transformação análoga na forma como as pessoas sonham, no início da década de 1930, antes mesmo que a ascensão nazista tivesse se consolidado naquele país.

Ela compilou mais de 300 sonhos, que funcionaram como uma espécie de sismógrafo social capazes de antecipar acontecimentos e práticas vindouras: campos de concentração, censura, deportações, extermínio de pessoas. As pessoas sonhavam com situações de resistência e perseguição, com alta carga de cinestesia e muitos sonhos de angústia.

Vários destes elementos já estavam aparecendo nos sonhos de nossos pacientes antes da chegada da crise da epidemia de covid-19.

Pensando nisso tínhamos proposto um projeto de pesquisa para saber se seria possível que no Brasil também pudéssemos detectar traços dessa oniropolítica, como um marcador social da temperatura dos conflitos no país. Desta maneira entendemos que o sonho, particularmente em situações traumáticas, é uma forma de nomear e desta maneira permitir que conflitos agudos ganhem forma, imagem e representação.

"Oniro" é o radical grego relativo a sonho, que deu origem ao livro "Onirocrítica" [2], escrito por Artemidoro no século II d.C. compilando 95 sonhos colhidos na Itália, na Grécia e na Ásia Menor. "Não existe nenhuma realidade que não tenha um nome", afirmava Artemidoro de Daldis. Para ele, todo sonho tem um tema e um desfecho.

Os temas podem focar a natureza ou a lei, os costumes ou a arte, o nome ou o tempo. Conforme o desfecho, os sonhos se dividem em quatro tipos: pessoais, impessoais ou então eles podem ser políticos ou cósmicos.

Tiramos daí nossa primeira hipótese, de que as pessoas estão sonhando mais ou pelo menos lembrando mais de seus sonhos como um esforço para nomear esta nova realidade que se impõe, feita de contrariedades e perdas, de medos e angústias, de restrições de mobilidade e aguçamento de conflitos políticos.

Dezessete séculos mais tarde, Freud retomará Artemidoro concordando que os sonhos têm um sentido. Mas este sentido não é o mesmo para todos, ele deve ser deduzido das associações e ligações produzidas pelo próprio sonhante em sua história particular. Eles não descrevem um futuro que já estaria escrito e definido como um destino, mas apresentam um futuro moldado por nossos desejos.

Na "Interpretação dos Sonhos" [3], obra magna do criador da psicanálise, os sonhos são descritos como o "guardião do sono", ou seja, eles têm a função de nos manter dormindo, impedindo que moções de pensamento e de afeto desagradáveis, desativando nossa consciência e motilidade, interrompam o sonho. Ainda assim isso acontece quando não conseguimos deformar suficientemente os desejos que batem a nossa porta noturna. Este é o caso dos sonhos de angústia, dos terrores noturnos ou pesadelos, que nos acordam antes da hora.

Para Freud, o sonho é uma máquina que parte do presente, com suas inquietudes e pendências cotidianas, vai ao passado, conectando-se com nossos desejos, virtualmente infantis, particularmente os de natureza sexual, e depois disso nossos pensamentos são comprimidos, deformados por certas substituições simbólicas e transformados em imagens.

Estas imagens alucinadas, que formam um cinema privado de nossa vida noturna são uma passagem para um novo nível de realidade: o nível das imagens animadas, de nossos desejos. Por isso, eles representam o futuro, porque o futuro é em grande medida uma decorrência de como agimos em relação aos nossos desejos presentes.

Chegamos assim à segunda hipótese sobre porque estamos sonhando tanto. Nosso momento exige que elaboremos a perda de nossa vida pregressa, um luto de como vivíamos, somado ao luto potencial ou real de pessoas que estamos perdendo. Nossos sonhos são então a expressão de um novo mundo possível, que está sendo gestado pela retomada de desejos passados, mas em uma forma inédita, pois inédito é o que estamos enfrentando.    

Cem anos depois de Freud os achados recentes da neurociência parecem corroborar a ideia de que o trabalho do sonho tem uma função de recomposição cognitiva e de rearticulação da memória. Sidarta Ribeiro, em seu magnífico "O Oráculo da Noite" [4], mostra que o sonho pode funcionar como um simulador da vida e, portanto, há certas formas de sonhar que podem funcionar como solucionadoras de problemas, ou como diz o xamã Kopenawa:

"É desse modo que os xamãs conseguem sonhar com as terras devastadas que cercam nossa floresta e com a ebulição das fumaças de epidemia que surgem delas. Só os xapiri nos tornam realmente sábios, porque quando dançam para nós suas imagens aplicam nosso pensamento." [5]

Chegamos assim à nossa terceira hipótese, a saber, que poderíamos ler os sonhos deste momento de pandemia como orientados por um desejo hipoteticamente comum: que isso tudo acabe e a vida volte ao normal, ou que uma nova floresta se abra. Isso significaria que além do significado individual, os sonhos poderiam ser lidos como uma sismografia do futuro.

Em nossos relatos preliminares vemos que os sonhadores sonham também, e repetitivamente, com imagens hipernítidas, muito intensas e com temas ligados à invasão, sujeira e limpeza, bem como criminosos andando pelas ruas desertas. Outras vezes sonham narrativas longas, retomando personagens por vezes esquecidos do passado mais longínquo, tudo como se precisássemos ampliar o espectro de nossa história para poder criar um futuro possível mais além da negação simples do presente eterno, que não para de não passar.

REFERÊNCIAS

[1] Beradt, C. (2017) Sonhos no Terceiro Reich. São Paulo: Três Estrelas.

[2] Artemidoro, (2dc) Sobre a Interpretação dos Sonhos. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

[3] Freud, S. (1900) Interpretação dos Sonhos. Obras Completas Sigmund Freud, Vol IV. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

[4] Ribeiro, S. (2019) O Oráculo da Noite. São Paulo: Companhia das Letras.

[5] Kopenawa, D. & Albert, B. (2010) A Queda do Céu. Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, p. 333-334.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.