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Aperfeiçoar a consciência cibernética acelerá nossos próprios dilemas

Christian Dunker

30/08/2019 04h00

Crédito: Christian Dunker

Como determinação e de indeterminação –elementos que compõem a consciência–  são em alguma medida contrários entre si, nossa relação com o mundo da tecnologia é historicamente sempre ambígua. Queremos aperfeiçoar o que temos, mas esquecemos que acelerar a simulação da realidade também acentua o que ela tem de desagradável 

Estima-se que, em um futuro tangível, a maior parte dos dados –hoje acumulados sob forma de linguagem digital não estruturada– adquira uma nova organização baseada no acúmulo inteligente de relações e inter-relações. Isso significa capacidade de reconhecimento, de problemas e soluções, baseada em escolhas anteriormente individualizadas e transformadas em padrões.

Se hoje as redes sociais possuem algoritmos para distribuir informações, dali em diante cada um terá seu próprio algoritmo. Mas será que isso é condição suficiente para falarmos em uma verdadeira consciência cibernética? Afinal, posso não ter consciência de qual é o "meu algoritmo" e, ainda assim, ser governado por ele. Ter consciência não é o mesmo que ter consciência da consciência.

Ao contrário do que muitos pensam, o grande problema para a filosofia da mente ou para a maior parte das neurociências –e mesmo para a psicanálise– não é saber como funciona o inconsciente em suas várias acepções, mas como entender como funciona a consciência. A consciência não é apenas o efeito de comparação entre passado e presente, pois ela exige duas outras operações difíceis de simular: a distinção entre realidade e ilusão, e a antecipação de intenções do outro. Por exemplo, o reconhecimento de mentiras, sentidos indiretos e latentes.

As diferentes teorias que procuram explicar o fenômeno da consciência sempre se depararam com estes dois desafios. O primeiro é que a consciência envolve qualidades, e é difícil explicar como a propriedade da qualidade emerge a partir de processos físicos, determinados pela quantidade.

Por exemplo, o mundo é supostamente o mesmo para todas as espécies, mas nós humanos o percebemos multicolorido, ao contrário dos cães, que o enxergam azul, amarelo e cinza, com curvas sonoras menos amplas do que para um morcego, e dotado de cheiros que só um felino pode perceber. Percebemos o mundo dentro de um espectro de qualidades, por isso ele se apresenta como uma unidade e não como a soma de informações. Tendemos a produzir esta unidade, mesmo quando esta não é dada na realidade.

O segundo problema é entender a relação da consciência com a experiência recursiva do tempo. Por exemplo, considere que alguém pode ser "ao mesmo tempo" aquela criança que um dia teve cinco ou dez anos, este que tem 53 e aquele outro que, com sorte, terá sessenta ou setenta anos. Há uma unidade formada por alterações mútuas entre o futuro e o passado a cada momento presente. Por isso Husserl definiu a consciência como "fluxo temporal de significações" e Freud levantou a hipótese é de que a que a consciência é "auto-percepção frequencial do tempo".

A consciência envolve o reconhecimento de signos, coisas e pessoas, mas também de "outras" consciências. A segunda propriedade emergente da consciência é o tempo "vivido"  e compartilhado, não apenas unidimensional, retilíneo e irreversível.

Podemos nos apoiar na história da arte cibernética ou computacional[1] para verificar que desde seu início, nos anos 1960, ela esteve marcada por duas perspectivas diversas que exploram estes dois aspectos do problema da consciência: simulação e reconhecimento. Na exposição londrina de 1968 "Cybernetic and Serendipity", estas duas tendências reuniram-se na noção de "propriedade emergente", ou seja, qualidades que surgem, repentinamente no interior de um sistema, de tal forma que ele se transforma.

Serendipity é uma palavra sem equivalente perfeito em português, que indica algo como "feliz descoberta ao acaso"[2], o resultado inesperado para um determinado encontro.  A simulação, ou seja, a capacidade cibernética de mimetizar processos randômicos, extraindo deles alguma ordem ou sentido, parece dizer "quanto mais, mais" (como nos algoritmos das redes sociais).

Por outro lado, há a força de reconhecimento de diferenças que alteram os padrões constituídos e que são capazes de inaugurar uma nova série de interação, ou seja, "quero outra coisa". Por isso um dos desafios mais fortes para a estruturação de dados é a análise de padrões faciais e de voz, pois eles envolvem combinações entre a emergência de diferenças imprevisíveis e padrões algorítmicos de repetição.

Estes dois problemas se alternam na série futurista "Black Mirror". Temos os episódios que exploram os limites de experiências determinadas por simulação, como por exemplo o marido morto que é substituído por um clone, o soldado que é forçado a ver pessoas como baratas em função de um implante cerebral, ou o jovem que fica preso em um teste de realidade virtual.

Mas há também os episódios nos quais se explora a emergência produtiva da indeterminação, como por exemplo, dois amigos que se tornam amantes imprevistos no interior de um videogame de lutas, o marido ciumento que não consegue se livrar do efeito de memórias registradas por meio de um chip cerebral,  a decisão de uma mulher quanto a com quem passar seu futuro pós-mortem. Os limites da simulação exercitam o limiar entre realidade e ficção, os limites do reconhecimento nos levam a explorar nossa potência de decisão em ambientes cada vez mais indeterminados.

Talvez por estas duas exigências, de determinação e de indeterminação, serem em alguma medida contrárias entre si que nossa relação com o mundo da tecnologia seja historicamente sempre ambígua. Queremos aperfeiçoar o que temos, fazer as coisas mais rápido, com mais segurança e mais facilidade. Queremos acelerar o que já temos, imaginando mundos futuros que são espelhos resolutivos dos problemas que hoje conseguimos formular. Mas quando pensamos o futuro da técnica assim, esquecemos que ao acelerar a simulação da realidade, nós também acentuamos o que ela tem de desagradável e com isso transformamos a consciência que se relaciona com esta realidade, criando novos e imprevistos problemas.

Para quem acha que esta discussão é abstrata demais, considere o problema simples que é escolher uma escola para seu filho ou escolher como lidar com a sua velhice. São exercícios práticos e reais de futurologia e que envolvem como você é capaz de simular realidades e que espaço você guarda para a indeterminação dentro dos seus sonhos… antes que eles virem pesadelos.

[1] Pooper, Frank

[2] Atributo dos Príncipes de Sri Lanka, ou Serendip, segundo o escritor do século XVI, Horance Walpole em "The Three Princes of Serendip".

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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