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Abordagem brasileira cria novo contexto das tecnologias da deseducação

Christian Dunker

24/04/2020 04h00

Angel Hernandez/ Pixabay

Uma das percepções mais curiosas daqueles que se dedicaram a observar o desenvolvimento infantil sugere que nossa tendência a aprender é um traço definidor de nossa espécie, mas também um tipo de maldição. Ou seja, nós não conseguimos parar de aprender.

Aquele que se desvia dos estudos ou que se recusa a participar dos esquemas de aprendizagem formal frequentemente está apenas interessado em aprender outra coisa, de outra maneira.  Isso ajuda a entender por que alunos medíocres ou medianos podem se tornar líderes em suas atividades laborais ou familiares ao passo que os verdadeiros gênios de sala de aula, muitas vezes acabam permanecendo lá mesmo, na sala de aula. Há jovens que se interessam pelas ruas, pelos videogames, pelas relações intersubjetivas ou até mesmo pela música e que se veem excluídos e inadequados diante dos currículos formais e sua rede de expectativas de desempenho.

Muitas vezes essas duas circunstâncias são reunidas para diminuir os que ficam em sala de aula, também chamados professores, que invertendo a antiga hierarquia são agora os fracassados diante do mundo real. A contenda entre educação formal e a informal, entre os saberes instituídos e os saberes populares, entre a educação para a emancipação ou a educação para o mercado tende a continuar. De certa forma ela faz parte da história da educação.

O que é novo na abordagem sobre a educação no Brasil, seja em ensino básico, seja em ensino universitário ou pesquisa é o surgimento do que se poderia chamar de tecnologias da deseducação. Dizemos que alguém é deseducado quando este corrompe regras formais de polidez e etiqueta, esperadas para um dado estado de civilização ou contexto situacional.

Norbert Elias mostrou como a separação entre a forma como nos comportamos em espaços privados e em espaços públicos é um dos elementos característicos do processo civilizatório moderno. A partir do século XVI começamos a aprender coisas como não escarrar no meio na sala, não comer com as mãos, mas com talheres, não exalar ou expelir cheiros[1]. A etiqueta torna-se assim a "pequena ética" na qual aprendemos como lidar com o outro e com nós mesmos, com nossos desejos e com suas expressões.

Imanuel Kant desenvolveu a imagem de que a vida social poderia ser toda ela deduzida da forma como nos comportamos na "sociedade da mesa" (Tischgesellschaft). A forma como falamos e deixamos os outros falarem, a maneira como aceitamos ou pedimos os elementos da mesa, assim como os assuntos e a forma de abordá-los são uma miniatura de nossos códigos sociais. A partir de então o incivilizado, passou a se diferenciar do inculto. Aquele que não passou por uma educação como disciplina do corpo, é um "deseducado formal", aquele que não aprofundou seu repertório sobre certos saberes valorizados, é um "deseducado de conteúdo".

O mal-educado é alguém que não foi exposto ou não incorporou a tecnologia dos costumes de seu país, de sua classe social ou de sua cultura. Aquele que não domina o código cultural hegemônico de sua época, ou que lhe é esperado segundo seu tipo social, pode ainda assim dizer-se participante de um outro repertório cultural, por exemplo, como estrangeiro, divergente ou alternativo. Não se aplica a noção de ignorância, da mesma maneira, nos dois casos.

Mas o que temos no Brasil de hoje é uma arte política da deseducação, ou seja, um incentivo, metódico e ordenado, por parte de certas autoridades políticas, para que aqueles que têm domínio das tecnologias civilizatórias, e alguma compreensão do repertório de saberes convencionados, comportem-se de maneira inversa àquela que incorporaram formalmente na escola. É uma reversão da ocupação do espaço público por maneiras e práticas própria dos espaços privados. Isso se mostra, na linguagem direta, na expressão de convicções, no método de exercer poder e até mesmo nas exibições alimentares e preferências sexuais.

Como vimos, não é possível parar de aprender, mas sob certas condições é possível negar o que se aprendeu criando assim um falso ignorante. Faz parte da estética do tosco, que caracteriza esta forma de arte, contra civilizatória, criar personagens miméticos, que se comportam como "o verdadeiro e autêntico povo" se comportaria. Os modos familiares e privados precisam ser um modelo de tratamento público porque isso mostra como a deseducação é, na prática, a autorização do que todos já sabem fazer. Basta autorizar o espontâneo, como sinônimo de incivilizado e inculto, que os "espontâneos" se sentirão imediatamente empoderados.

A confrontação de práticas de ciência é também uma parte essencial da deseducação, pois ela indica que nosso saber não precisa estar em confronto com o que ainda não sabemos. Como se o saber tivesse uma estrutura fechada que aumenta a segurança dos adeptos pelo número de crentes que consegue reunir.

A arte da deseducação não pode ser praticada, primariamente, pelos verdadeiros excluídos de processos formais de educação ou precarizados do ponto de vista da qualidade do repertório cultural. Por isso ela é uma tecnologia contra-civilizatória que se formou primeiro entre as elites brancas, masculinas e motorizadas do país, sendo aspergida em seguida como uma boa nova para as classes epistemicamente excluídas. Esta boa nova diz o seguinte: "não é preciso mais escolas nem universidades, nem ciência nem especialistas, 'nós' já sabemos tudo que há para saber, basta livrar-se das camadas de poeira ideológica que as tentativas de educação colocaram sobre você". Uma maneira eficaz de retirar investimentos em educação, sob aplauso popular.

Mas a deseducação não é algo que se realize por decreto. Ela envolve um trabalho paciente e persistente de recusa de todos os signos que fazem da educação formal um processo no qual você primeiro se submete (a um autor, uma ideia, um método, a uma disciplina) para depois separar-se dele, retendo e tornando seu, à sua própria maneira, o que a tradição te legou como herança cultural. Na deseducação só há recusa, não há momento de assunção do ponto de visita do outro. Na deseducação o outro já disse tudo que havia para ser dito, agora se trata de apagar seus erros e falar mais alto que seus acertos.

Imagem da revolução cultural chinesa destaca Mao Tsé-Tung e chineses armados segurando o "Livro Vermelho" (Reprodução)

Poucos países tentaram realmente um processo de deseducação deste tipo, envolvendo reformas educacionais, crítica e destruição do patrimônio cultural de um país. O irônico é que este processo tem um nome. Chama-se revolução cultural. Há dois casos de revolução cultural mais conhecidos: a China de Mao Tsé-Tung e o Camboja governado pelo Khmer Vermelho.

A revolução cultural chinesa de 1966-1976 foi uma estratégia para lidar com o fracasso econômico do que o Grande Timoneiro chamou de "o grande salto para a frente", que terminou com a morte por fome de milhões de chineses. Os comitês revolucionários atacavam sobretudo os intelectuais, professores e políticos que eram acusados de deslealdade para o grande líder. O ensino nas universidades foi quase paralisado e substituído integralmente pelo "Livro Vermelho", que para os maoístas continha tudo que era necessário saber.  O ensino feito diretamente no local de trabalho mostrava-se prático, eficaz e sem ideologia.

A revolução cultural do Camboja, liderada por Pol Pot, entre 1975 e 1979, baseou-se no ódio estimulado contra os governantes anteriores.  O simples fato de ser um professor ou educador era visto como suspeito. As escolas foram desativadas ou transformadas em depósitos para animais. O Khmer Vermelho queria fazer o país retroceder, pelo menos vinte anos, regressando para um momento agrário e de forte verticalização do poder. Com esta plataforma o que realmente aconteceu foi a expansão do nepotismo, com a família de Pol Pot se ocupando dos negócios lucrativos do país e a estimulação para a formação de milícias cuja função era denunciar, atacar ou desprestigiar toda pessoa que tivesse contato com o conhecimento estrangeiro. A ciência europeia era tida como instrumento de colonização e uma forma de saber que precisava ser afastada. Logo depois o ensino se militarizou, atendendo principalmente os filhos dos generais e governantes do país. Em nome da luta contra a corrupção o país instituiu uma corrupção concentrada e administrada por seus líderes.

Ora, a nova revolução cultural brasileira guarda curiosa proximidade com duas experiências tidas como socialistas, mas que no fundo são apenas exemplos de como a deseducação pode funcionar como uma estratégia política tentadora em países nos quais a distribuição de bens simbólicos, como a educação e a cultura, é persistentemente muito injusta.

REFERÊNCIA

[1] Elias, N. (1939) O Processo Civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.