Blog do Dunker http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir. Tue, 07 Apr 2020 18:05:40 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 O que é verdade e o que é mentira sobre Freud na série da Netflix http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/04/03/o-que-e-verdade-e-o-que-e-mentira-sobre-freud-na-serie-da-netflix/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/04/03/o-que-e-verdade-e-o-que-e-mentira-sobre-freud-na-serie-da-netflix/#respond Fri, 03 Apr 2020 07:00:44 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=451

Série “Freud” (Divulgação/ Netflix)

[ATENÇÃO: o texto pode conter spoilers]

Às vezes me pergunto se não há Tarantino demais no cinema contemporâneo, não sei se a fórmula realmente se aplica a qualquer coisa. Este é o caso da série “Freud (2020) da Netflix que alcançou o top 3 de “conteúdo para maratonar” na primeira semana da quarentena.

Tudo vai bem até que o Sr. Sobrenatural de Almeida resolve aparecer. A Viena imperial está admiravelmente bem representada, com destaque para as cenas íntimas que retratam como as pessoas viviam nos quintais de dois ou três pisos em contraste com a imponente Ring Strasse, projetada e executada pelo imperador Francisco José, retratado com perfeição germânica nos costumes e no modo de agir. O filme foca a tensão política entre Áustria e Hungria, que sintetiza as dificuldades de manter a unidade de um império que incluía as históricas diversidades nacionais dos Bálcãs até a Polônia.

A Viena fin de siècle, capital do Império Austro-Húngaro, era o lugar onde gestou-se o novo mundo da arquitetura modernista, da art nouveau, do expressionismo de Klimt, o dodecafonismo de Schoenberg,  a fenomenologia de Husserl e o positivismo lógico de Wittgenstein, passando pelos cafés e suas incríveis Sacher Torten. Os detalhes da série são impagáveis, como por exemplo, a governanta de Freud, que fala um adorável alemão com sotaque ídiche, quase inencontrável hoje em dia, assim como sua sabedoria: “A felicidade é um pássaro que logo vai embora. O coração é uma gaiola”.

Muitos me escreveram porque a série constrói o jovem Freud como herói, auxiliar de investigador policial e paranormal, o que obviamente tem levantado dúvidas e críticas de quem está menos habituado com o personagem histórico. Para reduzir spoilers e tentar responder a estas inquietações, vou fazer uma lista de coisas verídicas e plausíveis, presentes na série, ao lado de outras que são obra e graça da liberdade ficcional exercida pelos diretores e roteiristas.

A série permite distinguir três tipos de ficções: aquelas que preservam fatos históricos acrescentando-lhes novos fatos “fictícios”, as ficções que preservam fatos históricos, mas os interpretam de um modo “alternativo” e as ficções que criam um universo ordenado de fatos e interpretações que preservam ou derrogam a “estrutura de ficção” referida a uma verdade.  Vejamos como isso funciona em um exercício de aplicação da lógica bivalente aos oito primeiros episódios da primeira temporada da série “Freud”.

Sigmund Freud (Divulgação)

  1.  Sim, Freud usou cocaína. Mas ele o fazia na forma injetável, estudando em si mesmo, por meio de instrumentos de medicação da potência muscular, como o dinamômetro e o neuramebímetro, os efeitos sensoriais e motores da droga. Ele publicou quatro artigos científicos sobre isso [1], entre 1884 e 1887, data provável dos acontecimentos narrados na série, posto que ele se casou com Martha Bernays em 1886. Advogou seu uso terapêutico em quadros como neurastenia, histeria, melancolia, mas também como tratamento para a dependência de morfina, que ocasiona dores terríveis durante suas crises de abstinências. Ele recomendou a droga a seu amigo Fleischl, que se tornou dependente e finalmente se suicidou. Freud pesquisava o uso terapêutico estimulante e analgésico da coca, em cuja época só havia medicações calmantes. Freud abandona esta linha de pesquisa diante do caso de seu amigo, mas também porque surgem relatos de forte dependência gerada pela coca. O oftalmologista Karl Köller, amigo de Freud, [2] retomou a pesquisa sobre a cocaína, focando em seus efeitos anestésicos, chegando a operar o glaucoma do pai de Freud. Köller tornou-se um dos pioneiros das cirurgias oculares, sendo indicado várias vezes ao prêmio Nobel.  
  1. Não, Freud não se envolveu sexualmente com pacientes. Bertha Papenheim, nome real de Ana O., paciente atendida por Joseph Breuer, cujo caso é discutido em “Estudos sobre Histeria“, sofreu um “efeito colateral” do método, pela erupção de sentimentos sexuais em relação a seu médico. Freud, que foi uma espécie de supervisor de Breuer neste caso, lembrava o dito de Charcot de que “na histeria é sempre a coisa genital”. A importância da empatia e a “saúde do médico” são de fato recomendações de Freud a Breuer e não o contrário. Por outro lado, Breuer ajudou financeiramente Freud e encaminhou-lhe os primeiros pacientes, como a série sugere. Apesar disso, durante algum tempo houve um grande empenho para mostrar que Freud não era boa pessoa. Um crítico literário chamado Crews chegou a levantar, como evidência da infidelidade freudiana, a assinatura no livro de um albergue na Morávia como prova de que ele tinha um caso com a cunhada, Mynna Bernais.
  1. Sim, Freud usou o hipnotismo e a catarse como método de cura. Na época de sua colaboração com Breuer, resultando no trabalho a quatro mãos “Estudos sobre Histeria” em 1893 [3], as internações de histéricas com sintomas como cegueira e insensibilidade a dor eram comuns. Freud abandona a hipnose pois seus resultados não eram duradouro, as causas dos sintomas não eram tocadas e porque ele se achava um péssimo hipnotizador. Os tratamentos envolvendo choques térmicos, elétricos, exercícios mecânicos e internação com contenção física eram a regra. Theodor Meynert era de fato o chefe de Freud na psiquiatria e detestava a perspectiva de Charcot e Janet (“a praga francesa”), mas nunca demitiu Freud. Este, por sua vez, nunca escreveu um trabalho chamado “O poder do Hipnotismo, mas publicou um artigo chamado “Um Caso de Cura pelo Hipnotismo[4].
  1. Não, Freud não teve nenhuma paciente chamada Fleur Salomé. Mas o nome parece muito bem escolhido para a protagonista da série. Junta um quase anagrama de Freud (Freul … Fleur), com uma das mulheres mais admiradas por Freud, Lou Andreas-Salomé (1861-1937), amante do poeta Rainer Maria Rilke e de Nietzsche, uma das primeiras a trazer o tema da repetição para a psicanálise. Ao mesmo tempo parece uma alusão a “Les Fleurs du Mal”, (“As Flores do Mal“, 1857), coletânea de poesias de Baudelaire que inicia a modernidade freudiana. “O Médico e o Monstro“, de Robert Louis Stevenson, é de 1885, e apesar do não envolvimento de Freud com o espiritismo, muitos veem na literatura romântica da dissociação, dos estados alterados de consciência e do desdobramento da personalidade um dos precursores discursivos da emergência da psicanálise.

    Lou Andreas-Salomé (Atelier Elvira)

  1. Sim, Freud tinha uma coleção de estátuas de antiguidades. Depois ela se tornou famosa e exposta em vários museus pelo mundo. Ao que tudo indica, ele não conheceu rituais com múmias e não há rastros de seu contato com a resistência húngara contra a hegemonia dos Habsburgos. Freud tinha um fascínio por Aníbal (247-183), herói cartaginês que chegou às portas de Roma, tendo vingado seu pai. Aparentemente é dele a estátua que é mostrada na abertura de cada episódio. A saga de Freud como pesquisador na Universidade de Viena é romanceada, no entanto, explora fatos realmente ocorridos: as exposições públicas na universidade, seu trabalho com Charcot, Breuer, Meynart, o preconceito contra judeus, sua luta para tornar-se professor, o que realmente acontece apenas em 1902.
  1. Não, Freud não acredita em deuses ou demônios. Na psicanálise eles não são mais que criações dos próprios seres humanos moldadas por nossas experiências infantis de desamparo e proteção, por nossas aspirações narcísicas, por nossas ilusões e ideais. As experiências paranormais, como a telepatia e o déjà-vu, são construídas a partir de nossas experiências com outros e com nossos corpos e afetos que são como dragões no paraíso. Taltos é de fato um espírito maligno do folclore húngaro e está ligado a um  tipo de xamanismo. Enquanto função social a psicanálise é homóloga à dos xamãs, ainda que não nos transformemos em animais, agimos como diplomatas entre mundos, embaixadores entre gêneros, mediadores entre conflitos e tradutores entre linguagens.   
  1. Sim, Freud era amigo de Arthur Schnitzler. Este último de fato trabalhou na mesma enfermaria psiquiátrica de Meynart, contudo o primeiro contato entre eles parece ter ocorrido somente em 1906[5]. Freud admirava o autor de “Traumnovelle” (“Novela Onírica”, 1926), depois tornada o filme “De Olhos bem Fechados” (Stanley Kubrick, 1999) pelo seu método de escrita associativa com crítica da moralidade com alta paradoxalidade dos personagens. Recursos deste tipo são usados várias vezes na série, por exemplo, ao mostrar eventos que não aconteceram ou ao recuperar experiências infantis lembradas, como a cena de Freud com o pai na rua, onde ele encontra seu próprio corpo, ou a cena das mãos da mãe de Freud esfregando-se até produzir o pó, do qual somos feitos e para o qual voltaremos. Ambas as cenas, diga-se de passagem, são lembranças reais mencionadas por Freud.
  1. Não, Freud não participou de investigações policiais. Contudo, ele escreveu sobre a possibilidade do uso do hipnotismo para praticar crimes. Além disso, muitos já observaram [6] a homologia entre a emergência da psicanálise, como prática clínica e a aparição do romance policial como gênero literário. “Os Assassinatos da Rua Morgue“, de 1841, e “A Carta Roubada“, de 1844, de Edgar Alan Poe, ao lado dos romances do médico escocês Arthur Conan Doyle, sobre Sherlock Homes, publicados em 1897 e 1890, têm em comum a investigação de um problema (crime) na qual se coligem evidências e seguem-se hipóteses, de modo a reconstruir a verdade. Esta investigação seria homóloga da investigação psicanalítica na qual tenta-se reconstruir uma cena traumática, revivendo-a em detalhes, que foram ocultos pelo próprio paciente porque eles exprimem desejos inadmissíveis. Portanto o tratamento psicanalítico é como uma investigaçaõ policial que leva o sujeito a descobrir em si o criminoso que ele procura fora de si, tal qual o herói trágico grego Édipo.
  1. Sim, o verdadeiro nome de nascença de Freud é Sigismund. É assim que ele é chamado por sua mãe Amalie em uma cena de Shabat na casa dos Freud. Ele suprimiu o “s” de seu nome em 1877. Sua noiva Martha de fato morava em Hamburgo e só chega a Viena depois de 900 cartas de amor trocadas entre os dois, porque Freud não tinha dinheiro para arcar com o sustento de uma família.
  1. Não, Freud não morava, nesta época, em uma casa assombrada pelo espírito de um músico, que teria sido o responsável pelo incêndio no teatro. [Mas de fato, como fui lembrado por um leitor (Lammel), Freud e Martha ocuparam o número 8 da Theresien Strasse, onde foi erguido um prédio no lugar do antigo Sühnhaus, o teatro vienense que pegou fogo em 1881. Mathilde a primeira filha do casal Freud, foi também a primeira criança nascida neste novo prédio reconstruído com o dinheiro pessoal do imperador. O local tinha fama de mal-assombrado, mas Freud, como cientista, declarou que isso não iria impedí-lo de morar alihttps://www.geschichtewiki.wien.gv.at/S%C3%BChnhaus].  Portanto o filme acerta ao colocar Freud no prédio assombrado, mas erra ao fazê-lo antes de seu casamento com Martha. De toda forma Freud adorava cães, e particularmente da raça chow chow como são mostrados na abertura do terceiro episódio da série. O mais famoso deles Jo-Fi participava das sessões e Freud reputava que ele exercia uma função calmante sobre seus pacientes. Sabe-se que entre 1885 e 1886 Freud morou em Paris, fazendo seu estágio com Charcot na Salpetrière, hospedando-se no Hotel du Brezil, na Rue Le Goff número 10.

 Referências

[1] Freud, S. (1884). On Coca. In: BICK, R. (ed.). Cocaine papers by Sigmund Freud. New York: Meridian, 1975.

____ . (1885a). Addenda to On Coca. In: BICK, R. (ed.). Cocaine papers by Sigmund Freud. New York: Meridian, 1975.

____ . (1885b). Contribution to the knowledge of the effect of cocaine. In: BICK, R. (ed.). Cocaine papers by Sigmund Freud. New York: Meridian, 1975.

____ . (1885c). On the general effect of cocaine. In: BICK, R. (ed.). Cocaine papers by Sigmund Freud. New York: Meridian, 1975.

____ . (1887). Remarks on craving for and fear of cocaine. In: BICK, R. (ed.). Cocaine papers by Sigmund Freud. New York: Meridian, 1975.

[2] Almiro dos Reis Jr, TSA (2009) Sigmund Freud (1856-1939) e Karl Köller (1857-1944) e a descoberta da anestesia local Rev. Bras. Anestesiol. vol.59 no.2 Campinas Mar./Apr. 2009

[3] Freud, S. & J. Breuer. J. (1893) Estudos sobre Histeria. Obras Completas de Sigmund Freud, VOL II, São Paulo: Companhia das Letras.

[4] Freud, S. (1988) Um caso de cura pelo hipnotismo. In Obras Completas de Sigmund Freud. Vol I, Buenos Aires: Amorrortu

[5] Carta 1 Caro Dr. Schnitzler, Há muitos anos estou ciente da ampla harmonia que existe entre as suas opiniões e as minhas sobre muitos problemas psicológicos e eróticos; recentemente encontrei até a coragem de acentuar expressamente essa harmonia (Fragmento de uma Análise de um Caso de Histéria, 1905). Sempre me perguntei espantado como o senhor havia chegado a este ou aquele detalhe de conhecimento secreto que eu havia adquirido mediante aturada investigação do tema, e finalmente cheguei ao ponto de invejar o autor que até então admirava. Agora o senhor pode imaginar como fiquei satisfeito e eufórico ao ler que o senhor também tem-se inspirado em meus escritos. Quase lastimo que tive que alcançar os 50 anos para ouvir algo tão lisonjeiro. Seu com admiração, Dr. Freud. (Viena, 1906) 

[6] Shepherd, M. (1987) Sherlock Holmes e o Caso do Dr. Freud. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Dunker, C.I.L., Assadi, T., Ramirez, H. et alli (2002) Romance Policial e Pesquisa em Psicanálise

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Tá puxado, mas dá pra receber atendimento psicológico online http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/03/27/sofrimento-como-ter-atendimento-psicologico-online-em-epoca-de-coronavirus/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/03/27/sofrimento-como-ter-atendimento-psicologico-online-em-epoca-de-coronavirus/#respond Fri, 27 Mar 2020 07:00:05 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=428

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A situação de confinamento domiciliar, alteração da rotina de trabalho ou estudo, a atmosfera de temor e indeterminação, bem como o fato de que nossa vida psíquica anterior ao coronavírus nem sempre ser um mar de rosas, reúne muitos ingredientes que incrementam a demanda por psicoterapias ou por escutas de apoio e cuidado. O Conselho Federal de Psicologia dispensou psicólogos do credenciamento usualmente requerido para atendimento online, nos meses de março e abril.

Reúno aqui [veja o vídeo abaixo] um conjunto de ponderações e de referências, tanto para aqueles que estão dando seguimentos a tratamentos psicológicos anteriores, agora de modo compulsoriamente virtual, quanto para aqueles que pretendem ou precisam recorrer a este suporte.

Psicólogos que trabalham em hospitais, na saúde geral ou na saúde mental em outros países têm sido lembrado de que o cuidado de si é condição essencial e primeira para cuidar dos outros. Isso implica atenção às condições de trabalho, por exemplo, praticar horários de plantão de forma a racionalizar tanto a circulação dentro da cidade quanto a favorecer o atendimento por telefone ou online.

A Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar manifestou-se pela importância do uso de medidas protetivas (como uso da máscara N95) quando em contato direto com pacientes infectados pela covid-19, mas na situação que se avizinha, nem sempre isso será possível. Daí a importância de se discutir o atendimento à distância como alternativa real. Ainda assim vários de nossos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) têm forçado plantões de cadastro e acolhimento, mas que nem sempre redundam ou progridem para a escuta à distância.

Quando procurar?

Todos estamos sofrendo com a situação pandêmica sem precedentes. O ineditismo pede respostas subjetivas originais, mas também convoca experiências anteriores para o trabalho de simbolização do inesperado. Perdas, contrariedades e perseguições conhecidas são usadas para compensar o nosso desconhecimento de epidemias e guerras. Reações de desamparo e angústia tendem a parasitar o medo e suas medidas protetivas. Mas nem sempre o sofrimento é suficiente para desencadear demanda de ajuda. Aqui existe uma regra, que pode ser adaptada da clínica com crianças. Está brincando? Está muito angustiada? Houve uma transformação súbita em sua atitude, por exemplo de recolhimento ou reatividade? Pais e cuidadores sabem que crescer envolvem momentos difíceis, durante os quais conversamos, pensamos juntos, tomamos medidas e às vezes vamos em frente.

Outras vezes isso tudo é insuficiente, portanto, antes de procurar um profissional experimente mobilizar os recursos “naturais” que temos para enfrentar o sofrimento: a palavra compartilhada, o afeto e a compreensão, a empatia e a tolerância. Não esqueça de usar a inteligência e a sabedoria, própria ou a que buscamos em nossas genealogias e relações.

Quando isso não é suficiente, quando mesmo assim a angústia permanece, considere a existência de um segundo critério, a emergência de sintomas: ideias fixas e circulares, dores, fobias, repetições ingratas. Tudo o que foi alterada para mais ou para menos nas próprias funções psíquicas: humor, atenção, sono, alimentação, sexo ou excreção. Nem toda forma de sofrimento requer tratamento, mas o sofrimento mal tratado, negado ou não reconhecido evolui para a formação de sintomashttps://library.tavistockandportman.ac.uk/online-therapy-supervision/.

Considere ainda que existem pessoas que, surpreendentemente, vão melhorar com esta situação de perigo e com o recolhimento às suas casas. É o chamado “efeito terapêutico do real”, uma espécie de ajustamento psíquico da reconfiguração da realidade e que permite certa separação, ainda que transitória, de nossos fantasmas, preocupações imaginárias e delírios. Se tal não for o caso, considere procurar um psicólogo, um terapeuta ou um psicanalista. Ninguém precisa colocar-se muito além do que pode suportar em relação à sua própria vida e seus sofrimentos. Buscar ajuda ou indicar ajuda é um sinal de salubridade mental. Só as patologias mais difíceis encaram problemas psíquicos como dificuldades morais, fraquezas de espírito ou traição de valores ou insuficiência educativa.

Como encontrar um psicoterapeuta neste momento?

Muitas iniciativas de solidariedade estão se formando em torno da urgência e necessidade de escutar tantas pessoas, que por diferentes motivos precisam de ajuda. A maior parte dos clínicos está atendendo por alguma plataforma virtual. Instituições de formação, universidades e sociedades científicas estão se organizando para oferecer disponibilidade de tratamento à distância, mas isso é bastante complexo e exige ações coordenadas que ainda não estão claras. Por isso farei algumas indicações no final desta matéria, usando este espaço para aceitar e agregar outras iniciativas que nos cheguem, considerando diferentes modalidades de psicoterapia.

Psicoterapias têm sua eficácia ligada a duas condições: a potência transformativa do que se fala e a qualidade experiencial da relação entre paciente e psicoterapeuta. Isso significa que há bons terapeutas em todas as abordagens, ainda que algumas dediquem-se a comprovar esta eficácia mais do que outras.

Pesquisas sugerem que os ganhos de uma psicoterapia são proporcionais a qualidade da relação que se forma, principalmente quando predomina confiança, empatia e empenho, mas que, como qualquer tratamento, podem ocorrer efeitos adversos. Se a coisa não vai bem, divida suas razões e partilhe a dificuldade, no fim não hesite em mudar até achar alguém apropriado. Não desista do desejo de melhorar, enfrentando suas inibições e obstáculos psíquicos, ainda que sempre eles pareçam um tanto irracionais.

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Recomendações sobre o início do tratamento

Vivemos uma situação de exceção e isso deve ficar claro para todos os envolvidos. Muitos terapeutas têm pouca ou nenhuma experiência com atendimentos a distância. Pacientes vão achar muito estranho compartilhar assuntos íntimos com um desconhecido que se apresenta do tamanho da tela de um celular. Sinceridade e transparência serão condições mais que necessárias para enfrentar a situação. No caso da psicanálise, mas também de muitas abordagens psicodinâmicas, quanto mais à vontade o paciente sentir-se para falar, escolhendo livremente suas palavras e temas, evitando julgamentos e avaliações, melhor.

Do outro lado precisamos de uma escuta aberta, flutuante ou lúdica, o que nem sempre é fácil longe do consultório e da privacidade que ele traz consigo. Aqui a dificuldade maior reside no fato de que nossa preocupação uns com outros, neste momento, precisa acolher transtornos objetivos e temores realísticos, por exemplo, concernentes a saúde, ao abrigo domiciliar e a informações protetivas, bem como ao impacto econômico e relacional incalculável na vida das pessoas.

Uma psicoterapia não deixa de ser ao final um tipo de conversa, mas uma conversa que conta com vários elementos contraintuitivos: nem sempre perguntas são respondidas, nem sempre o objetivo é manter uma comunicação clara, nem sempre seguimos um fio narrativo bem definido.  Talvez a melhor definição desta conversa tenha sido dada pelo André Breton, o criador do surrealismo: “uma conversa onde se diz o que se quer e se escuta o que não se quer”.

A criação de outra forma de escutar, que permite redimensionar tamanhos e volumes das experiências narradas, bem como ênfases e repetições em seus pontos cruciais, pode ser difícil na situação de distância e isolamento social, ou de compressão humana e privação de privacidade em certos domicílios.

Os relatos de quem já está empenhado nesta experiência apontam para um cansaço ainda maior do terapeuta nessas condições. Há uma alteração da estrutura atencional, dificuldade de concentração e inquietação com a presença real do outro. Para os psicanalistas isso tem requerido estratégias para manuseio de câmera, de modo a desviar o olhar frontal, muitas vezes sentido como intrusivo, mas permitir a busca e a manifestação e inserção de presença quando isso se faz necessário. A presença do analista, tantas vezes indiciada pela voz, seja por uma interjeição adversativa ou de assentimento, seja pelo olhar, torna-se mais complexa, mas ainda assim não impossível.

Particularmente difícil é a modulação da temporalidade no interior da sessão. Muitas intervenções dependem da maneira exata como o analista parece “soprar palavras” no ouvido do analisante, aproveitando-se dos interstícios da associação livre, ou interromper subitamente a sessão, no caso da prática lacaniana do tempo lógico.

A reconfiguração dos códigos e da temporalidade requer um trabalho de reinvenção e adaptação de tal maneira a mitigar os efeitos e a preponderância do fluxo informacional, que identificamos com os meios digitais. É preciso reaprender a ficar em silêncio e evitar, calculadamente, a parceria imaginária que o meio digital nos habituou, ou seja, responder de maneira cada vez mais acelerada.

Tudo isso requer modificações táticas e invenções criativas de novos modos de dizer.  Freud dizia que os pacientes que têm dificuldades com a língua, por exemplo, porque não são nativos naquele idioma tenderão a atribuir a esta dificuldade a certas trocas e equívocos de linguagem.  De fato, temos um problema análogo quando estamos na linguagem digital. Muitos desencontros, lapsos e deslizes podem ser facilmente atribuídos às condições muitas vezes instáveis do suporte comunicativo. Mas que não se torne uma desculpa.

Sigilo e privacidade

Muitas pessoas não encontram lugar retirado em suas casas para falar abertamente de coisas que não queremos e no fundo não devemos partilhar com os outros, principalmente quando eles estão envolvidos. Tenho ouvido relatos de pessoas fazendo suas sessões nos jardins, nas áreas comuns dos prédios e até mesmo nos banheiros de suas casas. Inversamente a intrusão das casas dos terapeutas tem dado ensejo a latidos, miados e exposições familiares incomuns na clínica tradicional. Freud já disse que um consultório comporta os barulhos naturais de uma casa. Nada disso altera um grama na relação de sigilo que todo psicoterapeuta deve ter com tudo o que escuta e o cuidado que terá com o destino do que ouve.

Há aqui um detalhe para o qual Claudia Catão[1], pioneira no estudo dos atendimentos psicoterápicos online, tem chamado a atenção e que diz respeito ao fato de que muitas plataformas como Skype, Face-Time ou WhatsApp não são dotados de sistemas de encriptação capazes de garantir a imunidade e proteção do que está sendo transmitido. No entanto, considerando riscos e benefícios, além da emergência que enfrentamos este parece ser o caminho mais viável.

Pagamento

A situação de quarentena coloca uma repactuação geral de nossos processos econômicos, e penso que isso envolve a forma como terapeutas negociam honorários conforme a situação de cada paciente. O que vem se disseminando, principalmente a partir dos que vem de experiências como as Clínicas Públicas de Psicanálise, como a que ocorre na praça Roosevelt em São Paulo, e do projeto Escutatória é uma espécie de moratória em torno do tema. Enquanto isso for suportável para as partes envolvidas e até que tenhamos uma ideia de como salários, contas e pagamentos serão renegociados, seria prudente adiar o assunto e privilegiar as demandas de urgência subjetiva, a não ser que isso seja imprescindível para alguma das partes.

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Ética e compromisso

Quem tem alguma experiência em atendimento de pessoas que passaram por catástrofes coletivas ou comunidades afetadas por acontecimentos disruptivos de grande impacto psicológico sabe que no primeiro tempo costuma haver um afluxo de profissionais voluntários, chamados pela comoção representada pelo fato.

Sabemos também que os momentos mais difíceis de atravessar não são, necessariamente os primeiros. Muitas vezes é no segundo tempo, no qual a situação porventura se “normalizou” do ponto de vista da rotina social, que incide a maior valência patológica. Pesquisas em torno dos efeitos psíquicos de quarentenas erguidas por ocasião da epidemia do ebola, na África, ou do H1N1, mostram que efeitos deletérios podem vir depois de até três anos do fim do isolamento.  Por isso é importante tentar definir o escopo da intervenção, o número ou o propósito imediato dos encontros de escuta.

Se precisar de referências asseguradoras procure instituição ou o lugar onde a(o) psicoterapeuta fez sua formação e discuta isso francamente nas primeiras sessões. Recomenda-se que todo tratamento comece por um período de ensaio e avaliação mútua, antes de discutir compromissos e condições práticas.

Evite sites ou instituições que não apresentam o nome dos envolvidos, referências sobre seus percursos de formação específica em práticas psicoterápicas ou definições imprecisas dos métodos clínicos empregados. Combinações com práticas educativas, religiosas ou de aconselhamento moral nem sempre são a melhor alternativa. Considere procurar um profissional ligado a alguma instituição, pública ou privada, que agirá como fonte de controle difuso sobre as práticas daquele que a ela se vincula.

Grupos indicados

Aqueles que apresentavam uma situação psíquica de maior gravidade ou urgência deveriam considerar a continuidade de seus tratamentos psicológicos ou psiquiátricos por telefone ou online. Encontrar os meios para que isso aconteça é uma tarefa de ambos e já faz parte do tipo de cuidado consigo que nos remete ao tratamento da angústia da quarentena.

Muitos profissionais de saúde queixam-se da sobrecarga de trabalho, de momentos de estigmatização social e da distância que se veem obrigados a imprimir em relação aos familiares. Cuidar dos que cuidam dos outros e isso inclui aqui profissionais da saúde, mas também da segurança pública, do jornalismo e da educação é uma prioridade.

A noção de rede, na qual um elemento que está em contato de apoio com outros tantos ramos e “entroncamentos”, merece atenção focada porque dela dependem os elos mais frágeis. O tratamento em rede, conceito amplamente consagrado em saúde mental, pode ser empregada aqui de forma aproximada, abarcando os recursos hoje disponíveis nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), coordenados com os recursos privados ou da saúde suplementar.

Grupos contraindicados

Os que estudam atendimento online não indicam esta modalidade de atendimento para casos graves, com alto registro de impulsividade ou ideação suicida, assim como para dependentes químicos e outras condições desfavoráveis. Crianças estão em uma situação particularmente vulnerável e de maior dificuldade de alcance, mas ainda assim experiências alternativas têm sido tentadas. Considere que no caso de crianças pequenas assume especial importância a forma como pais, professores e cuidadores conversam com seus filhos sobre o assunto. A psicanalista Ilana Katz desenvolveu algumas indicações sobre a natureza desta conversa baseada em algumas diretivas da Unicef.

 Alguns centros de referência

Nestes sites você poderá encontrar encaminhamentos para encontrar uma escuta online:

  1. Rede Clínica do Laboratório Jacques Lacan do Instituto de Psicologia da USP: redeclinica.lablacan@gmail.com
  2. Rede Apoiar do Instituto de Psicologia Clínica da USP: apoiar@usp.br
  3. Rede EscutAto do Laboratório de Psicanálise e Sociedade do Instituto de Psicologia da USP
  4. Laboratório de Psicopatologia: Sujeito e Singularidade da Unicamp.
  5. Psicanálise na Rua Brasília Contato: FB @psinarua Plantões: Sexta-feira: das 16h30 às 18h30 Sabado: das 10h às 12h
  6. FB @psicanalisenapraca Atendimentos: sábados das 11h às 14h
  7. FB @psicanalisenapracaroosevelt  Atendimentos: sábados, lista aberta das 11h às 14h. Os nomes são colocados via inbox no facebook
  8. São Carlos : Facebook.com/psicanalisederuasanca Atendimentos: sábados das 11h às 14h (Meios diversos: Messenger, Whatsapp, telefone)
  9. Brasília Contato: renatam@sesdf.com.br Atendimentos: terça as 13hs; quarta as 10hs e as 14hs; sexta as 10hs (Meio: Zoom)
  10. Varandas Terapêuticas: atende@institutogerar.com.br Atendimentos: Grupos em horários e dias variados

    (Meio: Zoom)

  11. Escutato contato: escutato@gmail.com

    Atendimentos: individuais agendados com participantes da rede

    (Meios diversos: Whatsapp, Skype, telefone)

  12. Estação Psicanálise – Campinas Contato: FB @estacaopsicanalise  FB: Estaçãopsicanalise Atendimentos sábados, das 9 ao meio dia, mediante contato do interesado(a) Atendimento via Messenger.

Outras formas de escuta e cuidado

A exiguidade dos recursos em saúde mental, diante da demanda e da necessidade global, já era um fato conhecido. Iniciativas que congregam a escuta feita por palhaços em hospitais, em situação de desastres ou vulnerabilidade social, grupos de apoio como o Centro de Valorização da Vida, o Experiência de Escuta, o Espaço para Consciência Mútua e demais iniciativas de cuidado e acolhimento ao sofrimento são bem vindas nesta hora e devem se integrar aos esforços coletivos para fazer frente a nossa situação.

Se você conhece iniciativas semelhantes, principalmente se estiverem ligadas a instituições públicas, entre em contato pelo email: chrisdunker@usp.br

Referência

[1] Catão, Claudia (2018) Psicoterapia On-Line: Ética, Segurança e Evidências. São Paulo: Zagodoni

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Hipocondria: como não deixar medo do coronavírus virar transtorno mental http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/03/20/hipocondria-como-nao-tornar-o-medo-do-coronavirus-em-transtorno-mental/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/03/20/hipocondria-como-nao-tornar-o-medo-do-coronavirus-em-transtorno-mental/#respond Fri, 20 Mar 2020 07:00:04 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=413

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No final do século 18, a hipocondria intrigava médicos e filósofos, como um verdadeiro desafio para o entendimento da mente humana. Como é possível que alguém acredite firmemente estar doente, sem que nada possa demover a pessoa deste sentimento, mesmo os melhores médicos e especialistas?

O termo hipocondria aparece na medicina por volta de 1398 para designar a doença das “falsas costelas”, mas também um paciente triste, caprichoso, sempre inquieto com sua saúde. Uma terceira característica notada entre os hipocondríacos é que eles frequentemente apresentam um tipo de personalidade excêntrica e extravagante, indiferente aos outros ou altamente sugestionável.

Em função da tristeza, os hipocondríacos foram considerados durante muito tempo um subtipo da melancolia. Acredita-se que a expansão da hipocondria durante o século 18 possa ser atribuída à expansão do direito à saúde e segurança do corpo, conjuntamente com o desenvolvimento da medicina como um saber científico investido de crescente autoridade[1].

Em 1673, Moliére estreava sua última peça, conhecida como o “Doente Imaginário”, na qual Argan, um pai velho, rico e hipocondríaco, tenta casar sua filha com o filho de um médico para com isso obter tratamento gratuito e infinito. Enquanto isso o médico aproveita-se de Argan, tirando seu dinheiro em troca de palavras vazias e diagnósticos erráticos.  Ele é salvo de si mesmo, pela ação de seu irmão e da governanta que combinam a seguinte prova: ele fingirá que está morto e desta maneira poderá perceber as tramas daqueles que o tentam enganar.

Vale a pena lembrar do truque de Molière em tempos de coronavírus.

Primeiro façamos uma inspeção criteriosa em torno daqueles que vão querer se aproveitar da doença alheia e mais especificamente do temor que a doença levanta nas pessoas. Na cabeceira deste movimento estarão os negacionistas. Eles dirão que os dados estão exagerados, que o caso todo é uma fantasia da mídia e que no fundo existe algum tipo de conspiração por trás da epidemia.

Não contentes com isso, eles tenderão a criar para si um manto de invulnerabilidade dizendo que nada os afetará pois afinal foram escolhidos por algum tipo de proteção mágica para não serem contagiados.  Desta forma estarão livres para se aproveitar do medo alheio vendendo proteção barata em nome da ignorância. Eles são como nosso Brás Cubas, herói de Machado de Assis:

O principal deles foi o divino emplastro Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que eu apanhei. Divino emplastro, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras genuína e direta inspiração dos céus. O acaso determinou o contrário; e vos ficais eternamente hipocondríacos. Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento […]. Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” [2]

Salientemos a atitude grandiosa que cerca a invenção do tal remédio pelo protagonista. Ele vai curar a hipocondria e se tornar muito famoso com isso. Mas ao procurar os céus da fama ele encontra sua própria ruína. A sabedoria literária informa algo profundamente clínico aqui. A sua idealização de si mesmo fez com que Brás Cubas negasse a pneumonia real que nele se infiltrava. Seu emplastro curou a hipocondria, mas tornou-o displicente com relação a sua saúde.

Moral da história: se ficarmos completamente curados de nossa hipocondria nos tornaremos tolos. Se nos libertarmos da função benéfica do medo de doenças, não nos dedicaremos a enfrentá-las com cuidado e inteligência, com apuro, informação e disciplina. Na verdade, os que sofrem do Complexo de Brás Cubas são como os antigos tolos, que parecem corajosos, mas na verdade são incapazes de usar o medo como instância de transformação da realidade e de prevenção em relação ao perigo.

Contudo, os verdadeiros hipocondríacos não são como Brás Cubas, que tem apenas uma patologia do medo e da superestimação de si. Eles são antes de tudo tristes, pois a causa de seu sofrimento nunca é propriamente reconhecida pelos outros a quem apelam.

Nossa cultura tende a punir os hipocondríacos como se eles fossem pessoas que sofrem de uma hemorragia de atenção, requerendo mais e mais cuidados onde não há nada a fazer. Não me peçam para dizer o que um verdadeiro hipocondríaco sente quando examina seu corpo dia e noite, quando se aflige com pequenas e infinitamente desagradáveis sensações, quando se perturba com as mudanças de ritmos cardíacos, das alterações de sono ou alimentação, quando pensa sem parar que aquela protuberância em sua pele ou aquela dissimetria em seus seios pode ser o sinal certo do pior.

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Um hipocondríaco não está fingindo que tem uma doença, ele realmente sofre com isso. Dizer para esta pessoa que isso tudo é psicológico é simplesmente aviltante. Na saga hipocondríaca a indeterminação das causas é apenas o pretexto para mais exames, mais medicamentos, mais atitudes preventivas. Quanto mais o paciente e seus familiares, a esta altura em geral exaustos, cedem nesta direção pior fica. A solidão vivida por estas pessoas é infernal. Solidão que torna seu corpo, literalmente, um corpo estranho e um inimigo íntimo a ser severamente vigiado.

Até 2013 a hipocondria era considerada um transtorno somatoforme. Ao lado dos transtorno conversivo, dismórfico corporal (no qual a imagem de si se altera brutalmente), do somatizador, da dor crônica (fibromialgia) e próxima dos transtornos factícios (como a síndrome de Münchausen, na qual a pessoa deliberadamente cria sintomas em si mesma, ingerindo venenos, cortando-se ou expondo-se a condições mórbidas) a hipocondria é um quadro temido pelos clínicos, pois melhora mas não passa nem com medicação nem psicoterapia, apesar de piorar sem qualquer uma das duas.

A hipocondria pode ser um sintoma secundário em muitos quadros de linhagem ansiosa, depressiva ou paranoica. Seu tratamento é difícil e sistêmico, ou seja, debelando-se a depressão a hipocondria tende a melhorar indiretamente. Ela é descrita por muitos como um tipo de delírio, porque ninguém consegue realmente convencer um hipocondríaco de que o que ele está sentido e vivendo pode ser corrigido cognitivamente.

O tratamento da hipocondria deve enfrentar a relação entre a experiência do corpo, e principalmente dos prazeres, com a sua inscrição ou tramitação psíquica. Tipicamente um hipocondríaco piora diante de uma grande satisfação, como se seu “aparelho” de prazer estivesse limitado a um nível muito baixo e muito sensível de funcionamento.

O terceiro traço da hipocondria diz respeito a sua sugestionabilidade. Ouvir notícias sobre uma nova doença ou epidemia é ao mesmo tempo algo insuportável e compulsivamente atraente. Da informação para a preocupação parece haver uma passagem direta. Ao que tudo indica a hipocondria tem uma certa facilidade para captar e traduzir a atmosfera social de insegurança ou pessimismo, como se aquilo que é muito complexo e indeterminado para receber um nome na realidade material se transformasse em um enigma de nomeação para a realidade psíquica.

Entre 1878 e 1914 quase 17% dos internos suíços tinham ideias hipocondríacas. Durante a guerra esse percentual subiu para 24%, caindo nos anos subsequentes. Na Escócia a diferença vai de 7% para 29%[3].

A capacidade de se influenciar com notícias e reportagens médicas ou epidemiológicas parece estar diretamente relacionada com o pertencimento e a nomeação do mal-estar. Ela explora a atitude de extremo reconhecimento e submissão à ordem médica, mas também de resistência e de exceção em relação à sua potência real de cura.

Observemos aqui como Argan, o doente imaginário de Moliére, superou sua dificuldade. No fundo ele aceitou e encenou o pior pesadelo que ele “vivia antes de viver”, ou seja, a morte. Quando ele conseguiu brincar de morto, fingir que tinha lhe ocorrido o pior de seus cenários, foi também o momento em que ele descobriu a verdade sobre sua doença.

Conselho: olhe o medo de frente, aceite que o perigo é real, mas não deixe que o medo que vem de fora se confunda com a angústia que vem de dentro. Para o primeiro, cautela e informação. Para o segundo, algo que ninguém poderá fazer por você: acalme-se. Leia, preste atenção em seus sonhos, medite sobre sua história de vida, para pensar no que você tem feito consigo mesmo nos últimos tempos. Aprofunde-se em si mesmo, experimente o abismo mais profundo de seus fantasmas. Depois volte e conte uma boa história.

Para Maria Helena Fernandes, uma de nossas melhores especialistas em hipocondria, a escuta destes pacientes envolve a retomada da incerteza que as mães vivem diante da aflição sem nome que percebem em seus bebês. No fundo, a travessia desta incerteza quanto ao que se sente, ao que se tem e no limite ao corpo próprio que constitui a resposta convicta do hipocondríaco. Em outras palavras, ele transforma uma dúvida real em dúvida imaginária.

Ocorre que para a psicanálise todos os sintomas existentes estão presentes em cada um de nós, em estado latente. A aptidão para produzi-los decorre do fato de que os sintomas são soluções possíveis para conflitos que potencialmente estão em todos nós. Por isso, diante da pandemia de coronavírus, cada um de nós, deverá enfrentar sua própria hipocondria. Não subestime nem superestime o medo. Siga todas as recomendações de isolamento social e cuidados com higiene e limpeza, mas não se deixe dominar pela solidão. Respeite seu medo, mas não o deixe se transformar em angústia e desespero. Fique em casa, consigo e com os outros que também estão passando isso, junto com você, ainda que a distância. Informe-se bem e todo o dia, mas não deixe que a sugestionabilidade tome conta da casa.

Tempos de incerteza e indeterminação são muito bons para revermos nossa arrogância e nossa expectativa de controle sobre a realidade. É possível que com calma e circunstância o coronavírus faça com que nós deixemos nossa coroa narcísica de lado e nos tornemos mais humildes diante de forças mais poderosas da natureza. Aproveite para pensar que o tratamento para sua solidão hipocondríaca pode ser um pouco de solidariedade. Se ainda assim, depois de tudo, sobrar alguma energia pode agradecer a ciência, as universidades, ao SUS (Sistema Único de Saúde) e a todos os médicos, jornalistas, políticos e cuidadores que estão fazendo o possível nesta situação.

[1] Aisenstein, M.; Fine, A. e Pragier, G (2002) Hipocondria. São Paulo: Escuta.

[2] Assis, Machado (2004) Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê, p. 252-253. 

[3] Berrios, G. & Potter, R. (2012) Uma História da Psiquiatria Clínica, vol III. São Paulo: Escuta.

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Por que a hipnose não seria capaz de ajudar Pyong Lee a vencer o BBB? http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/03/13/por-que-a-hipnose-nao-seria-capaz-de-ajudar-pyong-lee-a-vencer-o-bbb/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/03/13/por-que-a-hipnose-nao-seria-capaz-de-ajudar-pyong-lee-a-vencer-o-bbb/#respond Fri, 13 Mar 2020 07:00:13 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=407

Reprodução/GlobosatPlay

No Big Brother Brasil 2020 pudemos acompanhar demonstrações de hipnotismo praticadas por Pyong Lee. O hipnotismo voltou a interessar as pessoas, no Brasil e na Europa, desde um relativo questionamento de nossa teoria genérica sobre o funcionamento mental resumido à combinação de neurocircuitos cerebrais e disciplinas de aprendizado dirigido.

Durante os últimos quarenta anos propagou-se a aposentadoria da humanidade profunda e misteriosa, cheia de áreas inexploradas. Em vez disso vimos surgir um regime geral de transparência e de funcionalidade na relação com nós mesmos.

A subjetividade neoliberal, surgida a partir dos 1980, nos convida a olhar para nós mesmos como gestores de nossos desejos, afetos e histórias.  Em vez de conflitos e proibições, passamos a olhar para a vida como um gradiente de potências e impotências, onde termos como intensidade, distância e ambiência determinam nossa experiência. Não tendo mais contas a ajustar com nossa história, tornava-se desnecessário o trabalho de criar uma narrativa muito consistente sobre nós mesmos.

Em meio à inconstância e liquidez da vida, dos empregos e dos amores, a identidade deveria ser sobretudo flexível. Tornando-se senhora e proprietária de sua própria morada a consciência de cada um, deixou de ser afetada por transes, duplicações ou desdobramentos. Por outro lado, emergiu um grande interesse por influenciadores, personalidades e celebridades, que exerciam um efeito “hipnótico” sobre os outros.

A própria literatura teria incorporado este paradigma neoliberal, substituindo o antigo romance, de investigação e interiorização, por relatos onde o sofrimento é posto em forma descritiva. São os neuromances, que exploram condições cerebrais ou genéticas, como Parkinson em “As Correções”, de Jonathan Franzen; Alzheimer no “Diário da Queda”, de Michel Laub; delírio de Capgras, no “The Echo Maker”, de Richard Powers;, doença de Huntington no “Sábado”, de Ian McEwan.

Isso não quer dizer que todos os impasses da vida foram abolidos. Continuamos a nos entender como seres traumatizados, com lutos insidiosos, sofrendo com nossa sexualidade e com a imagem desajustada de nós mesmos. Os desajustes narcísicos e os seus crônicos sentimentos de menos-valia, solidão e falta de sentido fizeram da depressão a rainha da psicopatologia, junto com ela veio o sonho de uma vida boa trancada e protegida dentro de um quarto branco onde poderíamos manipular todos os estímulos e nos proteger do excesso deles em nosso próprio “condomínio mental”.

Quando o sofrimento perde sua potência de transformação, ele se torna mais uma tarefa a ser resolvida: individual ou quimicamente. Depois de 50 anos de expansão da subjetividade imunológica, autotransparente e cerebral, começamos a perceber que a promessa antidepressiva e a felicidade encapsulada não vai ser entregue na forma como nos foi prometida. Por isso assistimos a uma espécie de retorno da psicanálise. Mas antes de Freud é o contexto que tornou sua descoberta possível o que parece reemergir e junto com ele o hipnotismo.

Ao longo da primeira metade do século XIX prosperou um grande ideal de dominação da natureza, com empreendimentos coloniais, avanços científicos e racionalização da sociedade. Escolas, exércitos hospitais e o trabalho dentro das fábricas institucionalizaram nossa vida cotidiana e nos afastaram das comunidades orgânicas. Lá também, como agora, insinuava-se que nossas formas políticas iriam finalmente dobrar-se ao bom senso e ao senso comum da democracia parlamentar.

Contra esta hipótese, a partir da metade do século XIX o hipnotismo emergiu como um grande fenômeno enigmático. Ele atestava a sobrevivência de um tipo de autoridade pessoal, que não podia ser substituída ou praticada por qualquer um, um tipo de carisma de alta periculosidade política pois assinalava a persistência de personalidades capazes de exercer uma influência irracional sobre os outros. Durante os anos 1950 muitos hipnotizadores encantavam plateias pelo Brasil afora. Contudo, o temor que este fosse usado como arma política levou o presidente Jânio Quadros a proibir a prática do hipnotismo no Brasil, em 1961.

Mesmer, Lièbault, Charcot e Bernheim foram grandes hipnotizadores do século XIX. O primeiro cruzava a Europa colocando mulheres da aristocracia sobre mesas com limalhas de ferro, que uma vez postas em movimento, faziam renovar energias e curar doenças. O segundo atendia centenas de camponeses diariamente. Com suas palavras de alívio facilitava partos, removia angústias e restaurava o funcionamento digestivo. O terceiro era um reputado professor que empregava o hipnotismo para reproduzir sintomas histéricos diante de uma plateia de médicos, jornalistas, poetas e pintores. O quarto vasculhava a literatura e investigava hipnotizadores para entender, cientificamente, como funcionava a sugestão capaz de levar as pessoas a se comportarem como animais ou crianças diante de um público boquiaberto.

Quando estava em minha lua de mel em Salvador passei por uma experiência hipnótica muito curiosa. Mulheres que leem mãos ficam circundando algumas praças daquela cidade. Sabendo da sua existência e sabendo que seu intuito é tirar algum dinheiro de turistas incautos, logo me pus valente avisando minha esposa de que não me deixaria hipnotizar e poderia provar isso. Ela, como sempre cautelosa, me fez deixar a carteira, mas levar uns R$ 20, que era o preço da aposta. Mal dei minha mão para a figura e ela começou a falar muito rápido sussurrando coisas de forma meio impositiva mas agradável. Com certo carinho ela ia passando o dedo pela minha mão, quase gerando cócegas. Obviamente, quando acordei minha esposa estava rindo de mim e no meu bolso faltavam R$ 20.

Alterações de consciência como esta são um fenômeno natural que ajuda dentistas a operar pacientes sem anestesia e pessoas com fobias a embarcarem em aviões. Todos estes autores inspiraram Sigmund Freud a criar a psicanálise. Ele estudou com Charcot em Paris, encontrou Lièbault na floresta de Nancy, traduziu textos sobre hipnotismo com Bernheim e conhecia as peripécias de Mesmer, que teve sua forma de cura investigada pela famosa comissão da Academia Francesa de Ciências, formada por Lavoisier, Benjamin Franklin e Jussieu que declarou ao final: a teoria é falsa, mas seus efeitos são reais.

Depois de anos praticando a cura de sintomas neuróticos por meio do hipnotismo, Freud percebeu que seus efeitos acabavam decaindo ao longo do tempo, que ele não conseguia hipnotizar todas as pessoas e que o hipnotismo não tocava a causa dos sintomas, mas mesmo assim jamais negou a eficácia relativa da cura por sugestão.

O hipnotismo não se aproveita, de fato, do sono, mas de uma alteração da consciência. Essa alteração é mais favoravelmente criada pela associação entre um estímulo sensorial, geralmente repetido ou sincronizado, com a voz e a sugestão do hipnotizador. Depois de ceder a pequenas ordens, que vão criando um estado de assentimento e fortalecendo a autoridade do hipnotizador, o sujeito acaba entrando em uma espécie de transe no qual se põe a obedecer ordens.

Podemos nos auto-hipnotizar quando estamos em um trem ou em um ônibus que repete movimentos, aproveitando-se de outra condição que favorece o rebaixamento da consciência: o cansaço. Estados de massa, aglomeração ou apaixonamento também nos inclinam a sugestionabilidade hipnótica. Mas, por mais que estejamos propensos a obedecer certas ordens, inclusive para não sentir dor ou medo, não conseguimos fazer a pessoa realizar um ato que confronte sua moralidade diretamente, por exemplo, hipnotizar alguém para que este cometa um crime por nós.

Por isso seria difícil para Pyong Lee simplesmente hipnotizar todos os seus adversários no Big Brother de modo a vencer a competição. A emergência de estados alterados de consciência, o interesse pelos desdobramentos de nós mesmos talvez sejam um bom caminho para voltarmos a confiar menos na soberania de nossas crenças e opiniões e um convite a escavar um pouco mais as origens de nossas tendências à obediência e à manipulação.

No mesmo Big Brother vimos emergir esta prova obscena chamada quarto branco. Ela consiste em manter três pessoas em uma sala com baixa variação de estímulos até que um deles aperte um botão de desistência disponível no centro do recinto.

Se a hipnose é um prática acessível a todos, e que não representa fonte de malefícios, sua combinação com situações de confinamento dentro do confinamento, de restrição de movimentos e de saturação sensorial, parece ser o símbolo de uma época que nos obriga a sonhar apenas com a evasão ou permanência.

Se o hipnotismo é a indicação clara de que não somos senhores em nossa própria morada, que nossa consciência se divide e se altera, nem sempre ao gosto de nossa vontade, o quarto branco é o símbolo da autodeterminação e do domínio gerencial da própria vontade, exposta ao desfio de suportar a existência do outro.

Fascinados pelo drama alheio, rindo de como o outro pode ser tão facilmente manipulado, presos em nossos quartos brancos, diante de nossas telas hipnóticas, aguardamos o hipnotizador que nos faça acordar com um estalar de dedos.

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Arrogante… eu? Veja como identificar e curar “aquela pessoa que se acha” http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/03/06/arrogante-eu-veja-como-identificar-e-curar-aquela-pessoa-que-se-acha/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/03/06/arrogante-eu-veja-como-identificar-e-curar-aquela-pessoa-que-se-acha/#respond Fri, 06 Mar 2020 07:00:19 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=386

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Andando pelo país já há algum tempo, percebi um diagnóstico crescente mobilizado contra as elites econômica, cultural, religiosa ou política. Por mais que os argumentos sejam bons ou que a pessoa busque alguma ponderação, cedo ou tarde saca-se do bolso a palavra mágica devastadora: arrogante. Trata-se de uma variação adultocêntrica de uma crítica muito devastadora entre adolescentes, ou seja, nada pode ser pior do que “aquela pessoa que se acha”.

Muitos dirão que esta observação é um tanto contraditória pois o supereu digital está a nos fazer cócegas justamente para que exerçamos nossa potência imaginária neste sentido. A partir de certo ponto aquele que “não se acha” torna-se ingênuo ou fracassado, e aqueles que não conseguem “se achar” são depressivos em potencial.

A arrogância tornou-se um significante de consenso. A direita o emprega para designar a incapacidade de autocrítica do PT e a esquerda o devolve mostrando como as atitudes ridículas, machistas e afrontosas do presidente e de seus ministros inspira-se na arrogância no uso do poder. Talvez não estejamos falando da mesma coisa, mas o exemplo se presta justamente a mostrar como o mal-entendido pode fechar o circuito da comunicação levando ao adensamento de sentimentos e convicções pouco transformativas.

Os psicólogos John Owens e Jonathan Davidson tentaram fazer uma caracterização da arrogância, enquanto um tipo clínico, com o respectivo mapeamento do funcionamento cerebral, descrevendo a Síndrome da Hubris. O termo tem sua origem nas tragédias gregas nas quais, invariavelmente, o herói cometia um ultrapassamento, cruzando o limite e a medida do humano (metron) e realizando um ato que seria próprio aos deuses de tal forma que a tragédia consiste em uma espécie de punição ou consequência para este ato para além da lei dos homens.

Por exemplo, Creonte estende um tapete vermelho para si mesmo na tragédia Antígona, e talvez em função disso sua esposa e seu filho se matam, sua palavra perde crédito e ele se vê obrigado a condenar a própria protagonista e futura nora a morrer emparedada. Neste sentido, o arrogante é alguém que se atribui poderes, saberes, dotes ou direitos que estariam além de si mesmo.

A síndrome de Hubris envolveria:

  1. Ver o mundo como um lugar de autoglorificação do próprio poder.
  2. Agir primariamente tendo em vista o engrandecimento da própria imagem.
  3. Mostrar preocupação desproporcional com a própria imagem e autoapresentação.
  4. Apresentar tom messiânico ou exaltação no modo de falar, por exemplo, usar o plural majestático “nós” em conversações cotidianas
  5. Identificar a si mesmo com o grupo, empresa ou nação de que participa.
  6. Mostrar excessiva autoconfiança.
  7. Achar que só deve apresentar contas para uma corte muito elevada, onde suas crenças e convicções poderão realmente ser julgadas.
  8. Impulsividade, reatividade e perda relativa da noção de realidade.
  9. Atribuir incompetência a todos que não seguem seu modo de pensar.
  10. Usar padrões morais elevados para evitar considerações práticas, custos ou resultados.

Se você assinalou cinco ou mais itens acima considere que você pode fazer parte do clube dos arrogantes. Por outro lado várias das atitudes acima descritas poderiam ser desejáveis para, por exemplo, um candidato a um cargo de alta responsabilidade ou funções nas quais o cuidado com a aparência e com a própria imagem faz parte do “job description”, como, por exemplo, artistas, políticos ou mesmo um bom profissional de vendas.

Os que estudaram clinicamente o funcionamento da arrogância, como o psicanalista W. Bion, notaram que é o traço característico do arrogante que ele não se sente arrogante. Se deixado à sua própria sorte, com sua consciência solitária, sobre o travesseiro noturno, o arrogante sente-se miseravelmente pequeno e mal-reconhecido. Na verdade, sua arrogância lhe parecerá sempre preventiva ou defensiva em relação à dos outros. Eles não acham que sabem tudo ou que são superiores aos outros, muitas vezes são cronicamente dependentes de algumas migalhas a mais de amor. Isso explica por que aquele dócil e infeliz vai da lamúria da mesa de bar à tirania draconiana quando está atrás da mesa do chefe.

A maior parte das arrogâncias esconde uma fragilidade persistente na relação consigo mesmo. Aquela fragilidade mal tratada torna-se tão insuportável que uma parte dela é atribuída aos outros e a outra parte é invertida em seu contrário.

Encontrei grandes intelectuais que se achavam simplesmente burros, modelos cinematográficos que se sentiam, no fundo, muito feias e pessoas extremamente poderosas que viviam em crônica impotência. Mas bastava colocar um palco ou uma passarela na frente do sujeito e ele se transformava em uma águia narcísica. Inversamente, acompanhei muitas pessoas que em situação pública ou laboral mostravam-se humildes e obedientes para resplandecerem como cruéis, tirânicos e devastadores na vida doméstica ou familiar. Ou seja, dependendo do contexto nossa arrogância transforma-se em seu aparente oposto.

Chegamos assim ao nosso mal-entendido fundamental por meio do qual, por maiores que sejam as diferenças e polarizações o consenso nacional parece concordar que o Outro é sempre arrogante. O resultado não poderia ser outro senão a tragédia. O sábio de Bíblia em punho contra o artista de vanguarda que tenta lhe explicar as razões do mundo. Cada qual tentando convencer o outro a assumir sua ignorância desconhecida. No fundo, ambos lutam pela superioridade moral e demandam, secretamente, o reconhecimento do outro. Isso  não é um problema desde que não se passe a odiar a si mesmo ou ao outro porque o olhar do Outro é tão importante assim.

A arrogância tem tratamento. Ele não consiste em fazer-se vítima, invisibilizar-se ou humilhar-se em penitência por pensar, possuir ou valorizar algum traço que nos pertence. O tratamento para a arrogância não é rebaixar pretensões ou demonizar nossa ambição, que é afinal um dos nomes do desejo, mas transformar a sua diferença diferenciante em um objeto de partilha e solidariedade.

O problema do arrogante não são suas pretensões, mas a individualização destas pretensões, a exclusividade que elas carregam ou a segregação que elas implicam. Notemos que na palavra arrogante está contida a expressão rogar, que quer dizer pedir, implorar, demandar. O arrogante, no fundo, é alguém que não aprendeu como pode ser prazeroso e interessante dar. Ainda que seja dar o que não se tem, ainda que seja dar para quem não o pediu.

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Chegada do coronavírus ao Brasil mostra como é fácil sermos manipulados http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/02/28/chegada-do-coronavirus-ao-brasil-mostra-como-e-facil-sermos-manipulados/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/02/28/chegada-do-coronavirus-ao-brasil-mostra-como-e-facil-sermos-manipulados/#respond Fri, 28 Feb 2020 07:00:47 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=374

Gerd Altmann/ Pixabay

O Brasil ficou de novo entre os últimos lugares na escala de apreciação da própria realidade. Estávamos em sexto no campeonato mundial da ignorância sobre nós mesmos, e agora caíamos para penúltimo, entre os 38, ficando à frente apenas da África do Sul.  Achamos que 48% das nossas jovens ficam grávidas entre 14 e 19 anos, quando o resultado real é de 6,7%; pior percepção mundial nesta matéria. É possível que disso decorra nossa facilidade para sermos manipulados.

O erro de apreciação ou a incapacidade de estimar aquilo que não se sabe exatamente é um grande termômetro psíquico de nossa vulnerabilidade. Ou seja, não estamos falando de baixa informação ou qualidade deficitária da educação, mas de como lidamos com o que não sabemos, ou com aquilo sobre o qual temos um saber intuitivo, prático ou difuso.

No campo das estimativas, os estudos inaugurados pelo matemático escocês Bayes confluem inesperadamente com algumas intuições do psicanalista Sigmund Freud, ou seja, nossas expectativas, sonhos e desejos são sobredeterminados não apenas pela nossa forma de ver o futuro, mas também de lidar com o passado e de viver o presente.

Em situação “normal” conseguimos fazer previsões quantitativas muito fidedignas intuindo o emprego das três grandes distribuições dos fenômenos, exponencial, normal ou Erlang. Ainda que não tenhamos dotes matemáticos formais, empregamos regras adequadas em nossas previsões cotidianas[1]. Escolhemos quase sempre corretamente quando aplicar a regra multiplicativa (“quanto mais uma coisa demora, mais esperamos que ela tenda a demorar”), média (“as coisas tem um tempo médio para acontecer, independente de nossas expectativas”) ou aditiva (“não há alteração de previsão e os antecedentes conhecidos não importam).

Por exemplo, o total de espera previsto para atendimento em uma destas centrais de atendimento telefônico, consiste, segundo a opinião geral, em uma vez e um terço do que se tinha esperado até então. Ainda que saibamos que aqueles “cinco minutinhos” serão insuficientes para resolver o problema, insistimos em acreditar no contrário. E achamos que as coisas tenderão a existir pelo tempo que elas existiram até aqui.  

No entanto, essa tendência geral se altera dramaticamente quando estamos diante de duas situações:

  1. Quando não temos experiências anteriores sobre o assunto, ou quando nossas experiências anteriores nos levam a desconfiar dos outros, casos nos quais nossa representação do mundo assume proporções muito incorretas.
  2. Quando adquirimos uma nova linguagem e aquilo que falamos e ouvimos distanciam-se brutalmente do que experienciamos e vivemos, o que nos leva a sobrevalorizar eventos raros e intensificar o sentido das exceções.

Portanto, se você quer manipular as pessoas, para que elas contrariem seus próprios juízos e percepções, comece por criar uma atmosfera paranoica, cheia de conspirações e intencionalidades perversas nas quais desconfiar dos outros é uma atitude preventiva razoável que se torna gradualmente necessária. Não é assim que agem as pessoas que se sentem em uma posição de desvantagem no trabalho, na escola ou na vida amorosa e imediatamente começam a praticar intrigas e estimular a discórdia?

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Depois disso trate de inventar uma nova forma de linguagem ou de comunicação que permita incutir nas pessoas que o que elas percebem por si mesmas é muito diferente da média real. Por exemplo, programas de televisão que mostram como a ocorrência de crimes é uma regra não uma exceção, relatos de vida que recortam apenas aspectos extraordinários da existência. Histórias incríveis que são incríveis justamente porque são exceções tornam-se assim uma espécie de regra. Não é assim que conquistamos interesse e atenção dos outros, trazendo conteúdos diferentes em uma forma atraente?

Um bom exemplo da combinação entre estas duas circunstâncias é o que se pode chamar de lógica da epidemia, que se anuncia em curso mundial chegando agora em versão terra brasilis. Se olharmos para os dados reais de saúde pública sobre doenças em geral e particularmente HIV-Aids, dengue, tuberculose e sífilis, encontramos uma situação problemática com letalidade aumentando. Mas a ideia de que existe um “novo vírus”, portanto uma nova linguagem de transmissão, chamada coronavírus (covid-19), e que ele é contagioso e mortal, isso mobiliza um tipo de expectativa viola o que já sabemos sobre assuntos conexos.

Na peste de 1666 que assolou a Europa as cidades faziam enormes fogueiras nas encruzilhadas e ameaçavam estrangeiros com o fogo. Isso não tinha nenhuma relação com o controle do rato ou da pulga que transmite a peste bubônica, mas tinha a ver com uma teoria de que a peste afligia mais aqueles que tinham medo dela do que os corajosos. Essa teoria é totalmente falsa do ponto de vista médico, mas tem seu valor quando olhamos para o aspecto psicológico da epidemia.

A expectativa de que o vírus seja devastador, não apenas em termos de vidas, mas de impacto econômico, social e moral, cria por si só suas próprias condições de realização. As pessoas ficam em casa, os governos bloqueiam aglomerações públicas, as famílias estocam víveres, as bolsas avaliam efeitos sobre o consumo futuro e … a realidade confirma a teoria. Mas, notemos bem, isso só acontece porque agimos de uma determinada maneira consoante com nossas expectativas.   

Nosso discernimento trai nossas expectativas, e nossas expectativas traem nossa experiência. Aquilo que projetamos quanto ao futuro nos revela muito sobre a natureza do mundo em que vivemos e sobre nosso próprio passado.” [2]

Esta frase poderia ter sido formulada por Sigmund Freud, pois é exatamente nestes termos que a desinformação calculada e a ignorância no discernimento se acasalam com nossos desejos e expectativas. A coisa fica ainda pior se aplicarmos a este cenário o complexo de Dunning Kruger [3] que assola o país, ou seja, a tendência daqueles que desconhecem um assunto arrogarem-se sábios, justamente porque desconhecem a complexidade da matéria.  

O tratamento para isso é duplo: problematizar seu próprio processo de formação de expectativas e apurar a apreensão e conhecimento sobre a história de um determinado processo. Talvez tenha sido isso que levou Freud a escolher o sonho como via de regra para a investigação do inconsciente, pois no sonho estamos diante de uma expectativa de sentido sobre a qual não sabemos de antemão qual é a regra de composição. Talvez tenha sido em sentido análogo que a psicanálise valorize a reconstrução de nossa história e das circunstâncias raras, esporádicas e excepcionais, como traumas, lutos e descobertas sexuais, pelas quais formamos nossa gramática de fantasias e nossas regras de expectativas. As duas coisas, quando examinadas de forma combinada, nos levam a tratar do engrandecimento narcísico, da soberba e arrogância, característica dos que preferem tomar decisões ouvindo apenas aqueles que concordam consigo.

REFERÊNCIAS

[1] Briaa, Christian & Grififiths, Tom (2017) Algoritmos para Viver: a ciência exata das decisões humanas. Companhia das Letras: São Paulo.  

[2] Idem: 231.

[3] O efeito Dunning-Kruger é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros. Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória. Em contrapartida, a competência real pode enfraquecer a autoconfiança e algumas pessoas muito capacitadas podem sofrer de inferioridade ilusória, achando que não são tão capacitados assim e subestimando as próprias habilidades, chegando a acreditar que outros indivíduos menos capazes também são tão ou mais capazes do que eles. A esse outro fenômeno dá-se o nome de síndrome do impostor

 

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Debate com o leitor: como a abstinência sexual serve ao discurso do governo http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/02/25/debate-com-o-leitor-como-a-abstinencia-sexual-serve-ao-discurso-do-governo/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/02/25/debate-com-o-leitor-como-a-abstinencia-sexual-serve-ao-discurso-do-governo/#respond Tue, 25 Feb 2020 07:00:53 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=351

Isac Nóbrega/PR

Minha última coluna “Em nome de Jesus? Política de abstinência sexual tem base na Bíblia? recebeu inúmeros comentários e críticas, tanto no próprio site quanto de internautas das redes, por isso resolvi debater com as colocações que me pareceram tão ricas quanto ilustrativas do estado da arte, da questão e da conversa.

De certa maneira o significante “abstinência” situa-se em uma espécie de encruzilhadas entre diferentes narrativas. O termo procede do verbo abster, ou seja, limitar, controlar, impedir-se de. A abstinência é um critério genérico de autonomia pois indica capacidade de se autoconter, sugerindo que a lei não opera sobre você desde fora, mas a partir de seu próprio consentimento e incorporação.

Já defendi anteriormente que a capacidade de se limitar é uma virtude política importante. Ela indica certa relação ao poder, desejável em nossos governantes. Recentemente essa sugestão parece ter sido aplicada de forma invertida na mente do eleitor: a falta de continência, decoro e delicadeza tornou-se signo de autenticidade, espontaneidade e confiança. Bolsonaro, e isso parece ser contagioso nos que dele se acercam, não consegue abster-se de falar bobagens, ofender e mentir.

O leitor Alexandre Machado observa que convicção exagerada é um traço ético perigoso. A certeza do que se está certo ou errado, evidenciada pela recusa ao debate ou pela evitação do confronto de ideias é uma resposta que cativa os incautos. Dar seguimento e consequência para conversações de longo curso, como é o caso das políticas públicas, exige trabalho de justificação e esforço para encontrar e expor razões.

De certa maneira, o exotismo discursivo do governo Bolsonaro tem sido eficaz em desativar o debate. Isso vem ocorrendo desde a fuga do candidato dos debates eleitorais e continua agora como prática de governo. A convicção de que é impossível debater seriamente com quem defende a abstinência sexual como política pública permite que a oposição silencie, achando que isso é uma cortina de fumaça, que desvia o verdadeiro assunto importante que é a economia. Ademais, rebater as sandices discursivas do governo deixa que a direita controle a pauta.

Nada pior do que embarcar nesta teoria de que as palavras não importam, que o que realmente faz diferença são as reformas que caminham de um modo ou de outro no Congresso e na Câmara. Essa separação é a essência da estratégia do governo e a esquerda não devia concordar com isso. Por exemplo, a política pública de evitação da gravidez precoce por meio da abstinência sexual não é apenas um falso preceito bíblico, um “Fake-Book”, mas uma forma barata de retirar recursos necessários da educação sobre a sexualidade, sem gerar constrangimento ou resistência. O Estado se desincumbe e todos batem palminhas, em nome de Jesus. Nunca foi tão barato politicamente retirar direitos e reduzir gastos sociais como agora. 

É o mesmo truque que está sendo aplicado na economia: “Estamos quebrados, é preciso uma política de austeridade, o Estado precisa gastar menos, precisamos equilibrar as contas públicas e diminuir o investimento direto.” Todo mundo bate palmas para o discurso da abstinência.

A psicanálise nos ensina que este tipo de discurso precisa de uma contraface obscena, na qual a abstinência que se prega de um lado aparece como exagero, desmedida e falta de compostura do outro. Por isso, golden shower, delírios sobre indígenas e ecologia, a criação do monstro PT e a afronta contra a jornalista Patrícia Campos Mello são uma necessidade de discurso, não uma espuma flutuante feita para tirarmos os olhos do que é realmente importante. Como se um lado do discurso dissesse: austeridade, limitação de gastos, redução de juros, abstinência sexual, humildade bíblica. E a outra dissesse: não te estupro porque você não merece, até empregada doméstica viaja e o seu buraco é mais embaixo. Você compra um lado e leva de brinde o outro, sem se dar conta disso.

Esse mesmo discurso tentará te convencer que economia é uma coisa, moral é outra. Ele também te dirá que a mítica de um novo início está presente em ditaduras como as da Coreia do Norte ou o nazismo alemão, mas não no que se está a praticar agora.

Luis Quintero/ Pexels

Historicamente, a religião tem sido o berço narrativo de onde se extrai legitimidade para impedir que vejamos esta contradição. Isso não tem nada que ver com a Bíblia ela mesma, mas baseia-se no fato de que a Bíblia retrata tempos nos quais a escravidão era permitida, onde reis e imperadores exerciam seu poder de modo autocrático, simplesmente porque retrata as formas políticas correntes ao longo da história da sua escrita. Por isso, ela está farta de bons exemplos, morais e reflexões éticas, que seriam intemporais, mas péssimas para orientar a soluções de conflitos políticos.

Por exemplo, Marcio responde ao meu desafio sobre onde estão os fundamentos bíblicos para a abstinência como método para evitação de gravidez precoce citando Paulo em Carta aos Coríntios 1.7.

Se conseguir se segurar, que permaneça solteiro, mas se não conseguir se case.”

Ou em outra tradução:

Caso, porém, não se dominem, que se casem, porque é melhor casar do que viver abrasado.”

Dois exemplos óbvios de como o que o texto sagrado proclama uma defesa do casamento e não da abstinência.

Se a política pública do governo fosse “case-se mais cedo, poderíamos dizer: “não concordo, mas está na Bíblia.

A sabedoria bíblica é clara: “se você não se contém, case-se mas não viva em estado de abrasamento”. Se a passagem justificasse a abstinência ela deveria dizer: “caso, porém, não se dominem, permaneçam em estado de abrasamento até conseguir se casar”.  Pelo amor de São Dimas a tarde! O texto bíblico parte da ideia e admite a situação onde “não conseguimos nos conter, e não sugere em tempo algum a tolice de que “aqueles que não conseguem se conter devem se conter assim mesmo.

Além da rarefação de passagens bíblicas que justifiquem a abstinência sexual, grande número de leitores, em vez de apresentar qualquer evidência textual, simplesmente gritavam coisas como “fornicação é pecado ou “sexo antes do casamento é fornicação. Isso vai ao encontro do que sugeriu Guilherme Arbache lembrando que o terrorismo tem uma relação ambígua com o texto sagrado: por um lado acredita aplicar uma lei literal inspirada por uma autoridade imemorial e por outro cultiva o analfabetismo bíblico, contando com a ignorância alheia.

O fato é que dos mais de 30 mil leitores da coluna nenhum conseguiu me apresentar um fragmento sequer que justificasse a aura bíblica da política de Damares.

Por outro, lado, muitos comentários dizem que a Bíblia não importa. Que nossa política é laica pois exige separação constitucional entre Estado e Igreja.

Paulo Roberto Nascimento lembra que o Estado não deve se intrometer no comportamento sexual das pessoas. Outros ainda entendem que não se pode levar a sério as declarações da ministra, afinal a política pública não significa obrigatoriedade: “a ministra apenas recomendou e ninguém é constrangido a segui-la. A questão é exclusivamente de foro íntimo, independente de Bíblia, Corão ou Talmud”. Típico exemplo da alternação público e privado praticada pelo discurso do governo. Ou seja, quando interessa é a função pública, quando não interessa é a pessoa que fala. Cara eu ganho, coroa você perde. Com esta estratégia o governo vem conseguindo fidelizar seus defensores e neutralizar seus críticos.

Infelizmente uma política pública implica em gastos, ela gera ações do Estado, seja em escolas, hospitais ou em campanhas de esclarecimento. Quem paga por isso? Você, eu e todos nós. Mas o comentário reflete como recebemos as afirmações disparatadas do governo: como se elas não tivessem consequência, como se elas não tivessem custo, como se elas fossem inofensivas e não como uma operação para tirar investimento e proteção social sem ter que pagar a conta política por isso.

Outros leitores apontam que Damares quer introduzir uma ideologia de classe evangélica em um país marcado pela diversidade religiosa. É verdade, mas uma verdade amarga. O governo não é pluralista nem inclusivo. Ele decidiu-se por uma política discursiva na qual os poucos que lhe são leais são os que importam. Os outros se tornarão, mais cedo ou mais tarde, inimigos. Acho que a imprensa foi a primeira vítima deste procedimento.

Vários leitores observaram que o uso da palavra bíblica, da maneira como Damares procede, desconhece a interpretação histórica da bíblia. Aliás, aprendi com o pastor Henrique Vieira que o Jesus histórico deve ser distinguido do Jesus espiritual, caso contrário o uso ideológico da religião se torna muito problemático. Entram neste caso observações como as de que o casamento na época bíblica se dava aos treze anos, o que não pode ser transposto para uma cultura como a nossa onde nos casamos, em regra, depois dos vinte.

O problema com a aplicação a-histórica da lei bíblica é presumir que a lei nunca muda ou que ela mudou até certo momento, depois disso foi congelada. Isso nos leva a um interessante problema teológico: será que Deus muda com o passar do tempo? Será que ele se transforma? Se sim, isso sugere que ele mesmo depende de como é percebido pelos seres humanos, que Ele não é o mesmo no século XVI, no século V ou no século XXI. Se Ele não se altera, Ele não pode voltar atrás no que diz. Se isso é verdade, Deus não pode se corrigir ou se limitar. Ora, um deus que é incapaz de autoabstinência, é um deus ao qual falta alguma coisa, um predicado que, como vimos, é muito importante para assuntos políticos: a capacidade de se abster. Se falta algo a Deus ele não é perfeito, pois a perfeição presume que ele tenha todos os predicados, especialmente os desejáveis. Se ele não é perfeito, isso é uma severa ameaça à sua existência enquanto ente ilimitado, eterno, infinito e perfeito.  

Acho que precisamos de mais teologia ou de menos religião na política brasileira.

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Em nome de Jesus? Política de abstinência sexual tem base na Bíblia? http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/02/14/em-nome-de-jesus-politica-de-abstinencia-sexual-tem-base-na-biblia/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/02/14/em-nome-de-jesus-politica-de-abstinencia-sexual-tem-base-na-biblia/#respond Fri, 14 Feb 2020 07:00:56 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=332

Pixabay

Na recente discussão em torno da elevação da abstinência sexual à condição de política pública de saúde, proposta pela ministra Damares[1], muitos tem salientado a ineficácia científica deste método. Complicações durante a gravidez adolescente são a principal causa de morte de mulheres entre 15 e 19 anos de idade no mundo[2].  No Brasil 61,6% das jovens iniciam sua atividade sexual entre 16 e 18 anos, mas para 23,3%, isso acontece entre 13 e 15 anos[3].  Apesar disso, a política que vinha sendo desenvolvida fez com que a gravidez precoce caísse 39% entre 2000 e 2018[4].

Mas não sejamos tão arrogantes. Criticar a abstinência sexual como método contraceptivo pode ser mais um caso no qual o saber intelectual e universitário, baseado em uma ciência erudita, desqualifica o saber das pessoas comuns. Por isso não temos que aceitar, incondicionalmente, os resultados de uma meta-análise recente, que agrupou 62 pesquisas independentes, mostrando que a educação para a abstinência sexual não reduz o risco de gravidez adolescente e de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis[5]. Uma crença pode ser alternativa e minoritária, mas mesmo assim ser eficaz e  apropriada para um determinado contexto.

Apesar de tudo o incentivo da abstinência sexual entre jovens é um método educativo. Educar para a abstinência é o que muitos pretendem quando se trata do tratamento da drogadição. Outras tecnologias, reconhecidas como mais eficazes, também são parte de uma estratégia educativa para redução de riscos, principalmente quando são focadas no uso de preservativos. Táticas contraceptivas como diafragma, preservativo feminino, pílula e até mesmo condutas menos eficazes, tais como coito interrompido ou cálculo da data de ovulação (tabelinha), pretendem ensinar as pessoas para que elas possam escolher. Mas tudo isso só pode acontecer no contexto educativo no qual falamos sobre isso.

Mas falar sobre sexo já não é uma atividade arriscada? Introduz o assunto, dá ideias, suscita a curiosidade. Aprendemos que falar sobre sexo envolve uma ideologia, representada por um partido. Só que agora o partido mudou. Por exemplo, a Sociedade Brasileira de Pediatria posicionou-se contrária à diretiva da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do governo. Mas sociedades representativas tem interesses políticos também. No meio de tanta confusão, fake news e pós-verdade por que não podemos ter uma versão religiosa deste assunto?

Uma educação para prevenir gravidez indesejável já presume que os jovens não queiram a gravidez, que eles possam adquirir saber para escolher melhor, como quando e com quem. Mas que possibilidade real de escolha tem uma menina de 13 ou 14 anos? Por que não deixar os pais decidirem, antes de expor equivocadamente a vida íntima e privada de um púbere? Por razões como esta a pessoa que nunca pensou em sexo nem o praticou estaria protegida dele até a hora certa.

Muitos poderiam dizer que optar pela abstinência sexual como política pública contraria o ideal de uma Escola sem Partido, pois é como transformar o entendimento de alguns em regra geral, ao modo de uma ideologia. O Partido da Religião, se é que podemos reunir assim aos anseios da chamada bancada evangélica, defende e doutrina que a abstinência é um método desejável para enfrentar epidemias sexualmente transmissíveis e gravidez precoce.

Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves (Daniel Stone/Futura Press/Folhapress)

Mas religião não é ideologia. Concordo que as razões da elite podem não ser as mesmas da sabedoria popular. Há muita arrogância em satirizar saberes das classes pobres. Há um saber popular que precisa ser respeitado, e nele há uma longa tradição oral que acredita na abstinência sexual. Devemos, portanto, pedir razões que sejam pertinentes ao universo evangélico de onde a ministra Damares parece extrair sua autoridade. Lembremos que ela  apresenta-se como Mestre em Educação, Direito Constitucional e Direito de Família, a partir de diplomas autorreconhecidos por razões bíblicas:

E Ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres.” [6]

Não vamos discutir títulos e suas validades que são tão frágeis. A autodeclaração é importante pois fala da verdade daquela pessoa. Admitindo-se, portanto, a relatividade do saber científico, o interesse político das comunidades médicas, a contaminação ideológica das escolas e a investidura divina da pastora seria preciso perguntar onde exatamente está escrito na Bíblia que a abstinência sexual é uma virtude ou uma prática desejável para os jovens?

Até onde pude investigar, os casamentos na época do antigo testamento e mesmo na Judeia romana aconteciam, em regra, antes dos quinze anos. Na verdade, a ideia mesma de casamento tal como conhecemos hoje, ao que parece, não existia. Não havia conceito de juventude ou adolescência, sendo a idade reprodutiva confundida com o início da menstruação, mas vamos arredondar a conta.

Seguindo as fontes de autoridade que a ministra escolhe, lembrando que ela faz parte de um governo democraticamente eleito, que tem a prerrogativa de escolher suas referências e fontes, onde estão as fontes bíblicas desta ideia? Não consigo me contentar com afirmações vagas como:

A vontade de Deus é que vocês sejam santificados: abstenham-se da imoralidade sexual. Cada um saiba controlar seu próprio corpo de maneira santa e honrosa, não dominado pela paixão de desejos desenfreados, como os pagãos que desconhecem Deus.” [7]

Não que isso não seja a mais pura verdade, mas é uma verdade que não fala em jovens, nem em gravidez precoce, nem especifica que o sexo antes do casamento seria uma imoralidade, muito menos que neste momento da vida os desejos ou paixões seriam sem freio (mais do que em qualquer outra). Espero realmente que a justificativa bíblica não se ampare apenas na ideia vaga de imoralidade sexual[8], desejos maus[9], desejos carnais[10], depravação[11], libertinagem[12] ou monogamia[13], pois em nenhum destes casos é a abstinência que está em jogo, mas a castidade, que é outra coisa. Para criar uma política pública é necessário algo mais específico, algo que diga teologicamente, em acordo com a hermenêutica bíblica mais rigorosa, que a abstinência é realmente uma benção, pois evita filhos indesejáveis.

Senhores, mestres e pastores da Igreja do Evangelho Quadrangular, ao qual pertence a ministra e seu pai, pastor desta honorável denominação cristã, nos ajudem a esclarecer esta questão, nos termos que são os que vocês reconhecem como corretos e justos. Pois assim como há falsos cientistas e impostores intelectuais, deve haver falsos leitores da Bíblia e pessoas que se valem dela para enganar incautos.

Segundo este judeu chamado Sigmund Freud, a abstinência sexual é um sério risco para a saúde mental das pessoas. Já em 1895 ele nos advertia que a angústia virginal ou angústia dos adolescentes pode provocar “neurose de angústia que de maneira quase típica se combina com uma neurose”[14]. A abstinência sexual aumenta a irritação, a impaciência e a intolerância das pessoas. Na vida prisional ela faz aumentar a violência, na prisão voluntária da internet ela cria Incels (confira o vídeo abaixo).   Para muitas pessoas a abstinência pode ser natural, mas para outras ela representa o verdadeiro inferno na terra: uma luta moral permanente que toma tempo e cria culpa em solo fértil para ideias obsessivas e sentimentos de inadequação a si. Nesta situação, quando cedemos à força de nossos impulsos, depois de muito lutar contra eles, já não há mais energia para nos preocuparmos em fazê-lo de modo cuidadoso e prevenido, o que concorre para produzir prazer e punição no mesmo ato.

Já fui convencido que uma leitura do velho testamento, combinada com certas decisões interpretativas, pode justificar que Jesus Cristo defendeu a violência, o uso das armas e o ataque raivoso contra inimigos, mas não consigo encontrar a justificativa correta para que esta atitude de abstinência sexual tenha subsídio bíblico sólido e literal. Nem mesmo os jovens evangélicos acreditam nisso[15].  Se estivéssemos falando da Igreja Católica, os concílios de Nicéia e Latrão poderiam nos ajudar nesta matéria, mas não consigo acreditar que a leitura evangélica esteja concordando com isso só para criar uma política pública.

Aliás, seria muito bom uma manifestação coletiva e eclesiástica que viesse a público mostrar que o Evangelismo não concorda com o uso da cruz em associação ao nazismo, como vimos no ex-ministro Roberto Alvim, que não é de Jesus vilipendiar uma jornalista como Patrícia Campos Melo, nem ridicularizar empregadas domésticas que viajam ao exterior, como disse o ministro Paulo Guedes, ou nomear ministro do STF “terrivelmente evangélico”[16].

Não começaria a verdadeira castidade, pela abstinência do uso em vão da palavra de Jesus?

 

P.S. Para o pessoal que está me escrevendo pensando em Paulo Co 1.9 “Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se.” já adianto que esta passagem fala em casamento, não em abstinência. Ou seja, neste caso a Política Pública proposta deveria ser “Case-se mais cedo, case-se assim que sentir qualquer tipo de abrasamento”, e não “Contenha o abrasamento em você indefinidamente”. Além do mais a passagem não conecta a prática da abstinência com o desejo de evitar filhos. 

1 Coríntios 7:9

 

[1] “Sem citar preservativos, campanha contra gravidez na adolescência prega reflexão“. Folha de S.Paulo 

[2]  Organização Mundial da Saúde 

[3] Boletim de Psicologia 

[4] “Abstinência sexual proposta por Damares não vai vingar, dizem jovens“. Folha de S.Paulo 

[5] National Center for Biotechnology Information

[6] Efésios 4:11

[7] Tessalonicences 4:3-5

[8] Coríntios 6:18.

[9] Colossenses 3:15.

[10] Pedro 2: 11.

[11] Romanos 13:13

[12] Gálatas 5: 19-21.

[13] Coríntios 7: 1-2.

[14] Freud, S. (1895) Alguns motivos para separar da neurastenia uma síndrome específica chamada neurose de angústia. Obras Completas de Sigmund Freud vol III. Buenos Aires: Amorrortu, 100-101.

[15] “Millennials want contraception to be accessible to everyone“. Huffpost 

[16] “Esquerda ensaia busca por evangélicos, mas “engatinha” comparada à direita“. UOL 

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Oscar do Mal-Estar: parasitas também estão na vida do casal e de Brasília http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/02/06/e-o-oscar-do-mal-estar-vai-para/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/02/06/e-o-oscar-do-mal-estar-vai-para/#respond Thu, 06 Feb 2020 15:44:05 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=320

Cena do filme “Parasita” (Reprodução)

No filme “Parasita” (2019), de Bong Joon-ho, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, duas famílias vivem vidas paralelas. Uma habita a riqueza elevada do condomínio fechado e planejado, com suas telas, câmeras e sistemas automáticos de abertura e fechamento de portas. Outra mora no porão de um beco, com janelas precárias, invadida por exalações de pesticidas, bêbados urinadores de ocasião, mas também amigos que aparecem do nada e conflitos nos quais a vida pessoal se mistura com pequenos negócios e golpes cotidianos.

Dois elementos estão na base da fusão destes dois mundos: a educação e a tecnologia. É por meio dela que o caçula da família rica se comunica com o intruso desconhecido. É por meio do código morse, esta tecnologia arcaica e clássica, que o baixo mundo fala entre si, de forma secreta. É por meio da busca de sinal parasitado, que sempre está mais disponível nas alturas, que as intrigas e coordenações familiares podem acontecer.

A cena hilária da disputa sangrenta pela posse de um celular, prestes a disparar uma mensagem decisiva, na sala de estar ocupada pelo serviçais é uma alegoria perfeita de como habitamos dois mundos que se interpenetram, mas que não se reconhecem, e como em cada um deles há uma disputa pela posse dos meios, sem que cada mundo perceba a natureza exata e a sua participação neste conflito. Ou seja, há sempre um terceiro mundo dentro do terceiro mundo, uma periferia dentro da periferia, assim como há um centro dentro do centro.

Ocupado em sua pequena guerra particular pelo centro do centro, os aristocráticos Park, não conseguem perceber a luta pelas migalhas, que se desenrola à sua frente e no interior mesmo de sua vida cotidiana, entre os Kim. Por isso mesmo são tão facilmente enganados. Mas há outro aspecto desta guerra entre mundos incomunicantes: a educação. É por meio dela que os ricos demandam serviços aos pobres, nesta brecha aberta entre o poder do dinheiro e poder da cultura. Professores particulares que enganam a aristocracia incapaz de interiorizar valores como a arte e as línguas estrangeiras.

O fetiche cultural, assim como o fetiche sexual, representado por uma calcinha de baixa qualidade, é o segundo ponto pelo qual os Park se fazem enganar:  fixados no imaginário do índio americano, na alienação do gosto e do ritual de adequação, como signo de pertencimento instrumental a outra cultura, os Park “pedem” para serem enganados pelos Kim. E aí que aparece o falso professor, o falso entendido, o falso motorista.

Contudo, a graça e a força deste filme coreano, que por outro lado parece tão brasileiro, é que com a progressão das coisas vamos vendo como embaixo do porão há sempre um outro porão, e que as escadarias que nos elevam são também as que sempre podem nos levar um pouco mais para baixo. As escadas são a grande imagem da educação e da forma de poder em disputa neste filme. Tudo se passa como se o poder real das escadas da educação e sua força transformativa para elevar vidas (ainda que vivida como ideal ingênuo pelos que vivem nos porões), entrasse em choque com o poder virtual da comunicação digital onde tudo é falso, feito para o gosto do freguês, para a intriga e o golpe.

É deste curto-circuito entre os conflitos entre mundos e intra-mundos, que emerge a violência. É ele que torna a pedra do prosperidade, que representa a cultura  como meio de tratamento de conflitos, o mais simples e brutal instrumento de vingança imediata. Por isso ela é sentida pelos envolvidos como irracional, ininteligível e disruptiva. Por isso que ela é pressentida pelo cheiro. O cheiro da diferença que impregna as pessoas e denuncia, ainda que na penumbra e de forma indeterminada que a verdade está em outro lugar. Por isso se diz que algo cheira mal, como signo do mal-estar, que ainda chegou a ser nomeado.

Cena de “Democracia em Vertigem” (Divulgação)

Um efeito análogo é tematizado em outros três filmes concorrentes ao Oscar. “Democracia em Vertigem” (2019), de Petra Costa, mostra uma degradação análoga no interior da política brasileira. Um filme que ganha força à medida que nos distanciamos dos fatos. Em vez do cheiro aqui é a ideia de vertigem que denuncia a emergência do mal-estar.

Vertigem é um grande tema literário e filosófico. É na beira do precipício do mundo que conseguimos entender do que o mundo é feito, e qual é o lugar de nossas escolhas éticas, diria Kierkgaard com seu conceito de angústia. É também a vertigem que faz Stephan Hero, de Joyce, repetir o desespero daquele que, como Ícaro, se percebe voando com asas coladas com cera, ou seja, prestes a cair.

O filme nos coloca vendo as coisas de cima. Ele foi criticado por ver as coisas demasiadamente comprometidas com um ponto de vista biográfico e pessoal. Mas é exatamente este o caminho pelo qual podemos entender os golpes dentro dos golpes, aliados com a potência alienante da digitalidade e com a recusa calculada do poder da educação, que tomou conta do Brasil. Ou seja, não é com a imparcialidade neutra que conseguimos encarar a vertigem do mal-estar, mas pela assunção radical de que estamos em um ponto de vista entre outros. É radicalizando a perspectiva que nos damos conta que ela é uma perspectiva. Disso emerge o abismo de uma história feita de pessoas parasitando o medo alheio, a miséria  e as ilusões tão facilmente procriadas em cativeiro. Com isso podemos perceber melhor os outros pontos de vista e a divisão ou alienação do nosso próprio lugar na história.  Ao se apresentar fora da narrativa local de perdedores e ganhadores, com o recuo necessário para ler a vertigem o filme insinua um espectro que ronda Brasília, o espectro da história. Cedo ou tarde teremos os nossos julgamentos de Nuremberg onde os colaboracionistas serão julgados, não à jato, mas bem lentamente.

Scarlett Johansson e Adam Driver em “História de um Casamento” (Divulgação)

A terceira forma de mal-estar que aparece no Oscar 2020 podemos ver em “História de um Casamento” (2019), dirigido por Noah Baumbach. Aqui se trata do mal-estar no interior do amor quando este é atravessado pelas narrativas de gênero, de família e os nossos ideais de felicidade. Novamente temos a decomposição dos conflitos, não apenas entre os caminhos de vida tomados por Scarlett Johansson, um dia atriz principal, depois amante e esposa do diretor de teatro Adam Driver. Largando como um novo “Kramer versus Kramer”, que periodicamente renova a narrativa da dissolução familiar americana, o filme evolui para algo bem mais interessante que é a a crise interna de cada qual diante do fim da parceria administrativo-familiar-narcísica de cada um dos envolvidos.

Aqui o mal-estar começa a entrar no espectador, não pelo cheiro, nem pela visão, mas pelos ouvidos. São as palavras derivadas dos contextos de suas promessas, os pesos do mal-entendimento consentido que formaram um casamento, o autogolpe que damos em nosso próprio desejo quando não o distinguimos de nosso narcisismo. Em vez do mundo de cima e o mundo de baixo, temos agora o Leste e o Oeste. Cada um sentido que o outro parasitou seus sonhos, que o amor persiste mas que ele é um fraco parasita para sustentar formas de vida em contradição e conflito. O casamento entre economia libidinal e economia real deixa rastros de ressentimento. O filme é uma narrativa trágica de como o amor se torna importante diante desta realidade maior.

Cena de “Dois Papas” (Divulgação)

Finalmente, o último vértice deste polígono lógico do mal-estar é naturalmente “Dois Papas” (2019) de Fernando Meirelles. Desta vez trata-se do conflito no interior da autoridade das instituições. A conversa continuada entre o papa Bento XVI e o futuro papa Francisco, retoma os tema dos dois mundos: o alemão, filósofo de gabinete, pianista erudito, que fez uma carreira institucional perfeita de dedicação à política profissional do Vaticano de um lado e o torcedor argentino do San Lorenzo Dalmagro, formado na Realpolitik da repressão e da colaboração com o regime militar, que fez uma carreira popular e que está cada vez mais disposto a sair da máquina.  Ou seja, ambos concordam que querem sair, mas não sabem bem para onde. Sentem-se parasitas de um sistema que só agora, no fim da história conseguem intuir a natureza e o funcionamento.

É o mal-estar do fracasso, da falência, da degradação de planos e planejamentos, corroída por dentro pela emergência da pedofilia, do autocratismo, do consentimento com a violência e a vilania. Ambos sentem-se parasitas de um sistema em decomposição, uma peça excessivamente adequada e adaptada, que por isso mesmo concorre para a dissolução da unidade que a criou.

O ponto forte do filme é o choque entre o teor dos diálogos travados, o caráter banal e comezinho das palavras realizado em cenários grandiosos como a Capela Sistina ou os Jardins de Castel Gandolfo. O mal-estar penetra pelos poros do corpo, que envelhece, em um Anthony Hopkins, no qual não sabemos o limite entre a dramaturgia e a realidade, pelas entranhas da memória dos erros cometidos, pelo caráter insuportável da compactuação e da colaboração com o mal, ainda que seja em nome do bem.

No fundo todos eles são parasitas: da política brasileira, das promessas de casal, das instituições eclesiásticas, de formas de vida alheias, das quais nos ocupamos para sobreviver. Mas, se ao menos levarmos em conta os diagnósticos fílmicos parece que estamos caminhando para um consenso de que o juízo final se aproxima e que ele não é formado pelas oposições simples que estamos criando para nos escondermos dele.

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Como passar nos testes psicológicos para seleção de emprego? http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/01/31/como-passar-nos-testes-psicologicos-para-selecao-de-emprego/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/01/31/como-passar-nos-testes-psicologicos-para-selecao-de-emprego/#respond Fri, 31 Jan 2020 07:00:12 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=311

Jason Coudriet/ Unsplash

Se você está lendo esta matéria achando que encontrará respostas corretas para os testes psicológicos, usados abundantemente em seleção ou entrevistas de emprego, você caiu no truque mais óbvio deste tipo de prova, ou seja, imaginar que existe uma resposta correta ou um perfil padrão desejável, em termos psíquicos ou de personalidade, ao qual você pode se adequar, enganando o selecionador usando os recurso de uma “cola” psicológica.

Você foi enganado da forma mais óbvia por meio de um estímulo “desejante”, que você sabia ser provavelmente falso, mas embarcou na coisa assim mesmo. Adoramos truques, sugestões facilitadoras, manchetes atraentes e “corta-caminhos” ignorando que este é o meio mais fácil para ser enganado, por qualquer um, como acabei de mostrar.

Regra básica aqui é que os testes psicológicos não são, em geral, uma prova, na qual se pode hierarquizar as respostas e escolher quem está mais próximo ou mais diante de um ponto fixo ideal. Ter alguma ideia de quais são seus pontos fortes e mais fracos pode ajudar mais do que querer fazer um bonito figurino … falso.

Os procedimentos psicológicos dividem-se em quatro grandes grupos:

  1. Testes psicométricos que avaliam traços muito gerais, como o fator geral de inteligência que, em geral, compõe-se de tarefas muito simples, como reconhecer uma determinada regra de composição de um padrão gráfico ou perseguir uma determinada atividade psicomotora, como os antigamente empregados para avaliar candidatos a carta de habilitação para dirigir automóveis.
  2. Escalas de avaliação, que em geral parte de um entendimento genérico das personalidades humanas e verificam o perfil do candidato tendo em vista certas disposições de personalidade, tais como como a abertura para a experiência (openness to experience), conscienciosidade (conscientiousness), extroversão (extraversion), neuroticismo ou instabilidade emocional (neuroticism), amabilidade (agreeableness), ou então perseguem perfis psicopatológicos como a depressão, a ansiedade e o déficit de atenção.
  3. Provas neuropsicológicas, nos quais certas tarefas são avaliadas de modo comparativo de forma a determinar perdas de funções psicológicas como memória, atenção, organização do pensamento ou coordenação viso-motora. Neste caso temos tarefas relativamente simples, mas que vão se tornando mais e mais complexas pois o objetivo é determinar o nível do candidato em relação a ele mesmo.
  4. Procedimentos projetivos, nos quais se oferece um padrão relativamente ambíguo, do ponto de vista perceptivo ou narrativo e evoca-se no candidato um tipo de completamento da situação, onde aparecerão as tendências latentes do candidato, bem como seus mecanismos de defesa inconscientes.

No caso da competição por um emprego um elemento muito importante é a forma como a pessoa interpreta ou se coloca na própria situação de avaliação. Ou seja, a prova envolve, ainda que não se resuma, ao próprio posicionamento diante da prova. Há aqueles que partem desesperadamente para saber o que devem responder, o que é o correto e desejável e o que é o incorreto e indesejável. Ora, isso reflete uma atitude de excessivo ajustamento à situação, o que pode ser ótimo para cargos que envolvem obediência, mas será certamente desaconselhável para aqueles que exigem autonomia e senso crítico para pensar mais além do esperado. Inversamente há aqueles que interpretam a situação nos termos da valorização da sua própria autenticidade e se portam, de modo pouco errático em relação à interpretação das expectativas que sobre eles recaem.

Os testes psicométricos e as provas neuropsicológicas são muito difíceis de burlar. Seria como alguém treinar para ser mais inteligente. Se der certo, vai ser a longo prazo. É como aprender a jogar xadrez bem. Você decora as aberturas, evita grandes erros, mas no final se o outro está em um nível superior prepare-se para perder.

Os procedimentos neurológicos são igualmente “intreináveis”. Experimente um jeito de adquirir uma memória muito melhor do que a que você tem… rapidamente.  O mais provável é que você entregue seu dinheiro e seu tempo a algum método feito para enganar incautos.

As escalas de avaliação são o tipo de procedimento mais instável pois elas demandam alguma sinceridade na maneira de responder a questões de valência moral ou de ambiguidade cognitiva. Há muita discussão sobre o uso deste tipo de escala em situação de seleção profissional pois, afinal, isso implicaria em favorecer certos perfis em detrimento de outros, assumindo-se que estes perfis possuem, genericamente, uma forte dependência, na interpretação do selecionador, em termos do corte de raça, gênero, classe e etnia. Isso, no limite, geraria uma tendência de repetição do mesmo perfil dos que lá já estão, com as prevalências que se pode imaginar.

Cada um dos testes se desenvolveu a partir de uma certa perspectiva de entendimento sobre o sujeito psicológico. Os testes de nível psicométrico pensam o sujeito a partir de uma distribuição de aptidões em uma curva normal do tipo Gauss. Eles são úteis quando se quer saber a posição de alguém quando se considera em comparação com milhões de outras pessoas.

O nível de redução que temos que fazer aqui para poder comparar as pessoas é muito grande, portanto, o grau de excepcionalidade que se obtém é proporcionalmente equivalente ao achatamento de muitos outros predicados de uma pessoa. Por exemplo, alguém fora da curva em termos de inteligência pode ser um mentecapto moral ou amplamente deficiente em termos de trabalho em grupo.

As escalas de personalidade conseguem agrupar perfis diferentes, reconhecendo assim que habilidades distintas apresentam ganhos e perdas em ambientes distintos. As provas neuropsicológicas  têm uma outra racionalidade, pois comparam o indivíduo em relação a si mesmo ao longo do tempo, ou o comparam em relação às médias muito genéricas obtidas pela população em geral.

Pixabay

Rorschach

Finalmente, temos os procedimentos projetivos. Eles se inspiraram no conceito psicanalítico de projeção, adaptado inicialmente por clínicos como Rorschach e Zulliger. Eles tem a ambição de descobrir a combinatória singular de reações e disposições daquele sujeito. Sua diferença e não sua igualdade para com os outros. Eles baseiam-se na ideia de que nossa reação, inclusive nossa reação perceptiva a certos estímulos indeterminados evoca em nós um completamento da mensagem, que segue os anseios e desejos de nosso inconsciente. Eles apelam para um outro ângulo do que não podemos treinar ou planejar em nós mesmos. Experimente ensaiar um ato falho, ou preparar-se para ser enganado ou para se enganar (autenticamente). Experimente dizer para si mesmo: “nesta noite eu vou sonhar com …”

Suzane Richtofen preparou-se para a prova de Rorschach na prisão, deu todas as respostas não desviantes, mas ao final não conseguia explicar para o aplicador onde ela teria visto o que diz que viu. A regra aqui é a seguinte: tudo aquilo que você odeia em você mesmo, que não consegue perceber em si, que te torna alérgico e intolerante com as suas partes menos conhecidas, tudo isso será visto projetado e depositado no Outro, que será percebido como repleto de figuras horrendas, vampiros e morcegos, partes interiores do corpo humano ou danças macabras. Você poderá ter choques e repúdios inesperados a tudo aquilo que desperta seus demônios interiores que você represa a grande custo psíquico. Você verá como seu complexo de normalidade está feito de projeção de suas loucuras, não assumidas, nos outros.

Contudo, o jogo de gato e rato entre os aplicadores de provas e os preparadores de entrevistados tende a desaparecer. Os testes psicológicos são uma estratégia reduzida para ver como a pessoa reage em um ambiente “controlado”, com os estímulos comparativos que definem o texto. Isso era uma estratégia pertinente quando não se tinham acesso a dados reais de como as pessoas se comportam em tempo real, considerando-se longos períodos.

A má nova é que você já está fazendo testes de personalidade, nível, perfil neuropsicológico e projetivo sem saber.  Tomemos os testes de personalidade mais badalados do momento, inspirados nos “big five“, como eles foram feitos? Examinou-se a lista imensa de predicados psicológicos, presentes nos diferentes testes ao longo do tempo e percebeu-se que eles poderiam ser agrupados nestas cinco tendências. Ora, as cinco tendências são relevantes simplesmente porque elas são tendências, não porque elas refletem alguma organização cerebral ou uma equação psicodinâmica.

Os big five são o retrato do que já existe, devolvido para você na forma de uma destruição de categorias. Com se pode intuir, sair das caixinhas é uma tarefa bem mais complicada do que enganar o que se espera do outro. As caixinhas são feitas pelo que você mostrou para o outro. Ele não inventou nada, só organizou o que já existe e devolveu para você, para você ter este agradável sentimento de que pertence a algum lugar, tem um nome e está em alguma posição na lista.

O teste de admissão que você já está fazendo sem saber são seus dados criados e distribuídos livremente no Facebook, no Instagram ou no Twitter. Com eles não precisamos de aproximações, médias e cortes comparativos do seu desempenho, temos uma imagem real de como você se comportou, em relação a tudo isso no passado, com curvas e algoritmos que rapidamente estarão disponíveis na forma de algoritmos personalizados.

Você acha que escapou de tudo isso porque não tem redes sociais? Ledo engano, algo análogo estará disponível pelo seu perfil de compra e engajamento.  Você não quer mostrar isso para os outros? Ok, será como dizer assim: com medo de ser comparado com os outros eu não fui à escola, não fiz vestibular e nem quero preencher meu Curriculum Vitae.

No futuro as entrevistas de empregos serão discussões abertas entre você e seu passado virtual. É nesta hora que veremos a verdadeira face dos fazedores de perfis falsos, dos haters profissionais, dos que sofrem de diarreia ou impulsividade verbal, dos que cultivam preconceitos e propensões políticas totalitárias, dos que frequentaram cronicamente programas de Q.I. rebaixado, consumiram demasiado lixo cultural ou simplesmente dos que terão poucos dados para mostrar e entrar no páreo.

Percebermos também curva ascendente ou descendente das habilidades cognitivas ou afetivas básicas.  O nível de repostas projetivas será muito fácil de aprender considerando o teor da conversa dominante hoje na rede. Minha filha foi parada recentemente na fronteira entre Israel e Jordânia, enfrentando um duro interrogatório, simplesmente porque seu passaporte era novo demais. Talvez será o futuro: os suspeitos se tornarão os que não conseguem comprovar a falta de desvios no passado.

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