PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Em nome de Jesus? Política de abstinência sexual tem base na Bíblia?

Christian Dunker

14/02/2020 04h00

Pixabay

Na recente discussão em torno da elevação da abstinência sexual à condição de política pública de saúde, proposta pela ministra Damares[1], muitos tem salientado a ineficácia científica deste método. Complicações durante a gravidez adolescente são a principal causa de morte de mulheres entre 15 e 19 anos de idade no mundo[2].  No Brasil 61,6% das jovens iniciam sua atividade sexual entre 16 e 18 anos, mas para 23,3%, isso acontece entre 13 e 15 anos[3].  Apesar disso, a política que vinha sendo desenvolvida fez com que a gravidez precoce caísse 39% entre 2000 e 2018[4].

Mas não sejamos tão arrogantes. Criticar a abstinência sexual como método contraceptivo pode ser mais um caso no qual o saber intelectual e universitário, baseado em uma ciência erudita, desqualifica o saber das pessoas comuns. Por isso não temos que aceitar, incondicionalmente, os resultados de uma meta-análise recente, que agrupou 62 pesquisas independentes, mostrando que a educação para a abstinência sexual não reduz o risco de gravidez adolescente e de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis[5]. Uma crença pode ser alternativa e minoritária, mas mesmo assim ser eficaz e  apropriada para um determinado contexto.

Apesar de tudo o incentivo da abstinência sexual entre jovens é um método educativo. Educar para a abstinência é o que muitos pretendem quando se trata do tratamento da drogadição. Outras tecnologias, reconhecidas como mais eficazes, também são parte de uma estratégia educativa para redução de riscos, principalmente quando são focadas no uso de preservativos. Táticas contraceptivas como diafragma, preservativo feminino, pílula e até mesmo condutas menos eficazes, tais como coito interrompido ou cálculo da data de ovulação (tabelinha), pretendem ensinar as pessoas para que elas possam escolher. Mas tudo isso só pode acontecer no contexto educativo no qual falamos sobre isso.

Mas falar sobre sexo já não é uma atividade arriscada? Introduz o assunto, dá ideias, suscita a curiosidade. Aprendemos que falar sobre sexo envolve uma ideologia, representada por um partido. Só que agora o partido mudou. Por exemplo, a Sociedade Brasileira de Pediatria posicionou-se contrária à diretiva da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do governo. Mas sociedades representativas tem interesses políticos também. No meio de tanta confusão, fake news e pós-verdade por que não podemos ter uma versão religiosa deste assunto?

Uma educação para prevenir gravidez indesejável já presume que os jovens não queiram a gravidez, que eles possam adquirir saber para escolher melhor, como quando e com quem. Mas que possibilidade real de escolha tem uma menina de 13 ou 14 anos? Por que não deixar os pais decidirem, antes de expor equivocadamente a vida íntima e privada de um púbere? Por razões como esta a pessoa que nunca pensou em sexo nem o praticou estaria protegida dele até a hora certa.

Muitos poderiam dizer que optar pela abstinência sexual como política pública contraria o ideal de uma Escola sem Partido, pois é como transformar o entendimento de alguns em regra geral, ao modo de uma ideologia. O Partido da Religião, se é que podemos reunir assim aos anseios da chamada bancada evangélica, defende e doutrina que a abstinência é um método desejável para enfrentar epidemias sexualmente transmissíveis e gravidez precoce.

Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves (Daniel Stone/Futura Press/Folhapress)

Mas religião não é ideologia. Concordo que as razões da elite podem não ser as mesmas da sabedoria popular. Há muita arrogância em satirizar saberes das classes pobres. Há um saber popular que precisa ser respeitado, e nele há uma longa tradição oral que acredita na abstinência sexual. Devemos, portanto, pedir razões que sejam pertinentes ao universo evangélico de onde a ministra Damares parece extrair sua autoridade. Lembremos que ela  apresenta-se como Mestre em Educação, Direito Constitucional e Direito de Família, a partir de diplomas autorreconhecidos por razões bíblicas:

E Ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres." [6]

Não vamos discutir títulos e suas validades que são tão frágeis. A autodeclaração é importante pois fala da verdade daquela pessoa. Admitindo-se, portanto, a relatividade do saber científico, o interesse político das comunidades médicas, a contaminação ideológica das escolas e a investidura divina da pastora seria preciso perguntar onde exatamente está escrito na Bíblia que a abstinência sexual é uma virtude ou uma prática desejável para os jovens?

Até onde pude investigar, os casamentos na época do antigo testamento e mesmo na Judeia romana aconteciam, em regra, antes dos quinze anos. Na verdade, a ideia mesma de casamento tal como conhecemos hoje, ao que parece, não existia. Não havia conceito de juventude ou adolescência, sendo a idade reprodutiva confundida com o início da menstruação, mas vamos arredondar a conta.

Seguindo as fontes de autoridade que a ministra escolhe, lembrando que ela faz parte de um governo democraticamente eleito, que tem a prerrogativa de escolher suas referências e fontes, onde estão as fontes bíblicas desta ideia? Não consigo me contentar com afirmações vagas como:

A vontade de Deus é que vocês sejam santificados: abstenham-se da imoralidade sexual. Cada um saiba controlar seu próprio corpo de maneira santa e honrosa, não dominado pela paixão de desejos desenfreados, como os pagãos que desconhecem Deus." [7]

Não que isso não seja a mais pura verdade, mas é uma verdade que não fala em jovens, nem em gravidez precoce, nem especifica que o sexo antes do casamento seria uma imoralidade, muito menos que neste momento da vida os desejos ou paixões seriam sem freio (mais do que em qualquer outra). Espero realmente que a justificativa bíblica não se ampare apenas na ideia vaga de imoralidade sexual[8], desejos maus[9], desejos carnais[10], depravação[11], libertinagem[12] ou monogamia[13], pois em nenhum destes casos é a abstinência que está em jogo, mas a castidade, que é outra coisa. Para criar uma política pública é necessário algo mais específico, algo que diga teologicamente, em acordo com a hermenêutica bíblica mais rigorosa, que a abstinência é realmente uma benção, pois evita filhos indesejáveis.

Senhores, mestres e pastores da Igreja do Evangelho Quadrangular, ao qual pertence a ministra e seu pai, pastor desta honorável denominação cristã, nos ajudem a esclarecer esta questão, nos termos que são os que vocês reconhecem como corretos e justos. Pois assim como há falsos cientistas e impostores intelectuais, deve haver falsos leitores da Bíblia e pessoas que se valem dela para enganar incautos.

Segundo este judeu chamado Sigmund Freud, a abstinência sexual é um sério risco para a saúde mental das pessoas. Já em 1895 ele nos advertia que a angústia virginal ou angústia dos adolescentes pode provocar "neurose de angústia que de maneira quase típica se combina com uma neurose"[14]. A abstinência sexual aumenta a irritação, a impaciência e a intolerância das pessoas. Na vida prisional ela faz aumentar a violência, na prisão voluntária da internet ela cria Incels (confira o vídeo abaixo).   Para muitas pessoas a abstinência pode ser natural, mas para outras ela representa o verdadeiro inferno na terra: uma luta moral permanente que toma tempo e cria culpa em solo fértil para ideias obsessivas e sentimentos de inadequação a si. Nesta situação, quando cedemos à força de nossos impulsos, depois de muito lutar contra eles, já não há mais energia para nos preocuparmos em fazê-lo de modo cuidadoso e prevenido, o que concorre para produzir prazer e punição no mesmo ato.

Já fui convencido que uma leitura do velho testamento, combinada com certas decisões interpretativas, pode justificar que Jesus Cristo defendeu a violência, o uso das armas e o ataque raivoso contra inimigos, mas não consigo encontrar a justificativa correta para que esta atitude de abstinência sexual tenha subsídio bíblico sólido e literal. Nem mesmo os jovens evangélicos acreditam nisso[15].  Se estivéssemos falando da Igreja Católica, os concílios de Nicéia e Latrão poderiam nos ajudar nesta matéria, mas não consigo acreditar que a leitura evangélica esteja concordando com isso só para criar uma política pública.

Aliás, seria muito bom uma manifestação coletiva e eclesiástica que viesse a público mostrar que o Evangelismo não concorda com o uso da cruz em associação ao nazismo, como vimos no ex-ministro Roberto Alvim, que não é de Jesus vilipendiar uma jornalista como Patrícia Campos Melo, nem ridicularizar empregadas domésticas que viajam ao exterior, como disse o ministro Paulo Guedes, ou nomear ministro do STF "terrivelmente evangélico"[16].

Não começaria a verdadeira castidade, pela abstinência do uso em vão da palavra de Jesus?

 

P.S. Para o pessoal que está me escrevendo pensando em Paulo Co 1.9 "Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se." já adianto que esta passagem fala em casamento, não em abstinência. Ou seja, neste caso a Política Pública proposta deveria ser "Case-se mais cedo, case-se assim que sentir qualquer tipo de abrasamento", e não "Contenha o abrasamento em você indefinidamente". Além do mais a passagem não conecta a prática da abstinência com o desejo de evitar filhos. 

1 Coríntios 7:9

 

[1] "Sem citar preservativos, campanha contra gravidez na adolescência prega reflexão". Folha de S.Paulo 

[2]  Organização Mundial da Saúde 

[3] Boletim de Psicologia 

[4] "Abstinência sexual proposta por Damares não vai vingar, dizem jovens". Folha de S.Paulo 

[5] National Center for Biotechnology Information

[6] Efésios 4:11

[7] Tessalonicences 4:3-5

[8] Coríntios 6:18.

[9] Colossenses 3:15.

[10] Pedro 2: 11.

[11] Romanos 13:13

[12] Gálatas 5: 19-21.

[13] Coríntios 7: 1-2.

[14] Freud, S. (1895) Alguns motivos para separar da neurastenia uma síndrome específica chamada neurose de angústia. Obras Completas de Sigmund Freud vol III. Buenos Aires: Amorrortu, 100-101.

[15] "Millennials want contraception to be accessible to everyone". Huffpost 

[16] "Esquerda ensaia busca por evangélicos, mas "engatinha" comparada à direita". UOL 

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.