Blog do Dunker http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir. Sat, 11 Jul 2020 20:13:45 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Por que a web ataca atriz de Glee pelo desaparecimento de Naya Rivera? http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/07/11/por-que-a-web-ataca-atriz-de-glee-pelo-desaparecimento-de-naya-rivera/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/07/11/por-que-a-web-ataca-atriz-de-glee-pelo-desaparecimento-de-naya-rivera/#respond Sat, 11 Jul 2020 15:00:13 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=648

As atrizes Naya Rivera (esq.) e Lea Michele, que participaram da série “Glee” (David Livingston/Getty Images e Reprodução/ Instagram)

A atriz e cantora Naya Rivera, que viveu a personagem Santana Lopez na série “Glee”, encontra-se desaparecida depois que o barco que ela pilotava em um lago no sul da Califórnia, foi achado à deriva, com seu filho de quatro anos, vestindo um colete salva-vidas. Logo em seguida Lea Michele, atriz que representava uma das antagonistas de Naya na série, passou a ser violentamente atacada nas redes sociais. Aparentemente a misteriosa desaparição de Naya, na vida real, só podia ter uma culpada, a sua adversária na vida ficcional de Glee. Os internautas não repeitaram nem mesmo o fato de que a  atriz está grávida, “cobrando” uma resposta, ou uma declaração pública de que ela de fato não teria raptado ou tramado do desaparecimento de Naya. Como se tivessem uma espécie de direito adquirido como vingança pelos infortúnios e pela inveja que Lea sentia pelo sucesso de Naya… como personagem da série.

O episódio pode ser tomado com um caso modelo da somatória de equívocos, enganos e confusões de sentimentos que só uma rede social pode produzir.  Tudo se passa como se tivéssemos “cancelado” a diferença entre personagem e atriz. A fronteira entre vida real e ficção se apaga. Diante da falta de sentido de certos acontecimentos, como a desaparição inexplicável de uma jovem e bela atriz de sucesso, emerge uma narrativa simples que torna tudo isso pleno de sentido. Um ótimo exemplo de como nosso desejo de punição e castigo, nossa ânsia de produzir culpados, se amplifica nas redes sociais.

Lea parece ser o lugar certo para depositar nossa raiva. Ela foi acusada de praticar maus-tratos e racismo no set de filmagem da série. Seus requintes de crueldade, denunciados por suas colegas de trabalho, atingiam particularmente jovens atrizes iniciantes.  Provavelmente a comoção e a compaixão esperada para o caso produziu o que em inglês se chama “mixed feelings”, uma mistura de sentimentos que se aplica quando experimentamos afetos opostos em relação a uma mesma pessoa ou situação.

Aqueles que antes vibravam com o cancelamento da malvada Lea, agora duplicam sua satisfação em uma espécie de cancelamento do cancelamento.  Como se os que torceram por Naya contra Lea sofressem o efeito rebote de inversão da vingança. Como se o fato de que algo ruim acontecer a uma pessoa-personagem boa exigisse uma especie de correção da realidade. essa é uma forma de resolver afetos misturados, repurificando-os em uma nova usinagem de culpa e raiva. 

O processo de duplo cancelamento ou de reciclagem de uma figura cancelada para explicar o inexplicável  pode ser entendido como um dos efeitos da cultura da culpa. Todo sujeito dominado pela culpa é também um dependente do prazer purificador que ela traz consigo. Freud fala em três movimentos de nosso supereu, este nosso gerente geral interno da culpa: observar, julgar e punir. Essa dependência baseia-se no fato crescente de que se não encontro culpados nos outros a culpa voltará para mim.  Mas o supereu não age como um juiz imparcial que quer ver o equilíbrio restabelecido. Ele é muito melhor representado por um juiz punitivo, que goza e vibra quando executa suas sentenças, extraindo um prazer sádico, resguardando-se disso pela desculpa que está operando dentro da lei.

Muitas pessoas, e o funcionamento em estado de  massa digital parece nos inclinar para isso, podem se tornar dependentes deste prazer baseado no alívio da culpa. Este prazer pode ser chamado também de gozo, porque não envolve a própria corporeidade. Ou seja, se o prazer é de cada um o gozo passa sempre pela suposição que fazemos sobre a satisfação alheia. É porque a massa digital especula que Lea está gozando com a desaparição de Naya, que ela deve ser punida. Na verdade a desaparição de Naya faz cócegas em nosso superego, afinal como pode haver “crime” sem “culpado”?

Exemplo sumário. Uma pessoa muito pudica reprova o uso de pornografia em nome da moral e dos bons costumes. Outra pessoa gosta de pornografia e gostaria de vê-la permitida e amplamente divulgada, porque isso facilitaria sua forma preferencial de prazer. Quando se decreta a lei que autoriza a pornografia acontecem duas coisas na segunda pessoa: ela goza em função dos prazeres futuros (que ela ainda não teve) e ela goza porque seu adversário estará se contorcendo ao imaginar o prazer que o pornógrafo está tendo (gozando dela). 

A loucura humana não tem que ver apenas com prazeres permitidos e interditados, mas com o fato de que além do prazer que podemos extrair de nossos próprios limites e condições temos que lidar com o gozo, que sempre passa pelo outro, e pelo prazer que “nós” supomos que “ele” ou “eles” estão experimentando. É por isso que é tão difícil, para muitos, reconhecer erros e voltar atrás. Quando fazemos isso supomos que estamos “dando o braço a torcer” e que o outro vai gozar com isso.  

Conclusão: se a gramática da culpa comanda nossas relações com o outro e com o mundo, quando uma desgraça acontece alguém tem que ser punido (senão seremos nós mesmos). Quando temos pensamentos de vingança, ou o mero desejo de que alguém que detestamos se dê mal devemos estar preparados para o efeito rebote de retorno do cancelado. Daí sentimos culpa onde ela é inexplicável pois não agimos de forma a causar o mal do outro. É nesta hora que o comportamento de massa precisa de uma nova purificação. É preciso inverter a culpa em satisfação gozosa achando um novo culpado.O processo é semelhante a dependência química, na qual precisamos cada vez de doses mais altas para obter os mesmos resultados de alívio e purificação.

E de cancelamento em cancelamento vamos nos achando cada vez mais puros, quando o que acontece é que vamos nos tornando cada vez mais pobres … de espírito.

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Como reconhecer uma fake news científica? Veja este exemplo na psicologia http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/07/03/como-reconhecer-uma-fake-news-cientifica-veja-este-exemplo-na-psicologia/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/07/03/como-reconhecer-uma-fake-news-cientifica-veja-este-exemplo-na-psicologia/#respond Fri, 03 Jul 2020 07:00:46 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=628

Sigmund Freud (Pixabay)

Neste momento em que o Congresso discute medidas para conter a disseminação de fake news e que a pandemia de coronavírus nos faz acompanhar, cada vez mais de perto, o progresso da pesquisa com vacinas e antídotos, torna-se crucial reconhecer e valorizar a boa divulgação científica.

Vários fatores concorreram para a indisposição social com as universidades brasileiras e sua demonização política, junto com as artes e a educação em geral. Entre eles está a crônica dificuldade em esclarecer apropriadamente a importância e a complexidade do processo de produção do conhecimento científico.

O negacionismo científico, porta de entrada para a intolerância religiosa, o dogmatismo cultural e o fascismo político, fermenta a sede de certezas. Nem sempre a ciência tem respostas para nossas incertezas. Isso cria a tentação psíquica para aderirmos a enunciados fáceis e crenças resseguradoras. Isso tende a identificar a ciência, como forma de saber, com a tecnologia, como produção de objetos e processos derivados deste saber.

Saber como funciona o SARS-CoV-2 é diferente de produzir e distribuir vacinas contra a covid-19, que por sua vez é distinto de tratar pacientes em um hospital, ou com a política pública de saúde. Apesar das diferenças, nos referimos a tudo isso como ciência. Apesar da complexidade, sabemos que a divulgação dos benefícios da cloroquina, o anúncio de fórmulas mágicas de cura e proteção são fake news científicos.

Fake news no campo da ciência podem ser definidas como notícias que abordam problemas de ciência com imperícia na apresentação dos fatos, imprudência quanto ao impacto junto ao público ou negligência na tradução da complexidade da matéria tratada.

O contexto da pós-verdade[1] nem sempre é formado por enunciados individualmente falsos e contrariáveis com a experiência por um sistema de checagem. Muitas vezes afirmações verdadeiras ou plausíveis conduzem a conclusões falsas ou mal-intencionadas.

Nosso momento pede urgentemente mais e melhor divulgação científica, mas isso não será obtido tomando a ciência como a única forma de conhecimento válida, útil e pertinente ou misturando tecnologia, metodologia e teoria da ciência com marketing e moral.

O desafio não é pequeno porque a própria definição de ciência sofre severas flutuações, conforme consideremos sua história, os conceitos teóricos das diferentes disciplinas, os objetos específicos, os métodos de investigação, as práticas associadas ou as tecnologias derivadas.

Em vez de expor um conjunto de considerações sobre a ciência em geral, tentando homogenizar critérios relativamente específicos de cada ciência, vou discutir um caso modelo de fake news científica, em uma área sabidamente instável do ponto de vista epistemológico, ou seja, a Psicologia. Trata-se de uma matéria publicada pelo site de divulgação científica “Questão de Ciência“, chamado “A Psicanálise e o infindável ciclo pseudocientífico da confirmação, cujo autor, Ronaldo Pilati, professor em Psicologia Social na UNB, possui uma carreira destacada das ciências cognitivas, mas que, neste caso, aventurou-se a tecer críticas contra a psicanálise, matéria na qual não possui nenhum trabalho a respeito. O texto consegue reunir tamanho número de falácias, imprecisões e equívocos que se se presta a exemplificar paradigmaticamente o que deve ser evitado em termos de divulgação científica.

1. Excesso de autoridade

Fake news tendem a denunciar autoridades constituídas e infiltrar um sentimento de que estamos sendo enganados. Afinal esta é a maneira mais simples de começar a enganar o outro, ou seja, praticando a verdade que está por vir. Isso acontece no caso do artigo de Ronaldo Pilati sobre a Psicanálise. Depois de referir-se a sua forte representação social na mídia, no imaginário popular e no senso comum ele declara: “não se confunda, o aspecto mais importante que a Psicologia partilha com a psicanálise é a história”.

Observe o uso desigual da letra maiúscula para “Psicologia” e minúscula para “psicanálise”. Observe a ideia de que a psicanálise seria algo do passado e histórico. Observe como aquele que quer te enganar começa dizendo que você está sendo enganado. A afirmação é objetivamente falsa. A maior parte dos cursos de Psicologia compreende muitas disciplinas de Psicanálise, quer nos cursos de graduação, quer nos manuais introdutórios mais lidos, quer na pós-graduação. Há vários grupos de pesquisa ligados à psicanálise admitidos pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Psicologia (Anpepp).

Mas isso são testemunhos institucionais, na verdade, a tese subjacente é que eles todos possuem uma autoridade indevida. O mais grave neste caso é que o seu autor é presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia, portanto, deveria representar todos os psicólogos, inclusive os psicanalistas que frequentam esta sociedade e não apenas os que seguem sua abordagem. Afirmar, pejorativamente, que a psicanálise é uma pseudociência abusa deste poder representativo e deveria levar à sua destituição imediata.

2. Perguntas simplificadoras e suas respostas desencaminhantes

Depois de denunciar as fake news científicas, costumam fazer perguntas simplificadoras do tipo “a psicanálise é uma ciência?”. Ignorando a grande variedade de acepções do que significa “psicanálise” (e também “ciência”), fixando-a aos escritos de Freud (como se a pesquisa psicanalítica não tivesse avançado desde então), desfazendo a hipótese de que ela poderia ser, não uma, mas várias ciências combinadas e desinformando o leitor de que a psicanálise é tanto um método de tratamento clínico, quanto um método de pesquisa e uma teoria (a pergunta sobre a cientificidade é diferente em cada caso), o autor não ajuda o leitor a tornar mais complexa a pergunta.

Na verdade, você nunca teria feito esta pergunta se alguém não tivesse desmascarado as coisas para você. Afinal, quando foi que você perguntou se o seu médico é “científico” ou não? Quando foi que você se inquietou se seu fonoaudiólogo, nutricionista ou mesmo o professor de seus filhos é “científico” ou não?

Em geral, confiamos que alguém que se dedicou a uma formação específica, passando por uma universidade ou por qualificações adquiridas para uma prática qualquer, segue sendo uma solução razoável, até que algo nos pareça incorreto ou injustificável.

Perguntas simplificadoras rebaixarão nosso nível de exigência cognitiva, assim como elevam nossa desconfiança. Afinal, como você pode provar que o ser humano realmente pisou na Lua? Quais as reais provas que está havendo um derretimento da calota polar? Como colocou Atila Iamarino, a crença na ciência não aumenta com validação racional de evidências, mas com uma mudança cultural que estabeleça mais e melhores posturas críticas.

WikiImages/ Pixabay

3. Declarações amplas, contundentes … e furadas

Perguntas simplificadoras costumam induzir falsas conclusões ou certezas discutíveis a partir de premissas corretas. No caso da fake news em questão isso remonta ao argumento apresentado por Karl Popper nos anos 1940, de que a psicanálise é uma pseudociência porque seus conceitos não são falseáveis. Karl Popper é um grande teórico da ciência, mas muitos duvidariam que ele é “o maior filósofo do século XX”, como o texto declara.

Psicanálise, Psicologia Individual (Adler) e psicologias psicodinâmicas são reunidas em uma coisa só. Popper foi sucedido por inúmeros reparos, críticas e objeções. Mesmo assim, o fato de Freud pertencer “apenas” a história da psicologia, não é suficiente para dizer que Popper, que lhe foi contemporâneo, pertence “apenas” à história da epistemologia.

Oseroff mostrou que a popularização da tese de Popper propagou três mitos pseudocientíficos: o mito da demarcação extra-social da fronteira entre ciência e não ciência (enfrentado por T. Kuhn), o mito de que apenas teorias individuais são falseáveis (a teoria da evolução de Darwin não seria falseável) e o mito de que há apenas um critério de demarcação (há em Popper também o critério da previsibilidade).

A crítica de Popper foi refeita, em melhores bases, por Grünbaum em 1984 e respondida com dados experimentais por Shevrin, mostrando que sim, é possível falsear a hipótese do conflito inconsciente, particularmente em sintomas fóbicos [2]. Portanto, a afirmação de que “a atitude não falseacionista continua sendo replicada pelos psicanalistas da atualidade” é desatualizada, genérica e falsa, apesar de partir de uma premissa verdadeira.

4. Retratos, caricaturas e espantalhos

Fake news movem-se em torno da produção de inimigos, denúncias e conspirações. Por isso é importante prestar a atenção a parcimônia com a qual se caracteriza posições oponentes.

A estratégia da falsa divulgação científica força o retrato com traços indesejáveis e fixa uma imagem representativa: “aquilo que se sabia na época de Freud é muito diferente do que se sabe hoje”, nada da psicanálise foi confirmado pelas modernas neurociências (ignorando, por exemplo, o trabalho recente de Sidarta Ribeiro [3]). Com isso nos resta recusar e excluir a psicanálise do debate científico e das práticas psicoterápicas. Isso não contribui para que ela apure seus próprios critérios de cientificidade, esclareça pontos de obscuridade de seus conceitos ou critique seus procedimentos clínicos. A solução se dá por eliminação do oponente.

Pilati ignora soberbamente um século de pesquisas psicanalíticas, invalida autores que renovaram suas concepções. Como se a psicanálise não tivesse buscado apoio na psicologia do desenvolvimento, na antropologia, nas ciências da linguagem, nas matemáticas e mais recentemente nas neurociências. Como se a psicanálise não tivesse se interconectado, para o bem e para o mal, com inúmeras teorias psicológicas, até mesmo cognitivistas e comportamentalistas, como parece ser a adesão do autor do texto.

O retrato sugerido por frases como “o autoalijamento psicanalítico do pensamento científico” desconhece a vasta bibliografia sobre epistemologia da psicanálise. A afirmação de que a “psicanálise é uma pseudociência como a homeopatia, a cromoterapia, as práticas complementares ou integrativas” opera por desqualificação e agrupamento de preconceitos. As revistas, os congressos, as teses, as associações de psicanálise são “apenas” imitações da verdadeira ciência.

Mais uma vez o espantalho criado para retratar a psicanálise se ajusta muito melhor ao próprio texto que a denuncia, como uma falsa divulgação científica.

5. A força do veículo não garante a qualidade do motorista

Fake news científicas podem acontecer em reputados veículos de imprensa. Neste caso um traço típico é a sua republicação, repetindo o conteúdo com pequenas variações de forma. É o caso da matéria de Pilati cuja mensagem se repete há anos, tornando-se parte do conhecido “Funeral Eterno de Freud“. Veículos importantes como a Time, nos anos 1990, e agora o site “Questão de Ciência”, que publica matérias pertinentes em biologia, medicina e ambientalismo, estão sujeitos a isso.

Tais revistas ou editorias enfrentam o desafio de englobar e cobrir o conjunto mais extenso das ciências, em particular das ciências humanas. Nem sempre a notícia que acolhe todos os lados, enviando o leitor para um material bibliográfico espinhoso e reduzindo o impacto pirotécnico das conclusões será uma pauta atraente.

É possível que muitos elementos da psicanálise e boa parte de suas estratégias de fundamentação sejam provenientes da filosofia e não da ciência. Talvez sua existência dependa de certos paradoxos da ciência, ou de sua peculiaridade metodológica de se interessar por sujeitos singulares, e não apenas por sujeitos-tipos. Mas disso não decorre que ela não se esforce por justificar seus conceitos e procedimentos de forma pública, em linguagem crítica e laica, debatendo com instituições reguladoras, em acordo com os princípios da razão suficiente, no quadro de uma ética emancipatória. Afinal, são destas propriedades, inerentes ao modo como a ciência é feita, que ela extrai sua autoridade sobre nós.

Mas a autoridade que se quer expressar aqui é mais punitiva e securitária: “A população deve ser informada de que, quando alguém opta por uma psicoterapia com estas características, a opção feita é por algo que não tem evidências de efetividade a apresentar, ou seja, se você quer arriscar, tome o risco por si mesmo, porque a ciência não garante.

Anos atrás a maior sociedade científica de psicologia dos EUA refez os dez principais estudos experimentais de sua área e para escândalo geral, mais da metade deles não resistiu ao critério da replicabilidade, ou seja, usando-se os mesmos métodos e variáveis os resultados eram diferentes.

Isso significa que a psicologia experimental não é ciência? Ela está enganando a todos e superestimando sua autoridade? As terapias que decorrem desta perspectiva são uma ofensa à saúde das populações? Acho que não. A população deveria ser informada sim, mas de que existem evidências científicas da eficácia e da eficiência clínica da psicanálise e aqui estão algumas das mais conhecidas: 

  • Leichsenring, F, Kruse, J, Rabung, S (2012) Efficacy of Psychodynamic Psychotherapy in Specific Mental Disorders: An Update. In: P Luyten, LC Mayes, P Fonagy, M Target, SJ Blatt. Handbook of Contemporary Psychodynamic Approaches to Psychopathology. New York: Guilford Press.
  • Rabung, S, Leichsenring, F (2012) Effectiveness of Long-term Psychodynamic Psychotherapy: First Meta-analytic Evidence and its Discussion. In: R Levy, SJ Ablon, H Kächele (Eds.). Psychodynamic Psychotherapy Research. Evidence-Based Practice and Practice-Based Evidence. New York: Humana Press, 27-49.
  • Doidge N. Empirical evidence for the efficacy of psychoanalytic psychotherapies and psychoanalysis: an overview. Psychoanal Inq1997;102-150
  • Fonagy P, Target M. Predictors of outcome in child psychoanalysis: a retrospective study of 763 cases at the Anna Freud Centre. J Am Psychoanal Assoc1996; 44:27-77.

Sr. Ronaldo, volte para seu condomínio burocrático e pare de espalhar Fake News científicas. Estude um pouco mais de psicanálise e faça uma crítica consistente e atualizada. A crítica bem feita faz todos avançarem na ciência e fora dela também. Evite repetir matérias sem fundamento que visam criar impacto e desinformar a população.  A ciência acolhe todos os que querem jogar pelas suas regras e não pode prescindir de todos que dela querem participar. Este é um momento de união de todos que participam do debate das luzes e estão dispostos a enfrentear nossos problemas candentes por meio da razão. Não venha atrapalhar o que já está difícil por si só.

REFERÊNCIAS

[1] Dunker, C.I.L. (2017) Subjetividade em tempos de pós-verdade. In Ética e Pós-Verdade, São Paulo: Dublinense.

[2] Beer, P. (2019) Psicanálise e Ciência: um debate necessário. São Paulo: Blutcher.

[3] Ribeiro, S. (2019) Oráculo da Noite. São Paulo: Companhia das Letras.

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O que é preciso saber para que o seu crush seja o verdadeiro amor digital http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/06/26/o-que-e-preciso-saber-para-que-o-seu-crush-seja-o-verdadeiro-amor-digital/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/06/26/o-que-e-preciso-saber-para-que-o-seu-crush-seja-o-verdadeiro-amor-digital/#respond Fri, 26 Jun 2020 07:00:00 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=615

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Os hotéis internacionais em Israel apresentam, caracteristicamente, um vasto saguão de entrada com muitas mesas e cadeiras para dois ou quatro lugares. No começo achei aquilo pouco funcional, pois não servia nem como cafeteria muito menos como restaurante, mas como uma sala de estar ampliada. Gradualmente comecei a perceber que as mesas estavam quase sempre ocupadas por casais vestidos de modo ortodoxo. Fiquei observando os encontros e logo ficou claro que aquele antigo costume, mediado por profissionais casamenteiros, aliás tão divertidamente descritos por Freud em livros como “Chistes e suas Relações com o Inconsciente” ou “Interpretação dos Sonhos” estava no mais vigoroso uso e atualidade.

Os jovens casais pareciam se divertir, ainda que sóbrios, tipicamente com uma garrafa de água mineral de soslaio. Não aparentavam o menor traço de vergonha ou embaraço com a situação. Alguém me disse depois que as práticas variam, mas que a mulher tem direito a um número relativamente finito de recusas, depois dos quais sua prerrogativa de escolha pode cair. O incrível aqui não é que a prática exista ainda hoje, mas que ela pode dar certo, no limite tênue e improvável do que podemos empregar essa expressão para casamentos.

Comparei aquele ritual com o similar nacional, que acompanho cotidianamente no Brasil. No começo achei inconcebível que ainda hoje tantos casais se formassem com tantas mediações, regras e ritos. A coisa toda lembra os casamentos arranjados pelas famílias, com seus interesses, o que remonta aos tempos pré-históricos, antes de termos inventado esta maravilha chamada “escolher alguém livremente baseado neste supremo valor chamado amor”.

Mas a comparação não saiu tão devastadora quanto eu previa. Pensei naqueles solitários contumazes que não conseguem ir a um cinema desacompanhados porque sentem-se em assédio moral imaginário permanente por aquela voz que diz e aquele dedo que aponta: “seu fracassado amoroso”. Pensei que eles poderiam contratar os serviços de um casamenteiro judaico. Mas logo vi que isso seria uma espécie de comprovação humilhante de que eles estão “mesmo”  fora da curva de como “as coisas devem ser”.

Lembrei de quantos pacientes parecem ter na cabeça uma narrativa condicional quanto a forma como o amor acontece. Lembrei dos textos de Freud sobre a psicologia da vida amorosa e de como produzimos condições, negativas e positivas, para a escolha de nosso objeto de amor. Entre elas é comum encontrar uma espécie de horror à própria ideia de que devemos agir ativamente para nos propiciarmos situações nas quais a contingência do amor pode acontecer. Aqui a palavra-chave costuma ser: “natural”.

Natural como sempre foi, amigos de amigos em turmas e festas ou baladas e barzinhos. Um exame mais apurado costuma mostrar que este natural indica apenas a retenção de condições nas quais outros amores aconteceram, em outras épocas da vida as quais, por exemplo, os amigos não estavam casados, as baladas tocavam rock progressivo e inexistiam aplicativos.

Apesar do aumento exponencial deste tipo de tecnologia na aproximação entre casais, há ainda efeitos residuais da primeira geração de usuários deste tipo de rede social. No seu agora clássico “Tinderellas” [1], Lígia Figueiredo e Rosane de Souza, detectaram três estilos de uso destes aplicativos:

  1. O curioso, que conversa muito, mas fala pouco de si, demora para se envolver, tal qual um antropólogo que está pesquisando uma outra cultura
  2. O recreativo, que está em busca de diversão, que forma certos códigos e procedimentos para conectar-se a alguém ajustado para a ocasião.
  3. O racional, que está olhando para a tarefa em busca de uma escolha de longo prazo, com forte intimidade e investimento de parte a parte.

Cada perfil de uso combinaria-se com um tipo de apego –seguro ou inseguro, evitativo ou ansioso–, que exprimiria de forma compacta a maneira como teríamos aprendido a amar quando de nossos primeiros amores, ou seja, com nossos pais e cuidadores.

Descobrindo-se com mais clareza o que cada um quer (seu estilo de uso), esclarecendo-se as condições e escolha (o tipo de apego) e estabelecendo-se com maior transparência do que se compõe o outro, seus traços e qualidades “dinheirais, sexuais e intelectuais”, nada poderia escapar ao procedimento. Bastaria se dar o trabalho de repeti-lo até encontra o match, crush e seguir viagem.  

Mas não é isso que está acontecendo. A quantidade de sequelados pelos desencontros digitais, dos cansados de tanta oferta enganosa, dos que simplesmente não suportam a situação tal qual ela se apresenta ainda é muito grande.  Talvez esteja faltando ao procedimento alguns ingredientes da velha sabedoria judaica.

Cena do episódio “Hang the DJ” da série Black Mirror (Jonathan Prime/Netflix)

No episódio “Hang the DJ” da série Black Mirror, um programa determina o encontro entre casais assim como o tempo que eles permanecerão juntos. Amy e Frank ficam apenas doze horas, dormem juntos, mas não transam neste primeiro fugaz encontro. Nada de surpreendente e notável acontece neste primeiro encontro, a não ser o fato de que nele “algo” realmente aconteceu.

Depois disso ambos têm relacionamentos mais longos e curtos, mais ou menos desastrosos, até que o programa os recoloca juntos novamente. Desta vez, eles agem de modo contraintuitivo decidem juntos não olhar o tempo de duração que este encontro terá.  Ora, esta decisão de “não saber” parece ser essencial para que o amor aconteça.

Talvez o que os aplicativos carreguem como falsa demanda reside na ideia de que saber mais sempre aumenta nossa perspectiva de decisão. Às vezes saber menos –sobre o que se quer, sobre quem se é e sobre o que queremos do outro– abre o vão necessário para que o amor aconteça em sua lógica de encontro e de transformação.

Logo no primeiro encontro entre Frank e Amy acontece algo quase imperceptível para o espectador, mas crucial para tudo o que se seguirá: eles descumprem juntos uma regra. Isso se repetirá na decisão de não saber e também no que sucede a trama (o spoiler para aqui e você vai ficar sem saber como acaba).

Isso ajudaria a entender porque tantas pessoas têm ódio mortal dos aplicativos, como se eles vendessem uma falsa promessa, que na verdade estaria mais na nossa interpretação e uso sobre o que eles oferecem, ou seja, como método de encontro eles trazem este efeito iatrogênico de nos fazer acreditar que saber mais e mais rápido é melhor.

Talvez sejam as mesmas pessoas que antes amaldiçoavam o amor romântico antes mesmo de ler seu manual de uso (Goethe, Balzac, Flaubert, Stendhal,  Tolstoi, Clarice Lispector, Ana Cristina César, Hilda Hist e todos os outros). Isso nos leva a formulação de tipos e enquadramentos muito rápidos sobre o outro, sobre nós naquela situação. Isso aumenta a pressão urgente para decidir e não “perder mais tempo”.

Uma leve coerção, como a exercida pela regra casamenteira judaica, de que você pode escolher, mas depois de certo número de tentativas sua liberdade pode cair, me parece essencial para aqueles que ainda acham que encontrar alguém é como andar pelas vitrines do shopping center ou expor-se como pedaço de carne no açougue.  

Em síntese, o amor digital não tem que ver com contrato, não tem que ver com livre escolha de mercadorias, não tem que ver com gostos semelhantes, nem com “tipos” ou “traços” humanos que se completam.

Ele depende de nossa capacidade, cada vez mais rara, de suportar não saber e de agir em conformidade com o seu desejo, assim mesmo.

REFERÊNCIA

[1] Figueiredo, L.B. & Souza, R.M. (2017) Tinderellas. São Paulo: Ema Livros.

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Do negacionista ao tecnólogo prudente: veja quem você é no pós-quarentena http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/06/19/relaxamento-da-quarentena-reformula-a-maneira-como-voce-mantem-as-relacoes/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/06/19/relaxamento-da-quarentena-reformula-a-maneira-como-voce-mantem-as-relacoes/#respond Fri, 19 Jun 2020 07:00:48 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=601

Carol Jeng/ Unsplash

Ao que tudo indica a abertura chegou, de forma lenta, gradual e irrestrita. Ou seja, a pandemia começa a dar mostras de arrefecimento no Brasil, ainda que em alguns centros esteja no processo de agudização, em um movimento de expansão dos grandes centros para a capilaridade do interior. Forma-se agora uma espécie de litoral entre a regra clara e universal –“não saia de casa”– e suas exceções, limites e casos singulares.

Entendo que este processo envolve o exercício ético do emprego de tecnologias e a produção de um novo espaço de negociação e de confiança entre o privado e o público. Se antes o risco estava entre zero e um, o que nos permitia distinguir entre os que seguiam a quarentena e os que a violavam, com a exceção dos que por dever de ofício precisavam se expor ao risco e demandavam assim proteções e cautelas especiais, como as EPIs, agora cada qual deve calcular o risco subjetiva e objetivamente, com os recursos e necessidades que se impõem.

Por exemplo, deve uma idosa de 87 anos receber a visita de seu neto, que ela jamais viu desde o nascimento? Mesmo que os pais estejam em quarentena fechada há o risco do elevador, do automóvel e das escadas. Mas quem decidirá a tomada de risco? Os pais, a própria avó, um infectologista?

Outro caso. Uma jovem está prestes a mudar-se para um apartamento recém-adquirido, mas antes disso decide fazer uma pequena obra. O condomínio decide interromper obras durante a quarentena. Mas quem dirá quantos pedreiros, barulhos e materiais de construção constituem um risco para os habitantes do prédio, e quantos olharão para o risco enfrentado pela jovem proprietária que não pode praticar a quarentena como gostaria?

São exemplos de como a tomada de risco convoca uma análise para a qual estamos desprevenidos, porque ela não é uma análise de risco individual, mas, como diria Lacan, de risco transindividual. Ou seja, quando eu avalio que represento um risco grande para você a quem amo, ainda que você mesmo não pense assim, deve prevalecer o meu juízo ou o seu?

A balança aqui parece reunir um intrincado jogo de relações, que passam, por exemplo, pelo acúmulo de comorbidades, como diabetes e fragilidade cardíaca, pela soma de vulnerabilidades, como faixa etária e condição nutricional, e pelos ganhos potenciais derivados da tomada de risco, por exemplo o aumento de renda que, eventualmente, pode ajudar a melhorar as condições para suportar a quarentena, sua ou dos seus.

Há sites que mostram áreas com maior incidência de casos de covid-19, alguns capazes de indicar a quantidade de contaminados por rua. Por outro lado, começamos a encontrar cada vez mais pessoas que andam com o teste positivo no bolso, para atestar sua imunidade. Deveriam eles usar máscaras, para incentivar tal prática, que coletivamente nos protege a todos? Ou deveriam exibir sua imunidade publicamente? Isso nos leva a outra consideração: e aqueles que apenas se dizem imunes?

O ponto chave aqui é que teremos que reconstruir nossa confiança nas palavras, assim como, com todo cuidado nos autorizar a saber sobre a quarentena alheia. Entre o aberto e o fechado existe o entreaberto. Quando o risco se distribui entre contrair uma forma grave ou assintomática do vírus, nos aproximamos da lógica que força a alternativa entre vida ou morte, ainda que alguns pensem em reduzi-la à oposição entre a bolsa ou a vida.

Podemos então discernir quatro percursos daqueles que estão agora reformulando sua relação com a quarentena:

Negacionistas

Os negacionistas, que persistem e prolongam uma atitude de negação do risco ou de seu aspecto coletivo e indeterminado. São aqueles que se acreditam imunes, escolhidos ou especiais demais para serem atingidos por esta espécie de punição moral, com qual a doença foi vestida. São aqueles que precisam negar ostensivamente a quarentena e que agora se opõe ao uso de máscaras e procedimentos elementares de precaução.

Binários

Os binários, que diante da lei colocam-se apenas uma alternativa: obedecer ou transgredir. Neste caso é preciso destacar como a apresentação dos planos de abertura, com toda sua complexidade, com idas e vindas, e talvez com certa precocidade, fez com que o imenso sacrifício representado pela quarentena, com seu impacto diverso em nossas práticas de redução de angústia e estabilização sintomática, de medo e de perda de liberdade, tenha sido meramente revertido para o polo da liberação. Como se furar a quarentena seguisse a regra de: “furado por um, furado por mil”.

Aqui a dificuldade da matéria não é pouca. Como esclarecer a população de que cada qual deveria analisar criteriosamente suas próprias condições de vulnerabilidade, calcular riscos a partir daí, criando novas formas de isolamento social?

Vasos comunicantes

Os vasos comunicantes, que formaram gradualmente uma rede interligada de quarentenados e de pessoas ou grupos “seguros”. São pais e avós que se frequentam sob certas condições, empregados que voltam ao trabalho depois de um tempo vivendo em condições mais seguras, ou pessoas que fazem o teste para poder integrar a rede de frequentação.

“Vasos Comunicantes” é o nome do romance surrealista publicado em 1932 por André Breton, onde se misturam poesia e prosa, dados reais e testemunhos imaginários em torno do que ele chamou de “contingência objetiva”, ou seja, toda a franja de fenômenos que ocorre na zona de passagem entre o sono e a vigília, entre a fantasia e a realidade que nos torna seres de aposta e risco.

Cada estabelecimento comercial, cada escola, cada casa deverá estabelecer suas próprias regras de descontaminação ou cuidado e negociar que tipo de vaso comunicante pretendem criar. Isso significa deixar claro, transparente e compartilhados os riscos assumidos.

Prudentes

Os prudentes, que estão dispostos a usar todos os recursos que a tecnologia oferece, para avaliar riscos, criar práticas de proteção e reduzir fatores de contágio, mas ao mesmo tempo voltar para o mundo. A prudência ou bem-aventurança era chamada pelos gregos de sophrosine a virtude fundamental, a mãe de todas as outras virtudes. Para Aristóteles, a sophrosine é uma espécie de saúde moral, representada pelo caminho mediano entre a dor e o prazer, figurada pela função corporal do tato. Para Plotino ela é a “purificação (kahtarsis) preparatória para o retorno”[1].

Vão usar termômetros e álcool em gel, praticar distâncias e máscaras e confirmar que na nossa cultura, amar é proteger, mas ao mesmo tempo vão espaçar horários de trabalho, negociar a revelação de contaminações próximas e criar outras modalidades de circulação, pois amar é também apresentar ao outro o risco contingente de estar na vida.

Como diz Ailton Krenak: primeiro o cuidado, depois a coragem.

REFERÊNCIA

[1] Peters, F. E. (1974) Termos Filosóficos Gregos. Lisboa: Calouste Goulbekian.

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Como saber quem viu humor no racismo do Xbox Mil Grau no mundo digital http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/06/12/como-saber-quem-viu-humor-no-racismo-do-xbox-mil-grau-no-mundo-digital/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/06/12/como-saber-quem-viu-humor-no-racismo-do-xbox-mil-grau-no-mundo-digital/#respond Fri, 12 Jun 2020 07:00:27 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=584

Pixabay

Esta semana o canal de games Xbox Mil Grau –cujo nome quase foi mudado para XMG depois de intimação da Microsoft mas agora se chama Não-Playstation Mil Grau— , teve sua conta suspensa pelo Youtube. Isso impede que o canal tenha monetização e corte recursos como o super chat, fonte de arrecadação, mas não impede a postagem de material novo e não retira todas as mensagens anteriores.

O jornalista Ricardo Regis mostrou a permanência de postagens com altas doses de racismo, transfobia e misoginia, desencadeando uma campanha: #YoutubeApoiaRacista.

Tudo começou quando um dos membros do canal, Xcapim360 (depois xCapimBr) fez uma publicação cinco dias depois do assassinato de George Floyd, comparando o que negros e brancos faziam naquela ocasião, respectivamente arruaças na rua e decolagem em uma nave espacial. A Xbox Brasil pede a remoção da postagem, o canal Nautilus faz uma live pedindo que as plataformas vetem o conteúdo. A defesa do Mil Grau [veja abaixo] apresenta o seguinte conteúdo:

  1. Não somos racistas, porque não discriminamos usuários por cor, crença, gênero ou classe social, como outros streamers fazem
  2. O perfil é para maiores de 18 anos e faz “humor negro”
  3. O perfil defende a liberdade de expressão
  4. O meme não foi postado pelo canal, mas por um usuário.

Reprodução

Assim como na postagem de retratação, feita por xCapim, encontramos a mesma expressão: “repostei apenas para polemizar e não esperava tanta repercussão em cima disso.  Esta frase condensa os argumentos anteriores, pois afirma, ainda que indiretamente, tratar-se de uma mensagem para um grupo específico e que não deveria ter extrapolado sua repercussão para fora dele.

Este grupo compreende uma espécie de “nós”, no qual o racismo estaria excluído porque ele não é institucionalizado, como se para praticar o racismo tivéssemos que colocar uma placa ou um formulário de ingresso selecionando pessoas por cor, classe ou gênero. Por outro lado, este “nós” é reforçado como um lugar de acesso voluntário, onde se exercerá o direito de livre expressão, para adultos que estão advertidos de que ali se pratica o humor negro.

Fora o fato de que usar a expressão “humor negro” em uma defesa de acusação de racismo parece uma auto-ironia involuntária, o conceito ainda assim não se aplica.

O subgênero cômico foi assim designado por André Breton, criador do surrealismo, para designar o humor trágico, pessimista, que envolve a consideração de miserabilidade da espécie humana, não para designar o humor humilhante onde um grupo se destaca em relação ao outro. Ora, o humor e a comédia são decisivos tanto para pensarmos os limites de nossa liberdade quanto os sintomas do racismo e da segregação, porque ele envolve nosso desejo inconsciente.

Quando falamos em inconsciente geralmente pensamos nos sonhos, que são realizações alucinatórias de desejos, ou nos sintomas, que são realizações de desejos em uma formação de compromisso, ou ainda nos lapsos e pequenas trocas nas palavras e gestos, que Freud estudou em sua psicopatologia da vida cotidiana. Em um segundo plano, vamos lembrar que inconsciente também designa estados de alteração da consciência, como ocorre no hipnotismo e no amor delirante apaixonado.

Poucos se lembrarão de que Freud tem um extenso estudo sobre o humor [1] onde a cena do inconsciente aparece de uma maneira específica. Neste trabalho Freud traz um bom exemplo do que seria um humor trágico (ou “noir” na acepção de Breton): um prisioneiro condenado à morte na segunda-feira sai de sua cela e comenta com o carrasco: “que bela maneira de começar a semana!”

O chiste é um processo social pelo qual duas ou mais pessoas negociam a admissão de conteúdos que deveriam permanecer censurados socialmente. Esta aparição do que não pode ser dito, requer certas deformações concernentes ao uso da linguagem, por exemplo, modificação de palavras e duplos sentidos ou jogos de pensamento, como a falácia e o sofisma. Há, portanto, uma certa “inteligência” requerida para quebrar a barreira moral, o que tem por efeito aproximar as pessoas por identificação.

Quem conta piadas sabe que elas só funcionam para um determinado público, e se você não consegue ler ou interpretar bem este público, seja na sua composição, seja na sua temporalidade (o timing), a apresentação ou a piada fracassará.

Quando escuto uma piada –e se ela é realmente uma piada–, ela deve provocar um determinado efeito pragmático, uma experiência de prazer, por breve que seja, denunciada pelo riso ou sorriso. O prazer, principalmente quando ele traz algo de inédito, demanda uma espécie de compulsão por repetir-se. Mas não funciona muito bem se chego em casa e conto a piada para mim mesmo. Por isso quando a piada é boa, temos o desejo irresistível de passá-la adiante, porque vendo o outro rir, nos identificamos com ele e recapturamos um fragmento de nosso gozo inicial.

Por isso o chiste é um poderoso modelo para pensarmos a transmissão da cultura em geral.  Das artes à ciência e religião e da educação aos esportes, incluindo-se os e-sports, temos um impulso a generalizar nossa experiência de satisfação, como forma de recuperar um prazer inicial que nós mesmos tivemos com aquela construção de linguagem.

As fake news não são só um problema de desinformação e distorção cognitiva. Elas funcionam como uma massa digital que experimenta prazer a cada retuíte, que se satisfaz com a narrativa de culpa, ódio e indignação, violando imaginariamente a censura e criando uma paróquia imaginária, disposta a “livremente” reproduzir a piada recebida para gozar mais uma vez.

Por isso é preciso apoiar iniciativas como as do Sleeping Giants como forma de imprimir consequências institucionais ao uso da palavra, mas também cruzá-las com iniciativas comunitárias nas quais a palavra deve criar responsabilidades, digamos, no nível da pessoa e do sujeito.

Considerando que o humor é uma forma social de admitir, dar forma linguístico-discursiva e transmitir desejos inconscientes, teremos que admitir que ele é um forte meio de expressão da liberdade e de violação da censura. Mas isso deixa de lado os desejos inconscientes que não queremos admitir e também ignorar que a maneira como se dá a deformação é decisiva para o processo. Ou seja, se eu simplesmente declarasse, a céu aberto: gostaria de me casar com mamãe, isso não tem graça alguma, a não ser para um auditório sumamente infantil ou imbecilizado.

Chegamos assim em uma expressão chave empregada por Freud em seu estudo sobre a piada, ou seja, ela depende sempre da paróquia no interior da qual é contada. A expressão “paróquia” refere-se a uma posição intermediária, que reúne crentes de uma mesma comunidade, mas que não se encontram plenamente no espaço público, nem estão sujeitos ao mesmo tipo de responsabilidade e consequência.

FabiArts/ Pixabay

Esta ambiguidade entre público e privado, que de certa maneira define o novo espaço da linguagem digital, é um tremendo problema político por permitir que eu module os efeitos de minhas falas dizendo que:

  1. Se “pegou mal“, posso me defender dizendo que ela “era dirigida à minha paróquia”, ou seja, minha família, meu clube, meus amigos, onde supostamente posso continuar a praticar livremente meus preconceitos e a violência que a posse dos meios me permite.
  2. Se “pegou bem“, posso dizer que ela é a expressão de uma comunidade que está generalizando uma demanda, que precisa ser reconhecida, com o consequente rebaixamento da censura.

Cara eu ganho, coroa você perde. É o que Freud chamou de dupla moralidade. É o que aparece na declaração de que “era só para polemizar, não para ter esta repercussão”. É o que se admite quando se fala em um clube para maiores esclarecidos, que curtem violência verbal com duas desculpas suplementares: o canal permite e o nome que pagará, publicamente, a conta pelo desrespeito é “xCapimBR”.

Ora, há um critério para saber se a piada deve ser admitida, ainda que seja dura e contrarie interesses, e a piada que deve gerar outro tipo de consequência. Este critério é o tamanho da paróquia.

Se a piada tende a expandir a paróquia, incluindo mais gente, deixada de fora por outras piadas, muito que bem. Se a piada tende a reduzir a paróquia, terminando por fazer apenas e tão somente aqueles que são “gente como a gente”, ela deve ser objeto de uma inquirição. Isso significa um terceiro caminho entre a liberdade de expressão e a censura.

Imaginemos então um videogame no qual todos os competidores entram com seus nomes, reputações e posições institucionais, um jogo que se desenvolve em um espaço bem específico, chamado espaço público. Do outro lado está você, no parquinho de diversões do espaço privado, onde podemos dizer qualquer coisa, como uma criança, mas em contrapartida seremos ensinados e advertidos que o desrespeito e a ofensa não são admissíveis aqui. Quando você fizer um deslize terá que pedir desculpas e deverá reparar o efeito devastador de afeto que terá causado naqueles que te criam. Ou seja, nos dois tabuleiros o jogo da palavra tem consequências.

Mas a única consequência que vemos no episódio do XBox Mil Grau é um efeito de perda de dinheiro. Mesmo assim isso é relativo porque a publicização do escândalo pode atrair mais seguidores e eventualmente mais racistas e xenófobos para a “paróquia dos que gostam de polemizar.

Dinheiro e culpa são duas formas simples e relativamente ineficazes de punir alguém pelo racismo.

Esse dinheiro alimentará alguma transformação social das bases do racismo? Ele vai gerar um reposicionamento subjetivo e uma reparação aos que estão sendo atingidos pelo meme?

A punição e culpa são importantes, mas precisamos de mais do que isso.

Gostaria de ver o tal Capim falando de forma continuada e aberta, com o nome real na paróquia, com pessoas interessadas em discutir racismo. Outras pessoas que, aliás, talvez também gostem de “polemizar” nesta matéria.

Ou seja, se há uma moralidade entre os jogadores de videogame, ela está baseada em valores como habilidade e coragem.

Para reparar um dano como este seria preciso não apenas punir e pagar a conta, mas criar um desdobramento deste jogo, no qual, de forma pública a palavra, que foi maltratada, pudesse ser recomposta e este “nós” que funciona como abrigo e segurança para a falsa valentia possa ser colocado à prova de maneira mais expansiva e menos centrífuga.

REFERÊNCIA

[1] Freud, S. (1905) O Chiste e suas Relações com o Inconsciente. Obras Completas de Sigmund Freud. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

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Do Anonymous ao covid, uso de máscara vai mudar a lógica de nossas relações http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/06/05/do-anonymous-ao-covid-uso-de-mascara-vai-mudar-a-logica-de-nossas-relacoes/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/06/05/do-anonymous-ao-covid-uso-de-mascara-vai-mudar-a-logica-de-nossas-relacoes/#respond Fri, 05 Jun 2020 07:00:22 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=574

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Em 2010 fiz algumas conferências em Dublin com um professor japonês, tradutor das obras de Freud para aquele idioma. Ele era sempre austero e como estávamos sob neve serrada decidi que meu esporte seria tentar tirá-lo do sério, por exemplo, sugerindo um jogo de futebol, com uma bola de papel no corredor da universidade ou perturbando-o no restaurante. Aos poucos ele foi cedendo aos maus modos brasileiros e iniciamos uma conversação menos formal. Foi então que ele apareceu com uma máscara, destas de pano branco, como as que temos visto por ocasião da pandemia de covid-19.

Considerei aquilo um golpe baixo, interpretando que ele estava querendo se proteger de micróbios e voltar a segurança e isolamento de seu espaço pessoal. Tive que ouvir então, para meu imenso constrangimento:

“Não, Chris, isso não é uma tentativa de me proteger de você. Acontece que amanheci gripado e uso esta máscara para te proteger de um potencial contágio.”

Escutei o mesmo argumento de uma estudante da República Tcheca quando ela explicava como aquele país estaria se saindo muito melhor que seus vizinhos adotando, desde o início, o uso massivo de máscaras. Elas não ajudam você a se proteger, aliás, como elas ficam umedecidas com o tempo, pode ser que funcionem como berço para micro-organismos. No entanto, elas constituem uma tecnologia de proteção muito mais inteligente do que a mera defesa individual contra a invasão de um objeto intrusivo. Na verdade, ao protegermos o outro e ao supor que todos os outros seguirão o mesmo princípio terminaremos por ficar protegidos.

Neste sentido, a máscara não é apenas uma tecnologia de proteção, ela constitui um paradigma ético para os tempos que virão. Se insistirmos na moral da sobrevivência, segundo o princípio de que se cada um cuidar de si os outros serão beneficiados indiretamente ao estarmos reforçando um tipo de liberdade baseada no uso e abuso do que sentimos com a nossa propriedade.

Aliás, é bastante comum que o desperdício, o descuido e a displicência sejam formas de investigar os limites do que significa ter alguma coisa. Muitas crianças gostam de desmontar carrinhos, bonecas e casinhas. Alguns fazem isso para descobrir como o objeto funciona e do que ele é feito. Mas existem aqueles que desmontam brinquedos para investigar até onde algo é um objeto que pode ser possuído, pelo exercício livre da vontade. A máscara é uma espécie de exercício ético oposto disso, pois ela nos convida a exercitar a arte de despossuir a soberania sobre nossos próprios corpos.

Neste sentido a tecnologia representada pela máscara é o inverso da técnica do muro, empregada pela lógica dos condomínios. No muro, eu torno o outro invisível e perigoso. Eu me protejo dele criando uma realidade artificial onde só existem pessoas como eu mesmo. A máscara é uma forma de reconhecer a importância do outro, eu contenho minha boca, mas valorizo meus olhos.

Conversando com jovens muçulmanas que adotaram voluntariamente a prática do véu ou niqab na França ou na Inglaterra é comum ouvir que isso provoca uma valorização do olhar e que de toda forma representa um sinal de respeito.

A moralidade pública ocidental parece associar o encobrimento do rosto com a recusa em ser reconhecido, típica daquele que não quer mostrar sua verdadeira face, como é o caso dos bandidos e malfeitores. “Dar as caras” ou “dar a cara para bater” são expressões que indicam como interpretamos a transparência do rosto como sinal de autenticidade e valentia moral.

A máscara é signo da suspeita, mas também um símbolo do super-herói, ou seja, de nosso caráter dual e de nossa divisão subjetiva entre ser e parecer, entre o que se mostra e o que somos. A máscara representa a estrutura de ficção da vida em estrutura de teatro.

Se voltarmos um pouco no tempo lembraremos que Anonymous, cujo símbolo é uma máscara, é um dos primeiros movimentos sociais organizados por hackers no mundo virtual tendo por objetivo denunciar abusos de poder e excesso de controle dos Estados e corporações.

Em 2006, o filme “V de Vingança”, com roteiro das irmãs Wachowski (as mesmas de Matrix) baseado nos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd, popularizou a máscara como símbolo da luta contra a opressão inspirando direta ou indiretamente os movimentos de ocupação que floresceram por volta de 2011.

A máscara servia então para indiferenciar o agente, fortalecendo assim a voz, que poderia ser “de qualquer um”. Sem sofrer o deságio moral da raça, do gênero ou da classe, e ao mesmo tempo identificando-se com os que historicamente foram privados de sua palavra, os anônimos formavam um movimento de resistência.

A força do “qualquer um” já indicava a precedência do outro sobre o um, necessária aos processos transformativos. Mas isso não significaria apenas o triunfo do altruísmo sobre o egoísmo, mas uma espécie de curto-circuito e ultrapassagem dessa maneira de colocar os termos da questão.

Esta tecnologia da contraidentidade foi subitamente apropriada e invertida quando pseudônimos, robôs e perfis falsos passaram a se apropriar do anonimato para atacar outras pessoas e voltar a violência contra indivíduos e não mais contra corporações e instituições hegemônicas.   Rapidamente o anonimato digital tornou-se o procedimento básico das fake news e da pós-verdade.

A experiência da pandemia contém todos os ingredientes para produzir uma nova inversão nesta lógica da máscara. Depois dela teremos que confiar muito mais nos outros, saber que tipo de quarentena e que forma de cuidado cada qual tem consigo. Podemos mostrar os olhos, mas filtrar nossas palavras. Podemos nos ocupar do outro, porque por mais que finjamos que muitas vidas entre nós não importam, são invisíveis ou não contam, elas nos afetam biologicamente.

Corpos importam, não apenas suas vozes e seus pontos de vista, porque fazemos parte de um coletivo onde um mesmo micro-organismo se espalha. Sim, o vírus escolhe cor e classe, porque muitos não têm como se proteger e estão mais vulneráveis ou com menos condições de seguir regras sanitárias de distanciamento social. Mas não, a máscara não nos servirá de álibi desta vez.

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Podemos evitar o desemprego na pandemia investindo na cultura da escassez http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/05/29/ha-uma-chance-para-evitar-o-desemprego-na-pandemia-mas-o-brasil-nao-aceita/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/05/29/ha-uma-chance-para-evitar-o-desemprego-na-pandemia-mas-o-brasil-nao-aceita/#respond Fri, 29 May 2020 07:00:27 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=566

Tony Winston/Agência Brasília

Como psicólogo e psicanalista percebo como o trabalho é muito mais do que uma maneira de ganhar dinheiro. Trabalhar localiza alguém simbolicamente no mundo, faz com que nos sintamos parte de uma obra coletiva, mas também nos oferece um cotidiano composto por demandas ordenadas conferindo um certo sentido de progresso ou orientação para nossas vidas.

Para a geração de meus pais era impossível contar a história da própria vida sem se referir aos avanços, dúvidas, retrocessos e crises sofridas ao longo do emprego. Uma longa narrativa pela qual as grandes decisões e encruzilhadas podiam ser transmitidas como lições morais de sacrifício e justiça. A lógica pela qual uma geração se sacrifica a trabalhar para que a subsequente pudesse se dedicar aos estudos criava um tipo de narrativa ética que moldou gerações, criando dívidas simbólicas e regras de gratidão.

Na geração de meus filhos, o trabalho dissociou-se do emprego e a migração de uma ocupação para outra, assim como a reinvenção da carreira, uma ou duas vezes ao longo da vida, é uma perspectiva normal. Em vez da longa epopeia daquele que veio de baixo e tornou-se alguém na vida graças ao seu esforço e dedicação, tornou-se objeto de suspeita ao modo da meritocracia. Em vez do longo romance em estrutura de epopeia agora temos pequenos contos, cheiros de predação e liberdade. Nem isso nem a criminalização dos agrupamentos de trabalhadores mudam a separação ética que ainda persiste entre o “trabalhador” e o “vagabundo”.

Sem trabalho aumenta o alcoolismo, a violência doméstica, a depressão e a desorganização das relações familiares e amorosas. Sem trabalho entramos no grupo indeterminado dos suspeitos, dos perigosos e dos potencialmente improdutivos.

Neste contexto surge a pandemia do coronavírus, que é a um tempo uma ceifadeira medieval de empregos, mas também uma ocasião para repensarmos nossa relação com o trabalho.

Escutando as desventuras das pessoas nesta hora pude descobrir a combinação de inépcia, atraso e irracionalidade que reina nesta matéria no Brasil.

Considere você uma empresa de médio porte que enfrenta perdas crescentes na demanda e no seu faturamento. São quatro sócios e duzentos empregados. Depois de reduzir custos e aceitar a proposta do governo de reposição e compensação salarial ainda assim os clientes continuam a reduzir pedidos. O negócio irá à falência se não se demitir pelo menos dez funcionários. Mas na reunião em que se irá enunciar as más novas, um dos trabalhadores mais antigos anuncia: “se todos nós reduzirmos 10% de nossos salários conseguimos manter todos entre nós, pelo menos por mais alguns meses”.

O conceito parece óbvio e necessário para um momento de crise, na qual, se todos fizerem um pequeno sacrifício a mais, muitos serão protegidos do pior. Se todos empobrecemos juntos, a economia sofrerá menos e a solidariedade se tornará um patrimônio amealhado pela empresa para seu futuro.

Os quatro sócios se emocionam, lívidos diante de uma decisão que é muito difícil de tomar e sempre repleta de consequências psíquicas. Ninguém esquece o momento da demissão. Fica para sempre na sua memória, como uma espécie de abismo, de desamor e de perda do lugar no mundo.

Mas no segundo momento consideram uma consequência impensada: seus próprios ganhos serão reduzidos também. Pode parecer algo análogo à distribuição de lucros, bônus ou premiações que muitas empresas adotam há tempos. Mas psicologicamente não é a mesma coisa.

Aprendemos algo completamente diferente quando se trata de ganhos ou de perdas. Ganhos incorporam-se no novo normal, realizam sonhos que são esquecidos imediatamente e apenas confirmam nossas promessas de crescimento e prosperidade. Perdas são sempre imprevistas, ainda que sabidas. Não conseguimos deixá-las para trás, pois elas parecem definir quem somos.

Perdas são registradas em outra área do cérebro, área que parece multiplicar por três ou por dois nosso nível de intolerância e sensibilidade. Perder junto cria assim uma ligação que não se obtém quando o assunto é ganhar junto. Reduzir danos, de forma negociada e consentida, torna a experiência de sofrimento compartilhada uma fonte de solidariedade e transformação.

Surge então uma desagradável objeção: não é legalmente possível, no nosso país, reduzir salários sem reduzir carga horária. Ou seja, temos uma legislação que impede um ato de distribuição protetiva do prejuízo. Isso gera um perigo crescente para aquele que recebe maiores salários.

Percebe-se o espírito da lei agindo aqui para impedir que empresários aproveitem-se do aumento de oferta para reduzir progressivamente o salário de todos, conforme as flutuações do mercado, fazendo os trabalhadores pagarem pelas incertezas do negócio. Mas isso impede a aplicação de princípios óbvios de preservação e solidariedade coletiva.

Por outro lado, a redução de salários acaba acontecendo do mesmo jeito com a contratação de profissionais mais baratos e, em geral, mais jovens, em substituição aos altos salários.

No universo dos professores universitários, que acompanho mais de perto, isso gerou uma predação bizarra. Desprezo por boas formações, demissão de doutores e mestres, precarização de docentes e a emergência do pior tipo de ensino à distância são procedimentos simples para reduzir salários. Mas a negociação emergencial, em contexto de pandemia, com 13 milhões de desempregados no país e um milhão de empregos perdidos em dois meses, simplesmente não é uma alternativa.

Assim como nenhuma alternativa é dada aos pequenos empresários que esperam qualquer medida protetiva do governo, enquanto são obrigados a ouvir que em reuniões ministeriais alega-se abertamente que se os pequenos fecharem poderemos “favorecer as grandes empresas”.

Perdemos uma ótima janela de oportunidade para convocar líderes das comunidades e movimentos, associações e instituições ligadas aos mais vulneráveis a participarem da distribuição de equipamentos e recursos. Uma “boiada de desregulamentações” poderá passar em meio à crise, diz um. “Povos indígenas” são odiosos, diz outro. Ou “governadores e prefeitos devem ser processados”, diz a terceira. Enquanto o presidente fala em armar a população. Talvez para dar tiros na capa de gordura do covid 19?

Ou seja, quase tudo pode ser dito ou pensado, menos a minha redução de salário, condicionada à manutenção do emprego destes com quem divido o destino de minha vida, minha história e talvez de meu futuro.

Assim como lutamos para “achatar a curva” de disseminação do covid, seria possível reduzir e distender a curva do desemprego, considerando a excepcionalidade do contexto. Claro que uma lei deste tipo poderia ser imediatamente usada para o “mal” gerando uma onda de injustificadas reduções salariais, a pretexto de extorsão dos empregos, pelos empregadores interessados em manter, ou quiçá ampliar, seus níveis de lucratividade. Mas outra coisa acontece quando se está prestes a falir ou a inviabilizar o negócio. A lógica que nos impede reduzir salários de forma consentida e pactuada é a mesma que nos impulsiona a incrementar consumo, devastação ambiental e aceleração de produção.

Se há algo que esta forma de vida pode nos legar de positivo é que é possível reduzir, que uma cultura da escassez pode trazer valores importantes, que lentificar pode ser tão decisivo quanto acelerar. Novas tecnologias legislativas e contratualistas precisam ser testadas nesta hora, se não queremos apenas nos impulsionar garantidamente para o abismo de todos.

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“Deixar de seguir”: como post no Instagram expôs a cultura do cancelamento http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/05/22/como-foto-no-instagram-que-cita-marielle-expoe-a-cultura-do-cancelamento/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/05/22/como-foto-no-instagram-que-cita-marielle-expoe-a-cultura-do-cancelamento/#respond Fri, 22 May 2020 07:00:40 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=547 No último sábado postei em meu canal do Youtube um vídeo [veja abaixo] falando sobre a obra de Frantz Fanon, psiquiatra negro, nascido na colônia francesa da Martinica, que é um autor central para questões raciais e para o pensamento decolonial. Como faço com a maioria das coisas que escrevo, replico o material no Instagram, mas, neste caso, tenho que resolver um problema interessante: que imagem escolher para ilustrar o material?

Posso baixar uma imagem da internet relativa a uma pesquisa básica sobre o tema da postagem, mas considero este procedimento pouco criativo e um tanto impessoal. Portanto, gradualmente coloquei-me o desafio de, a cada vez, achar uma imagem compatível em meu banco de fotos. Às vezes a coisa funciona bem, outras de modo aproximativo e em outros tantos casos recebo críticas sobre a “imagem aleatória” que não tem nada que ver com o texto.

O exercício é bem legal porque contraria a regra do Instagram que é pensar da imagem para a palavra e não o contrário. Por outro lado, mostra como nós podemos ser extremamente parciais em nosso fluxo de associação de ideias. Aquilo que é óbvio e evidente para você pode representar o enigma da esfinge para quem está do seu lado.

No caso da postagem sobre o autor de “Pele Negra, Máscaras Brancas [1], me deparei com uma imagem muito preciosa para mim. Estava em uma noite chuvosa em uma praça de Tel Aviv segurando um cartaz escrito “Marielle Presente.

Ver essa foto no Instagram

 

Uma publicação compartilhada por Christian Dunker (@chrisdunker) em


O evento, organizado pelo professor Michel Gherman, reuniu diversos movimentos pelos direitos humanos que atuam fora do país.

Tenho em regra evitar imagens nas quais apareço muito diretamente porque isso desvia potencialmente o interesse do texto para minha pessoa. Mas neste caso o risco parecia valer a pena, tanto porque Marielle Franco é uma das principais representantes da luta pelos direitos humanos, em sua expressão antirracialista, quanto pelo fato de que a foto mostra ao fundo o seu amigo pessoal e colaborador direto, o pastor evangélico, escritor e ator negro Henrique Vieira. Reputo que Henrique é uma de nossas melhores lideranças quando o assunto é a luta contra o preconceito racial. Portanto, nada melhor que sua presença para homenagear o pensamento de Fanon, este crítico da cultura do branqueamento.

Recebo então a seguinte mensagem de uma seguidora do Instagram:

“Prezado Chris, comprei o seu interessante e profundo livro ‘O Palhaço e o Psicanalista’ e te acho muito inteligente. Mas o seu post ‘Marielle Presente’ diz claramente que seu olhar para o mundo é muito reduzido, parcial, segmentado, pois um olhar mais abrangente e justo divulgaria um post com fotos ou nomes de crianças, bebês, jovens, mulheres, homens, idosos, famílias inteiras que diariamente em nosso país são vítimas de homicídios piores que o de Marielle. De maneira cruel, cidadãos de bem, seres humanos esquecidos, por conta de um olhar partidário reduzido. Esses, querido Chris, continuam PRESENTES, mas em nossas famílias, anonimamente, e em nossos corações quando a imprensa partidária cita rapidamente sem dar muito valor. Marielle não foi melhor do que esses que perderam suas vidas cruelmente …. Convido você a pelo menos pensar nisso …. Deixando de te seguir ….”

Jussara é psicóloga em Volta Redonda e seu post é longo e bem escrito. Não há sinais aparentes de ódio, mas afinidade e respeito, com relativo conhecimento de causa sobre meus livros. Por isso mesmo penso que estamos diante de um bom exemplar do que vem sendo chamado de cultura do cancelamento.

Se alguém xinga, usa pseudônimos para ofender os outros ou simplesmente trata outros apenas como um espécime dentro de uma classe, podemos dizer que ele está agindo seus preconceitos de forma errática. Ou seja, nestes casos o cancelamento parece uma prática razoável como forma de reduzir a radioatividade dos comentários, que no fundo não são para você, mas para o que você representa na cabeça do outro.

Qualquer um que tenha alguma experiência com o discurso público conhece este problema. Quando entramos neste debate concedemos em sermos tratados, um pouco, como personagens. Nos tornamos depositários de representações e projeções, que criam uma certa autonomia para nossa imagem. O contraste com nossa vida doméstica, laboral ou familiar pode ser agudo. Com diz minha esposa: “se seus leitores soubessem como você se comporta quando tem jogo do Palmeiras você perderia metade de sua audiência”.

Mas Jussara não parece ser uma destas bolsominions que reagem alergicamente a tudo que tenha cheiro, densidade ou sabor de esquerda. Se fosse assim, acho que ela já teria me cancelado bem antes disso.

Percebo que ela, como psicóloga, tem uma genuína afinidade com pessoas em situação de sofrimento e sua crítica refere-se ao fato de que estou sendo parcial, consequentemente, um tanto injusto ao escolher Marielle e deixar outros tantos de lado. Eu estaria fazendo uma discriminação tendenciosa ao selecionar esta imagem para dizer: “esta pessoa, e o sofrimento a ela associada, é muito mais importante, relevante ou digna de ser mostrada do que outras tantas”. Como se o fato de que Marielle era uma militante de esquerda pesasse muito mais do que o fato de que ela foi morta cruelmente.

Freud dizia que o momento em que devemos propor uma interpretação situa-se um pouco antes do paciente chegar a conclusão por si mesmo, mas que por outros motivos achamos que ele vai passar perto sem chegar, como de outras vezes. Esse é um momento perigoso, porque ele pode anunciar, do lado do paciente, um ato intempestivo ou uma repetição, porque a angústia da contrariedade sempre cerca a admissão da verdade recalcada.

Algo análogo coloca-se em relação ao comentário de Jussara, e acho que pode ser coligido com um bom exemplo para este tipo de cancelamento, baseado em pequenas diferenças que não podem ser admitidas porque gerariam grandes transformações.  Marielle foi escolhida para o post, assim como ela vem sendo escolhida como um símbolo da luta contra opressão, que paira contra negros, pobres, periféricos e LGBTQ+ no Brasil, porque sua vida desperdiçada cruelmente tira do anonimato todas as outras vidas que como ela temos dificuldade em reconhecer.

O post de Jussara retoma a discussão que estamos fazendo aqui nesta coluna em torno da contabilidade ou da comensurabilidade das formas de sofrimento e como fazemos para reconhecê-los de tal forma a transformar a nossa realidade. Ou seja, não se trata de um concurso de subcelebridades ou de qual sofrimento deve se tornar mais famoso ou qual deles é mais digno, porque todos e cada um deles são.

O problema é também formal e envolve tanto a política quanto a ética e a estética, a saber, como fazer para que a morte não seja transformada em um acontecimento de massa, onde os corpos e velórios acontecem de modo industrializado, silencioso e estatístico.

“Cancelamento” é uma palavra usada para suspensão de um serviço. Cancelo a assinatura de um jornal, de uma matrícula na academia, da participação em um show. Quando desenvolvemos um gosto todo especial por dizer “não preciso de você”, “te dispenso impessoalmente”, como a um serviço de entregas, que eu presumo precisar de mim como se precisa de um cliente, transportamos para nossa conversa política e ética regras do universo do consumo e da produção.

A palavra-chave para minha sentença de cancelamento foi, no fundo, “partidário”. Dela deriva o olhar estreito, a parcialidade e a tendenciosidade pela qual sou criticado em associação com representante de “a imprensa”. Ora, a perspectiva partidária traz imediatamente uma espécie de hierarquia, de comparação, de valorização premeditada e enganadora. Uma visão de mundo que enquadra tudo em seu caminho segundo seu ponto de vista. Como se as pessoas se dividissem entre aqueles que têm uma visão política do mundo e as outras que veem o mundo como ele é (e se isso não fosse, por si mesmo, uma visão política).

Isso torna compreensível a declaração de que “Marielle não foi melhor do que esses que perderam suas vidas cruelmente, como se a escolha por Marielle fosse uma ofensa aos outros que não estariam representados por ela e por sua perda. Como se “a esquerda” não estivesse interessada em “todos nós”, mas em “apenas alguns de nós”, como costumamos opor particularistas e universalistas.

Aceitei o convite feito por Jussara para pensar em meu gesto, que curiosamente foi reduzido à escolha de uma imagem, sem nenhuma consideração por sua relação com o vídeo de introdução ao pensamento de Frantz Fanon que ela evocava. Eu poderia ter escolhido, por exemplo, uma cena do filme “Carandiru” (Hector Babenco, 2003), mostrando corpos empilhados, predominantemente negros. Eu poderia ter escolhido uma tela de Tarsila do Amaral para representar nossa população predominantemente negra. Eu poderia ter proposto imagens de enfermeiras negras ou de moradores de bairros negros que estão sendo mais afetados pela covid-19 do que os outros. Mas pedir que as coisas sejam percebidas em contexto já é declarar o privilégio de nosso ponto de vista sobre o dos outros.

Jussara, porque Marielle não pode ser uma representante simbólica de todas as mortes injustas, cruéis e despropositadas que estamos assistindo na história de nosso país? Por que Marielle é ofensiva aos outros que se foram, tão mais ou menos injustamente? Você gostaria de propor outra pessoa? Outra imagem? Estou disposto a aceitar prontamente suas sugestões, porque a questão da negritude e da violência não é uma questão apenas para os negros e para os mais vulneráveis, mas uma questão para todos nós. Se Marielle não é boa o suficiente para representar todos nós, quem seria?

A cultura do cancelamento é um sintoma de nossa tendência a reduzir a diversidade a uma oposição entre particulares, porque no nível dos particulares todos têm razão, e a razão não serve para mudar nada nem em mim nem no mundo.

Tenho mais de 300 mil seguidores em minhas redes sociais. Não sou um “influencer” do primeiro time, mas jogo na segunda divisão desta conversa. Ainda assim poderia dizer: “o que significa uma pessoa, no caso você, Jussara, entre tantos outros?” Poderia dizer: “vá em paz e encontre a tranquilidade no seu próprio condomínio”.

Mas não vou fazer isso, porque você me importa. Digo que você me importa porque não está possuída pela desrazão terraplanista, nem pela redenção mítica pela cloroquina, nem pelo “…  e daí?” do churrasquinho da gente diferenciada. Você não está dizendo que “tanto faz, vamos morrer mesmo, como gado, portanto a vida não é tão importante assim”.

Você e eu estamos inquietos e incomodados pela morte de tantas pessoas, pela crueldade que grassa em nosso país, pela invisibilidade das vidas anônimas perdidas e pela falta de reconhecimento, público e privado, atual e passado, com relação ao sofrimento das pessoas.

Estamos no mesmo partido, Jussara: o “Coração Partido”, fundado pelo poeta Cazuza.

Por isso te digo, com sinceridade: não se vá, cada um de nós faz diferença.

REFERÊNCIA

[1] Fanon, F. (2003) Pele Negra, Máscaras Brancas. Salvador: UFBA.

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Positividade tóxica nas redes sociais ganha forma com fala de Regina Duarte http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/05/15/positividade-toxica-nas-redes-sociais-ganha-forma-com-fala-de-regina-duarte/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/05/15/positividade-toxica-nas-redes-sociais-ganha-forma-com-fala-de-regina-duarte/#respond Fri, 15 May 2020 07:00:55 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=528

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Tem circulado pelas redes sociais uma novíssima moralidade digital. Sua máxima afirma que se não falarmos de coisas desagradáveis, se não mencionarmos frustrações e se não nos aproximarmos de conflitos, isso faz bem à nossa saúde mental e deixa nosso ânimo melhor.

De fato, há algum tempo, reverbera o estudo sobre usuários de Facebook que tiveram seu humor manipulado por contágio gerado pela indução de palavras positivas e palavras negativas [1]. Mas se a potência do contágio emocional e da manipulação do humor atmosférico por quem detém força no big data, ou sabe manipular atitudes digitalmente, parece óbvia, nem sempre a solução é o que parece.

Uma leitura básica deste fato, que ao que tudo indica chegou a se expressar agora com a noção de positividade tóxica, nos levaria a argumentar que, sob qualquer situação ou cenário, deveríamos nos comportar como a heroína de Eleanor H. Porter conhecida como Pollyanna.

Isso tem gerado uma batalha de filosofia miúda entre otimistas e pessimistas, acirrada agora pelo estado de quarentena. Para os primeiros, já estamos saturados de más notícias e de infelicidades, portanto, por que não olhar para o lado bom da vida e tomar, devagarinho, o resto de meio copo cheio? Para os ditos pessimistas, a vida boa é a vida intensa e o maior intensificador de experiência que pode existir é saber que aquilo com o qual se está é real.

Pessimistas chamam os otimistas de iludidos e idealistas, negadores da realidade tal como ela é. Otimistas declaram que os pessimistas estão apenas querendo exagerar conflitos e tensões para manipular as coisas em seu favor. Tudo se passa como se os pessimistas fossem inertes observadores do mundo, queixando-se de seus infortúnios, enquanto os otimistas pelo menos estão “fazendo alguma coisa”. Enquanto os otimistas querem engajamento e atividade, os pessimistas parecem nos empurrar para a aceitação complacente e fatalista das coisas.

Ainda que Schopenhauer ou Nietzsche estejam rastejando em seus túmulos, ambos parecem ter razão. Schopenhauer porque provou afinal que a vida termina mal e que nada mais somos do que ilusões e representações moldadas por nossa própria vontade de auto-engano. E Nietzsche porque o amor ao destino faz sobreviver nossas obras e ideias, afinal estamos aqui discutindo qual dos dois tem razão até hoje.

Fato é que quando colocamos o problema desta maneira dual estamos obviamente no interior de um problema maior, qual seja, o de que queremos amputar uma perspectiva, demandando um sentido para a vida e negando que, obviamente, há bons e maus momentos na existência. A verdadeira oposição deveria se estabelecer entre fatalistas e positivistas de um lado e dialéticos do outro.

A positividade tóxica fez sua declaração programática na entrevista de Regina Duarte à CNN, semana passada. Diante do número de mortes em ascensão no Brasil, da pauperização econômica gerada pela covid-19 e dos mortos deixados pela ditadura militar, a resposta parece ser a mesma: que tal deixar o lado ruim da vida para trás? Ou, de forma mais textual, por que ficar carregando um cemitério nas costas?

A frase serve para estabelecer o litoral entre uma perspectiva de otimismo desejante, ou seja, o que Freud chamava de uma certa ilusão necessária para continuar caminhando, e a mais pura negação perigosa de conflitos e infortúnios. Este segundo caso é particularmente dramático para a saúde mental, pois ele equivale a expulsar pela porta da frente o conflito que se reapresentará inesperadamente na porta dos fundos. Mas durante o tempo entre expulsão e retorno, em vez de examinarmos o problema e nos dedicarmos a enfrentá-lo objetiva e subjetivamente, nos comprazemos com uma paisagem de mundo confortável ou um estado mental harmonioso.

O caráter tóxico da positividade começa quando passamos a achar que apenas pela ação do nosso pensamento ou por nossa disposição de humor a realidade vai se alterar. A pessoa simplesmente não lê a continuação de “Pollyanna”, chamada “Pollyanna Moça”, publicada em 1915, na qual nossa heroína torna-se paralítica e sofre outras tantas desventuras.

O otimismo não nos protege do pior. Quando ele se torna tóxico, não só perdemos precioso tempo como nos colocarmos em situação de fragilidade ainda pior quando o problema retorna. Em geral, e desagradavelmente, ele retorna com uma feição cada vez pior, porque intratado.

Quando a voz do otimismo pergunta “por que carregar um cemitério nas costas”, há algumas suposições em jogo como, por exemplo, o fato de que o cemitério é uma palavra “ruim”, que nos traz tristeza e provavelmente seria capitalizada pelos algoritmos como indutora de pessimismo.

Mas isso deixa de lado que é lá no cemitério que estão nossos e muitas vezes mais preciosos entes queridos. O cemitério representa nosso passado, mas também nosso futuro.

Ele é lugar comunitário de respeito e sabedoria, onde nos reunimos para coisas tristes, mas também para praticar o dever de memória, que transforma gradativamente a dor em parte das saudades com a qual trazemos — desde sempre e já– um cemitério dentro de nós.

O que eu quero dizer com isso é que “carregar um cemitério nas costas” pode nos tornar mais fortes, desde que estejamos reconciliados com aqueles que se foram. Desde que os que se foram façam parte inesquecível do melhor que nós somos.

Pensando assim fica claro a inversão. O dito otimista é apenas alguém que está pensando curto, que quer ficar em uma vida no alcance imediato de sua mão.

Se aprofundamos o próprio otimismo vemos que ele se inverte em “pessimismo” para depois renascer como otimismo ampliado porque carrega nas costas a gratidão para com a história. Otimismo mais forte porque filtrado pela realidade e pela certeza da experiência que ela nos traz. Otimismo cujas costas se tornaram mais musculosas porque vivemos nosso luto coletivamente e não apenas como culpa e individualização.

Para o bem, para o mal e para além do bem e do mal.

REFERÊNCIA    

[1] “Os pesquisadores fizeram um experimento dividindo os usuários do Facebook, em geral, quase 700 mil deles, em dois grupos: um teve mais palavras positivas introduzidas em seus feed de notícias, o outro grupo foi exposto a mais palavras negativas. Os pesquisadores então mediram se esses usuários, subsequentemente, à luz dos dois tratamentos, publicaram mais palavras positivas ou negativas. Eles descobriram que, de fato, o fizeram, confirmando o contágio social. Para nossos propósitos, o ponto principal é que o estudo mostrou experimentalmente que, sem o conhecimento dos usuários do Facebook, seu humor (contágio emocional) poderia ser manipulado.” In Schroeder, R. (2018) Big data: moldando o conhecimento, moldando a vida cotidiana. Revista Matrizes V.12 – Nº 2 maio/ago. 2018

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Oniropolítica: nossos sonhos refletem o estado das coisas no Brasil http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/05/08/por-que-estamos-tendo-sonhos-mais-intensos-e-marcantes-durante-a-pandemia/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/05/08/por-que-estamos-tendo-sonhos-mais-intensos-e-marcantes-durante-a-pandemia/#respond Fri, 08 May 2020 07:00:21 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=518

Engin Akyurt/ Pixabay

Um dos efeitos mais notáveis e surpreendentes que nossos pacientes e analisantes têm relatado durante o confinamento social, estabelecido por causa da pandemia de coronavírus, é que seus sonhos se tornaram mais intensos, longos e marcantes.

Pessoas que raramente lembravam de seus sonhos passam a se intrigar com sua constância. Pessoas que costumavam trazer sonhos para a análise começam a relatar episódios mais extensos e narrativamente mais ricos.

Tudo se passa como se tivéssemos nos aprofundando em nossos sonhos, como se eles tivessem sido convocados por este estado de realidade cada vez mais nebulosa e inacreditável.

A jornalista Charlotte Beradt [1] sentiu uma transformação análoga na forma como as pessoas sonham, no início da década de 1930, antes mesmo que a ascensão nazista tivesse se consolidado naquele país.

Ela compilou mais de 300 sonhos, que funcionaram como uma espécie de sismógrafo social capazes de antecipar acontecimentos e práticas vindouras: campos de concentração, censura, deportações, extermínio de pessoas. As pessoas sonhavam com situações de resistência e perseguição, com alta carga de cinestesia e muitos sonhos de angústia.

Vários destes elementos já estavam aparecendo nos sonhos de nossos pacientes antes da chegada da crise da epidemia de covid-19.

Pensando nisso tínhamos proposto um projeto de pesquisa para saber se seria possível que no Brasil também pudéssemos detectar traços dessa oniropolítica, como um marcador social da temperatura dos conflitos no país. Desta maneira entendemos que o sonho, particularmente em situações traumáticas, é uma forma de nomear e desta maneira permitir que conflitos agudos ganhem forma, imagem e representação.

“Oniro” é o radical grego relativo a sonho, que deu origem ao livro “Onirocrítica” [2], escrito por Artemidoro no século II d.C. compilando 95 sonhos colhidos na Itália, na Grécia e na Ásia Menor. “Não existe nenhuma realidade que não tenha um nome”, afirmava Artemidoro de Daldis. Para ele, todo sonho tem um tema e um desfecho.

Os temas podem focar a natureza ou a lei, os costumes ou a arte, o nome ou o tempo. Conforme o desfecho, os sonhos se dividem em quatro tipos: pessoais, impessoais ou então eles podem ser políticos ou cósmicos.

Tiramos daí nossa primeira hipótese, de que as pessoas estão sonhando mais ou pelo menos lembrando mais de seus sonhos como um esforço para nomear esta nova realidade que se impõe, feita de contrariedades e perdas, de medos e angústias, de restrições de mobilidade e aguçamento de conflitos políticos.

Dezessete séculos mais tarde, Freud retomará Artemidoro concordando que os sonhos têm um sentido. Mas este sentido não é o mesmo para todos, ele deve ser deduzido das associações e ligações produzidas pelo próprio sonhante em sua história particular. Eles não descrevem um futuro que já estaria escrito e definido como um destino, mas apresentam um futuro moldado por nossos desejos.

Na “Interpretação dos Sonhos” [3], obra magna do criador da psicanálise, os sonhos são descritos como o “guardião do sono”, ou seja, eles têm a função de nos manter dormindo, impedindo que moções de pensamento e de afeto desagradáveis, desativando nossa consciência e motilidade, interrompam o sonho. Ainda assim isso acontece quando não conseguimos deformar suficientemente os desejos que batem a nossa porta noturna. Este é o caso dos sonhos de angústia, dos terrores noturnos ou pesadelos, que nos acordam antes da hora.

Para Freud, o sonho é uma máquina que parte do presente, com suas inquietudes e pendências cotidianas, vai ao passado, conectando-se com nossos desejos, virtualmente infantis, particularmente os de natureza sexual, e depois disso nossos pensamentos são comprimidos, deformados por certas substituições simbólicas e transformados em imagens.

Estas imagens alucinadas, que formam um cinema privado de nossa vida noturna são uma passagem para um novo nível de realidade: o nível das imagens animadas, de nossos desejos. Por isso, eles representam o futuro, porque o futuro é em grande medida uma decorrência de como agimos em relação aos nossos desejos presentes.

Chegamos assim à segunda hipótese sobre porque estamos sonhando tanto. Nosso momento exige que elaboremos a perda de nossa vida pregressa, um luto de como vivíamos, somado ao luto potencial ou real de pessoas que estamos perdendo. Nossos sonhos são então a expressão de um novo mundo possível, que está sendo gestado pela retomada de desejos passados, mas em uma forma inédita, pois inédito é o que estamos enfrentando.    

Cem anos depois de Freud os achados recentes da neurociência parecem corroborar a ideia de que o trabalho do sonho tem uma função de recomposição cognitiva e de rearticulação da memória. Sidarta Ribeiro, em seu magnífico “O Oráculo da Noite” [4], mostra que o sonho pode funcionar como um simulador da vida e, portanto, há certas formas de sonhar que podem funcionar como solucionadoras de problemas, ou como diz o xamã Kopenawa:

“É desse modo que os xamãs conseguem sonhar com as terras devastadas que cercam nossa floresta e com a ebulição das fumaças de epidemia que surgem delas. Só os xapiri nos tornam realmente sábios, porque quando dançam para nós suas imagens aplicam nosso pensamento.” [5]

Chegamos assim à nossa terceira hipótese, a saber, que poderíamos ler os sonhos deste momento de pandemia como orientados por um desejo hipoteticamente comum: que isso tudo acabe e a vida volte ao normal, ou que uma nova floresta se abra. Isso significaria que além do significado individual, os sonhos poderiam ser lidos como uma sismografia do futuro.

Em nossos relatos preliminares vemos que os sonhadores sonham também, e repetitivamente, com imagens hipernítidas, muito intensas e com temas ligados à invasão, sujeira e limpeza, bem como criminosos andando pelas ruas desertas. Outras vezes sonham narrativas longas, retomando personagens por vezes esquecidos do passado mais longínquo, tudo como se precisássemos ampliar o espectro de nossa história para poder criar um futuro possível mais além da negação simples do presente eterno, que não para de não passar.

REFERÊNCIAS

[1] Beradt, C. (2017) Sonhos no Terceiro Reich. São Paulo: Três Estrelas.

[2] Artemidoro, (2dc) Sobre a Interpretação dos Sonhos. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

[3] Freud, S. (1900) Interpretação dos Sonhos. Obras Completas Sigmund Freud, Vol IV. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

[4] Ribeiro, S. (2019) O Oráculo da Noite. São Paulo: Companhia das Letras.

[5] Kopenawa, D. & Albert, B. (2010) A Queda do Céu. Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, p. 333-334.

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