Blog do Dunker http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir. Fri, 17 Jan 2020 07:00:09 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Tecnologias da Felicidade (3) : a satisfação do outro afeta o seu prazer http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/01/17/tecnologias-da-felicidade-3-a-satisfacao-do-outro-afeta-o-seu-prazer/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/01/17/tecnologias-da-felicidade-3-a-satisfacao-do-outro-afeta-o-seu-prazer/#respond Fri, 17 Jan 2020 07:00:09 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=259

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[Este texto faz parte de uma série. Recomendamos ler os artigos anteriores para acompanhar o argumento do autor. O link para os textos anteriores está no final desta página]

Um erro comum nas métricas e no próprio conceito corrente de felicidade é torná-la equivalente de um estado mental positivo ou agradável. Ora, um copo de água depois de uma travessia no deserto é fonte absoluta de felicidade, apenas pelo contraste que representa com o estado anterior.

Os teóricos utilitaristas ingleses, do século XVIII e XIX, como Jeremy Bentham e Stuart Mill já haviam tentado decompor o cálculo dos prazeres levando em conta variáveis como duração, expectativa, intensidade, constância e controlabilidade. Para eles nossa mente funcionava como um grande contabilista, comparando riscos e garantias, avaliando decisões pesando o princípio da maximização de prazeres e minimização de desprazeres.

Esse ponto de partida tem três fragilidades. Em primeiro lugar ele tende a generalizar o cálculo de maneira a criar um sujeito conjectural que “deveria agir” de certa maneira, como sujeito racional de decisões, o que sistematicamente não acontece quando vamos segmentando mais a nossa amostra. O segundo problema é que ele faz equivaler a felicidade de um estado mental individualizado, composto por afetos e emoções, entendidos como equivalentes potenciais de circuitos do cérebro. O terceiro problema é que ele ignora a existência de escolhas nas quais encontramos um certo prazer no infortúnio, ou seja, naqueles que representariam um tipo de patologia mental do conceito de felicidade como ela “deve ser”. Ora, este conceito de felicidade é genérico, individualista e normalopático demais. Vamos excluir a loucura e tudo termina mal, como diria o grande psiquiatra, Simão Bacamarte.   

Um bom caso modelo para questionar a insuficiência deste modelo de felicidade pode ser encontrado no teorema examinado por Amartya Sen:

O indivíduo chamado Puritano odeia um certo livro e não pretende lê-lo, mas sofreria ainda mais se o livro fosse lido por outro indivíduo, chamado Luxurioso, que adora o tal livro. Puritano está particularmente incomodado porque Luxurioso pode estar rindo entredentes com o livro. Luxurioso, por outro lado, gostaria de ler o livro, mas preferiria, ainda mais que Puritano o lesse, revirando o estômago, espera o Luxurioso.[1]   

Ou seja, o exemplo, que parece altamente realístico, mostra que nossa satisfação ou insatisfação, depende da interpretação que fazemos da satisfação ou insatisfação dos outros. O modelo genérico de felicidade sobrepõe afetos, emoções e sentimentos. O prazer, que podemos obter no nível dos afetos, que sentimos individualmente, parece obedecer um gradiente de qualificação primária que vai do prazer ao desprazer tendo seu epicentro na angústia.

Afeto, vem de affectio, nossa capacidade de ser afetado pelo mundo, pelos outros e por nosso próprio corpo. Todo afeto é, portanto, mediado por uma autoafetação, que é altamente dependente da forma como o nomeamos ou interpretamos. Por exemplo, pessoas que sofrem com alexetimia, ou seja, dificuldade de nomear afetos, tendem a descrevê-los como experiências de conforto sensorial. A alexitimia parece ser uma das condições associadas com uma espécie de debilitação da experiência de felicidade, pois ela será lida na chave de oposições mais simples, como as que estabelecemos entre dor e indiferença. A alexitimia parece ser um sintoma primário de quadros genericamente ascendentes nos últimos vinte anos, como a depressão, a ansiedade e o pânico.

As emoções são as repostas mais ou menos padronizadas para estes circuitos. Elas foram descritas por Darwin como medo, raiva, surpresa, alegria, tristeza e nojo. Apesar de universais elas parecem reguladas pela reação ao outro e as circunstâncias situacionais nas quais ocorrem, por exemplo, a resposta de riso e sorriso de crianças pequenas em adultos.

Emoção vem de motus, movimento e elas também são mediadas pela leitura que temos, por exemplo, da sincronia ou descompasso com as emoções alheias. Por exemplo, quando em 2018, o Brasil ficou entre os quatro últimos colocados no ranking da tristeza, ganhando apenas do Irã, Argentina e Venezuela (última colocada), inferimos que nosso estado de infelicidade progredia. Nada mais falso, qualquer um que tenha visitado os países eslavos sabe que a tristeza pode ser um orgulhoso traço nacional. Certa vez ouvi de um esloveno que eles haviam demorado séculos para construir esta abordagem triste e profunda do mundo e não seria qualquer promessa tola de felicidade que iria alterar isso. Como que a dizer: “tristes, mas felizes”.

Os sentimentos correspondem a partilha social dos afetos e emoções. Freud descreveu três sentimentos sociais, adquiridos em função do progresso em nossa constituição subjetiva e consequente interiorização da lei: a vergonha, a culpa e o desamparo. Ou seja, eles são interpretações dos afetos e emoções articuladas com as expectativas de prazer e desprazer que colocamos nos outros e construímos sobre nós mesmos. Lacan construiu a noção suplementar de gozo para se referir a este efeito específico de restituição, retorno ou de repetição do prazer suposto no outro, ao nível do sujeito.

Se consideramos que a felicidade é um sentimento, dependente de como traduzimos nossas experiências individuais  de prazer em um sistema intersubjetivo de partilhas, exclusões e segregações, vemos como o exemplo de Amartia é pertinente para trazer um conceito mais apurado de felicidade. Nossa felicidade depende da felicidade alheia, assim como nosso sofrimento, por isso estes conceitos são também conceitos políticos.  

Isso nos ajuda a entender, indiretamente porque certos modos de prazer, satisfação e gozo são extremamente sensíveis para a gênese de preconceitos. Aquele que não negocia bem sua economia de prazer, satisfação e gozo, tenderá a interpretar sua própria infelicidade como proveniente da felicidade alheia.  Daí se entende porque os totalitarismos se importem tanto com a sexualidade alheia e estão sempre dispostos a limitá-la, quer em sua expressão cultural ou em seu uso do corpo.

Na verdade, tais tecnologias políticas se apoiam no reforço da ideia de que a sua insatisfação decorre do excesso de gozo dos outros intrusivos: os judeus, os imigrantes, os negros, as mulheres, os corruptos e assim por diante. Quando no cálculo da felicidade só existem indivíduos, quando supomos que todos deveriam usar a mesma gramática de satisfação e quando excluímos a loucura, (supondo que o normal somos nós), caminhamos para o estado endêmico de infelicidade violenta que parece ter se tornado a paisagem mental da humanidade, ainda que objetivamente tivéssemos progredido, como mostrou Yuval Harari [2].

 [1] Sem, Amartya (2009) A Ideia de Justiça. São Paulo: Companhia das Letras, pág. 344.

[2] Harari, Yuval (2014) Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. São Paulo: LPM.

 

Leia também:

Tecnologias da Felicidade (1): O que estar conectado revela sobre ser feliz

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Tecnologias da Felicidade (2): você é um zumbi controlado pelos algoritmos? http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/01/10/tecnologias-da-felicidade-2-voce-e-um-zumbi-controlado-pelos-algoritmos/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/01/10/tecnologias-da-felicidade-2-voce-e-um-zumbi-controlado-pelos-algoritmos/#respond Fri, 10 Jan 2020 07:00:40 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=257

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No post anterior examinei a curva descendente da felicidade ao longo da última década. Quatro hipóteses são convocadas para explicar o fenômeno:

A primeira aponta que este período coincide com a crise do neoliberalismo, iniciada em 2008, e com a mutação de nosso modo de trabalhar que cada vez mais explora, de forma calculada nossas formas de sofrimento para extrair mais desempenho.

A segunda hipótese, que abordarei na coluna da semana que vem, diz respeito a uma modificação na maneira como calculamos a relação entre prazer, satisfação e gozo em uma cultura que identifica afetos, emoções e sentimentos de modo individualista, normalopático e não distributivo.  

A terceira hipótese aponta para a incorporação de tecnologias de controle da paisagem mental como sutura para o enfrentamento de conflitos e qualificação da felicidade.   

A quarta hipótese, à que me dedicarei aqui, reza que isso tem uma relação direta com a disponibilidade e acesso às mídias digitais, que sugaram nosso tempo livre para uma experiência de baixa qualidade de satisfação.

O Instituto Nacional de Saúde, dos Estados Unidos, traz dados colhidos ao longo de dez anos sobre os efeitos do uso de telas (celular, computador, TV ou iPad) sobre o cérebro de crianças e adolescentes. A exposição excessiva a telas provoca atrofia do córtex, redução da sensorialidade não visual, envelhecimento cerebral, aumento de dopamina (um neurotransmissor associado com a dependência química), diminuindo o desempenho em linguagem e matemática.

O aperfeiçoamento cognitivo, adquirido no contexto de um vídeo game, aparentemente não é derivado para habilidades conexas. Adolescentes que usam menos de 30 minutos diários de telas são menos expostos a depressão. Aqueles que fazem uso intenso estariam mais propensos à sintomas de automutilação.  

Talvez o potencial indutor de infelicidade atribuído às telas esteja relacionado com o uso inadvertido e pouco qualificado. Duvido que aquele que usa as redes sociais para estar com o outro, para aprender ou para tornar mais rica sua experiência intersubjetiva declare altos graus de infelicidade no fim do ano. Parece mais provável que as telas tornem-se um vilão quando são usadas como antídoto selvagem para a complexidade que a tarefa da felicidade assumiu para nós.

Quero apontar aqui para a mutação social do lugar da felicidade, justamente nestes vinte últimos anos. Lembremos que as pesquisas de mensuração comparativa da felicidade datam mais ou menos desta época. Alguém da minha geração, nascido por volta de 1966, tinha a felicidade como uma questão subsidiária, uma espécie de bônus que poderia acontecer se você não fizesse nenhuma grande besteira diante dos grandes desafios da vida: sobrevivência, escolha de companheiros, impasses familiares ou carreira.

Perguntar-se pelo propósito era uma espécie de luxo para os que haviam resolvido as questões envoltas no manto da necessidade. O grande valor problemático não era mais o amor, como teria sido para a geração de meus pais e avós, mas o desejo. Como encontrar suporte e expressão para o queremos e principalmente, como suportar que o desejo pode nos levar a estados dramáticos de angústia, sofrimento e desprazer?   

Digo isso, porque as patologias digitais parecem depender mais da qualidade de uso e da finalidade subjetiva do manuseio das redes do que da radiação tóxica supostamente exalada por telas e smartphones. Sim, aqui vale a regra de que a quantidade afeta a qualidade e que alguém que passa mais de cinco horas por dia, do seu tempo livre, já limitado na tela, dificilmente poderá integrar esta experiência com o resto de sua vida.    

Assim o problema não está no uso das redes mas como elas se traduzem, ou não, em conversas e compartilhamentos com o outro. Elas são um meio para aumentar a excelência da experiência subjetiva com o outro ou uma forma de fugir do outro?

Se depois de três horas combatendo “League of Legends”, “Assassins Creeds” ou “Counter Strikes”,  você não tiver nenhuma história interessante para dividir com os outros, sentir um vazio existencial e comportar-se como um zumbi na mesa de jantar, considere que você está sendo levado para o “lado obscuro da força”.

Por outro lado, se você só consegue falar de si a partir dos stories e das fofocas do Instagram, considere uma temporada com Ana Karenina ou Quincas Borba. Se a sua política do Twitter resume-se a falar mal do PT e replicar fake news, considere uma visita “presencial” ao Psol ou a Escola Florestan Fernandes.  Se você passa o tempo como um vaga-lume entrando e saindo dos aplicativos de sexo e encontros, ou se você amaldiçoa estas práticas “antinaturais” para amar e ser amado, pense que elas não são nada sem as interpretações, ficções e apresentações que você faz de si e do outro. Lembre-se o “match”, quem faz é a sua cabecinha. Se você ainda é súdito do soberano algoritmo, está na hora de escrever sua Carta Magna.

Aqui vão algumas perguntas para você meditar sobre seu uso de telas:

  1. Você sai de uma sessão de uso orientado para a redução da tolerância à diversidade ou usufruindo efeitos benéficos do estranhamento?
  2. Depois de uma rodada digital lhe ocorre uma sensação de superestimação da felicidade alheia ou uma espécie de fuga para a individualização de seu bem-estar?
  3. O uso de pornografia digital te aproxima e traz novidades para sua cama ou ela continua pobre e desértica de fantasias?
  4. Você é invadido por sentimentos recorrentes de incômodo, inutilidade e ausência em situações sociais, como se precisasse encurtar o tempo passado com os outros e a acelerar o futuro?  
  5. Ao longo do tempo você sente uma redução ou ampliação da extensão daqueles que contam em sua escala pessoal de sofrimento-felicidade (o tamanho relativo do “nós”).

Leia também:

Tecnologias da Felicidade (1): o que estar conectado revela sobre ser feliz

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Tecnologias da Felicidade (1): o que estar conectado revela sobre ser feliz http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/01/03/tecnologias-da-felicidade-1-o-que-estar-conectado-revela-sobre-ser-feliz/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2020/01/03/tecnologias-da-felicidade-1-o-que-estar-conectado-revela-sobre-ser-feliz/#respond Fri, 03 Jan 2020 07:00:11 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=255

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“Considerando o conjunto, como você diria que as coisas estão indo: você diria que é feliz, muito feliz ou não muito feliz?” Esta foi a pergunta feita, ao  longo dos dez últimos anos, em 156 países no Informe Global sobre a Felicidade.  O balanço da década confirma uma tendência da qual já se suspeitava. A curva da felicidade sobe consistentemente entre 1991 e 2011 para cair de forma contínua e gradual, a partir de 2012 até 2019.

Adultos e adolescentes sentem-se menos felizes do que se sentiam em 2012. Indicadores de suicídio, depressão, abuso de drogas, obesidade e auto-violência, crescem depois de 2010, particularmente entre meninas e jovens mulheres. Ao menos quando se trata dos Estados Unidos, o dado não deixa de ser paradoxal, afinal, no mesmo período a taxa de criminalidade caiu, assim como o desemprego e a renda per capta aumentou.

Ao que tudo indica a nossa experiência de felicidade depende mais de como usamos nosso tempo de lazer e da percepção que temos do suporte social e familiar que nos envolve do que de parâmetros usualmente empregados para pensar a economia real.

Se levamos em conta que a economia já foi definida como a ciência geral da infelicidade este desgarramento confirma o conceito.  Também Freud já fizera uma grande partição nesta matéria sugerindo que nossa escolha ética básica, quando se trata de felicidade, separa aqueles que escolhem uma vida organizada pela fuga do desprazer e aqueles que trilham a via da busca do prazer.

Isso não deve ser lida como uma partição entre os consumidores vorazes do hedonismo imediatista contra os covardes encastelados no medo de perder. Na verdade, a via do prazer é a via da qualificação da satisfação, geralmente associada com seu adiamento. Compare o tempo gasto para obter prazer por meio de meia colher de heroína na veia contra o tempo gasto para apreciar uma orquestra sinfônica.

Esta oposição entre meios e fins deveria ser ponderada contra um segundo eixo representado pela relação entre o sujeito e o outro. Talvez seja por isso que o dilema do marshmallow, (comê-lo agora agora a ter uma recompensa “x” ou guardá-lo para mais tarde e ter uma recompensa “x + y”) nem sempre consegue ser replicado como experimento psicológico. Ele ignora que cada criança tem um potencial de satisfação em estar com os outros ou estar consigo mesmo, que contrabalança a tensão, bem estudada por Eduardo Gianetti[1]  entre o agora e o amanhã. Muitas vezes a excessiva ênfase na relação entre processos e resultados esquece que uma fonte segura de satisfação é a presença qualificada com os outros. Como e quanto você consegue realmente estar com os outros?   

Essa consideração ajudaria a contrabalançar a hipótese de que o grande vilão na queda do sentimento de felicidade seriam as redes sociais. É fato que o tempo livre, durante a última década foi consumido pelos smartphones e o início da curva descendente coincide com a disponibilização da banda larga e da expansão das redes sociais.

Adolescentes passam menos tempo com livros, com serviços religiosos e com amigos em função das mídias digitais. Os quatro campeões da indução de felicidade: dormir, esportes, interação social e trabalho voluntário, são todos “unplugged”, ao contrário dos quatro piores: ouvir música, internet, games e mídia social.

O Relatório Mundial da Felicidade de 2018 indicava que os escandinavos continuavam à frente, com a Finlândia na liderança geral, que o Brasil continuava caindo, mas aos poucos, e confirmando que os americanos continuavam cada vez mais infelizes, em proporção direta com sua melhora econômica.

Talvez a felicidade econômica tenha mais que ver com a escolha pelo princípio da fuga do desprazer ao passo que a felicidade relacional prenda-se aos que escolhem o caminho da busca qualificada pela satisfação. A economia, assim como a democracia, parece tornar-se um valor integrado à paisagem subjetiva, operando pela regra de que aquilo que um dia foi ambiciosamente desejado, torna-se obrigatório uma vez que foi alcançado e intolerável quando visto sob a perspectiva do retrocesso.

Por exemplo, o sujeito gasta muito tempo indo de ônibus para o trabalho e sonha em comprar um carro. Depois que ele consegue, sobrevém um grande momento de satisfação, mas em seguida começam as queixas com o trânsito e o sentimento de que a felicidade prometida é menor do que a felicidade alcançada.

A felicidade pelo consumo sofre deste paradoxo, por isso ela é tão temida por pais e educadores. Isso concorda também com a antiga consideração política de que a democracia é um valor ao qual se dá pouco valor, até que se a perde.

Rankings de felicidade costumam acentuar como a privação de condições objetivas para a qualidade de vida, como saneamento básico e mobilidade urbana, concorrem para a produção da felicidade. Isso parece ser mais forte quanto se trata da estratégia de fuga do desprazer. Quando ela começa a dar resultado, como no caso de um país em desenvolvimento, cedo ou tarde esta curva se confrontará com a curva da busca por satisfação mais qualificada. Daí em diante a busca por mais aquisições e resultados começa a perder em relevância para busca de experiências e excelências no que se faz e no que se é.

 Se nossa hipótese é pertinente deveríamos cruzar os dados obtidos pela dupla curva de busca da felicidade x fuga da infelicidade, que mediria a relação entre os processos e os “resultados” de uma vida, com a interpretação que fazemos da felicidade ou do sofrimento alheio, ou seja, de como estamos com os nossos outros e o quanto nos sentimos implicados na felicidade ou sofrimento deles.

Por isso o nível de confiança em estranhos, particularmente em espaço público, é um índice fiável de nossa posição de felicidade. Aqueles que tendem a interpretar o outro indeterminado como potencialmente perigoso, de quem temos que nos defender são mais infelizes. Por outro lado, aqueles que apresentam mais indícios de felicidade são também mais propensos ao engajamento político coletivo, como que a entender que este é um bem que aumenta conforme nós o distribuímos ou partilhamos com os outros.   

Processo análogo talvez ocorra ao longo da vida separando consistentemente padrões de felicidades entre crianças e adolescentes, ou entre adultos e idosos. Crianças são extremamente sensíveis à felicidade “ambiental” que as cerca, tendendo a sentir-se felizes se o coletivo que as envolve assim as percebe e assim se percebe. Adolescentes, ao contrário, descobrem que a individualização da felicidade é um problema que veio para ficar, mas ainda assim, em geral, apostam na busca do prazer e de uma felicidade mais exigente. Jovens adultos tendem a individualizar e minimizar suas felicidades, talvez em decorrência da individualização de seus resultados, que advém do mundo laboral. Idosos, finalmente aumentam suas exigências de felicidade relacional, muitas vezes lamentando o tempo perdido com os modelos anteriores.

 

[1] Gianetti, Eduardo (2014) O Valor do Amanhã. São Paulo: Companhia das Letras.

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Divisão política produziu o Natal entre ruínas. Esta também é sua história? http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/12/20/divisao-politica-produziu-o-natal-entre-ruinas-esta-tambem-e-sua-historia/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/12/20/divisao-politica-produziu-o-natal-entre-ruinas-esta-tambem-e-sua-historia/#respond Fri, 20 Dec 2019 07:00:08 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=244

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Por motivos políticos o Natal do ano passado quase foi cancelado em minha família. Salvou-nos uma prima que mora na Suíça e veio com a ideia de nos encontrarmos em território neutro, para não deixar a data passar em branco. Corria tudo inesperadamente bem até que minha querida tia alçou o seguinte comentário: “adorei sua entrevista na televisão. Silêncio espesso. Pontos de mira laser, em vermelho imaginário, começaram a aparecer na testa dos convivas. Meu filho engatilhou sua metralhadora verbal 0.40, semiautomática e minha filha abriu as ventas no estilo dragão cospe fogo.

Mandei um olhar tipo professor Dumbledore: “calma gente, é a tia querida”. Perguntei o que ela tinha achado da entrevista. “Foi ótimo! Ainda bem que você não é de esquerda, né?”. Ouvi aquele clique metálico das línguas, soltando as travas de segurança do palavrório e o fogo do dragão queimando o peru. Tentei ganhar tempo. “Tia, você viu a entrevista até o fim, mesmo?” “Vi sim, você estava lindo. O Brasil é que está uma tristeza. Tudo porque o PT mandou matar milhares de pessoas, roubou nosso dinheiro e apoiou aqueles venezuelanos“.

Na condição de sobrinho querido eu estava envolto pelo manto da proteção invisível que recai sobre as boas pessoas desta família. Desde que usasse o tom de voz certo estaria eternamente encoberto pelo “cone desescutador”. Não importa o que dissesse ou argumentasse, na ceia de Natal ou no horário nobre, em cadeia nacional ou na mesa da cozinha, continuaria a ser o pequeno Kiko que gostava de espirrar água no tapete da sala.

Quem nos conhece melhor do que aquela tia que nos viu crescer? O truque aqui é que este “nós” que serve de abrigo e porto seguro para nossas crises identitárias é também composto por uma ficção que se reatualiza a cada ano, ganhando ares de realidade. No fundo, o Natal nos coloca em contato com versões passadas de nós mesmos. Apesar de termos mudado profundamente ainda continuamos a ser o sobrinho querido e peralta. Mas essa narrativa corre em paralelo com as outras especulações sobre o mundo e seu destino trágico ou cômico. Ocorre que este estado de exceção intransponível e protetor, no qual embalamos nossos queridos natalinos, parece imune à lógica do preconceito e agressividade que podemos ter com relação a estes mesmos parentes quando eles migram para outro grupo de pertinência, político, econômico ou narcísico. Ou seja, tudo se passa como se Batman e Bruce Wayne fossem juntos à mesma festa.

Voltando ao Natal passado.  Estávamos na escadaria da Universidade de Freiburg, entre as duas estátuas de Platão e Aristóteles, na antológica Faculdade de Teologia e Filosofia. No topo do prédio, de uns cinco andares, lia-se em letras góticas a expressão “Ewig Deutschtum”, algo assim como “Germanidade eterna”, um famoso dito nazista.

No final da Segunda Guerra Mundial os americanos bombardearam a cidade e a fachada ficou parcialmente destruída. Surgiu então o dilema: seria melhor reconstruir tudo e apagar o passado nacional-socialista do lugar ou manter o frontispício para nunca esquecermos de como a coisa aconteceu?

Resolvi apresentar o dilema para minha tia. Mencionei que ali tinha dado aula um tal de Husserl, um dos maiores filósofos do século passado, especialista em matemática e ciência, que teve que se aposentar porque era judeu. Seu aluno, Martin Heidegger, tornou-se reitor da universidade, apoiando os nazistas em seu discurso de posse. Depois disso Heidegger envolveu-se com sua aluna, Hanna Arendt. Ela estudou como as pessoas comuns podem fazer maldades incríveis só porque acham que estão seguindo ordens. “Sim, tia, pessoas inteligentes também fazem bobagens horríveis. Não, tia, Heidegger não era comunista”.

Muitos nazistas, assim como vários simpatizantes da ultra-direita, apoiaram a causa simplesmente para aumentar suas chances de subir na vida. Eliminar, real ou simbolicamente, inimigos políticos e concorrentes comerciais é uma fantasia que ressurge em momentos de penúria e escassez. O aprofundamento de preconceitos e estereótipos é perigoso porque estimula tais fantasias de que o mundo seria um lugar melhor se tivesse menos gente nele.

Ouvi no rádio que o nazismo é de esquerda, comentou minha tia. Tive que explicar que isso era mentira, que o governo alemão fizera uma declaração oficial sobre isso e que os nazistas não perseguiram só judeus, mas também ciganos, negros, homossexuais, estrangeiros e … comunistas. Eliminaram crianças especiais, pacientes crônicos e doentes mentais, dizendo que eles representavam um alto custo para o Estado. No final, até mesmo os velhos eram levados para os campos de concentração pois eram um peso para a sociedade. “É melhor deixar a tal frase lá e cima. Serve para lembrar a história, senão as pessoas esquecem”, murmurou minha tia.

Durante este ano de 2019 a alternativa entre apagar tudo e começar do zero ou reconstruir a partir das ruínas, esteve muito presente para mim. Vi como as pessoas podem evoluir mal e se apequenar quando interpretam que o mundo se tornou um lugar horrível, cheio de gente egoísta e violenta. Não é que isso seja falso, mas também não é verdadeiro. Percebi também como a suposição de que os outros são pessoas pérfidas e insensíveis interrompe conversas. Nos defendermos de pessoas tóxicas, de ambientes tóxicos, de relações tóxicas, de discursos tóxicos. Ao final selamos o casamento no nosso próprio condomínio, consagrando a profecia autorrealizadora sobre os outros.

Chegamos assim, entre ruínas e esquecimentos, ao Natal deste ano. Para muitos ele só será possível se esquecermos o Natal passado. Agir “como se nada tivesse acontecido” e atribuir as ofensas e desencontros ocorridos aos excessos etílicos e ao ambiente tóxico do país, não aos nossos próprios fantasmas familiares. Reconstruir o Natal como uma festa da memória, ainda que seja para comemorar que sobrevivemos juntos até aqui. Poderíamos assim lembrar dos que já se foram e comemorar os que estão chegando.

Esquecer pode significar perdoar, mas também negar. Assim como começar de novo, pode ser apenas um pretexto para fugir para frente, imaginando que não se deixa rastros nesta existência ou que tudo continuará para sempre circularmente igual neste Natal. Mas vamos lembrar bem como era o Natal antes da catástrofe. Ele costumava deixar um rastro enjoativo de repetição ritual, tensão entre as famílias disputando presença, martírio para filhos de pais separados ainda em guerra. Podíamos sair daqueles natais mais vazios do que entramos, ainda mais quando o excesso de presentes ou bebidas apenas denunciava a falta de alguma coisa mais. O Natal também é a consagração da mentira e dos segredos que constituem todas as famílias.

Mas agora você pode escolher o lado B do Natal. O Natal entre ruínas.  Ruínas são a essência da cultura. Ruínas são testemunhos materiais de que não há desejo que não venha de uma história de desejos desejados que o antecedeu. Deste ponto de vista não há início radical e novo, apenas o próximo capítulo da minissérie que, em geral, termina mal. As ruínas são essencialmente restos daquilo que um dia foi uma unidade integral. Uma família, ideal, que talvez nunca tenha existido é reconstruída a cada vez. Como os narizes faltantes das estátuas gregas, os vazios do Coliseu romano, os castelos abandonados da Escócia, as ruínas da história nos dão a chance de criar um novo passado a cada vez. Criar aquilo que poderia ter sido.

Por isso, o Natal das ruínas é também ocasião para balanço do que foi o ano, e que qual história queremos contar sobre ele. Balanço que é também desassossego diante de promessas não cumpridas e dos sonhos com os quais não nos implicamos. Por isso tanta gente tem medo do Natal, ele nos coloca em contato com testemunhas do que nós fomos (crianças, jovens e bebês), nos induzindo a comparação com o que nós somos e com o que nos tornamos. A chance de nos sentirmos culpados aqui é grande. Culpados diante da pálida realidade, poluídos por fantasmas e duendes internos.

Agora basta escolher, qual Natal você prefere?

 

 

 

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Brasil desenvolve um tipo particular de tecnologia: o racismo intelectual http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/12/13/brasil-desenvolve-um-tipo-particular-de-tecnologia-o-racismo-intelectual/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/12/13/brasil-desenvolve-um-tipo-particular-de-tecnologia-o-racismo-intelectual/#respond Fri, 13 Dec 2019 07:00:02 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=226

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O racismo não é apenas uma atitude sistemática de preconceito e discriminação de pessoas segundo sua cor de pele ou origem étnica. Ele é também uma tecnologia.

Um conceito prático e básico para definir o que é uma tecnologia afirma que esta é uma maneira de ampliar ou controlar habilidades humanas, de modo que instrumentos, signos ou máquinas fariam de forma mais rápida, eficiente ou segura o que o ser humano, em estado de nudez e desamparo, faria de modo mais lento, irregular ou precário.

Este conceito não determina a valência moral das habilidades ou interesses humanos. Por isso podemos entender o racismo como uma tecnologia discursiva e política que amplia, aprofunda e generaliza interesses e aspectos sombrios do ser humano.

Diante da infinita dificuldade de entender outra cultura, em toda sua complexidade e ao risco de descobrir nela aquilo que, com tanto esforço, suprimimos ou censuramos na nossa própria, surge a tentação tecnológica de dizer que o outro, no fundo, pertence a outra categoria. Desde então podemos suprimir direitos, derrogar empatia ou silenciar sofrimentos porque, afinal, ele pertence a uma de nossas obscenas categorias privadas do inumano: animais, monstros, estrangeiros e demais criaturas que têm a característica de nos incomodar.

Com isso acompanho a ideia do pesquisador de comunicação da UFBA (Universidade Federal da Bahia)  Tarcízio Silva de que, afinal, a tecnologia tem cor sim. Ela não é um instrumento neutro a ser usado para o bem ou para o mal, simplesmente porque como dispositivo de exageração e controle de nossos interesses ela extrapola o bem e o mal que nos faz produzir e renovar tecnologias.

Segundo autores como o historiador camaronês Archille Mbembe [1] e a antropóloga brasileira Lilia Schwarcz [2], a criação de uma mentalidade que separa, hierarquiza e justifica diferenças entre raças é parte da biopolítica ocidental, inerente ao processo de colonização. Tudo se passa como se para justificar relações de poder e distribuição não equitativa de direitos e bens simbólicos fosse necessário um discurso.

Uma certa concepção de mundo e de vida, na qual a igualdade universal entre os direitos humanos pode ser aplicada de modo diferencial, depende de alguma explicação sobre a origem da desigualdade. Um explicação que fosse suficientemente simples e que se apoiasse de forma tão engenhosa nas dificuldades que todos nós temos para lidar com as diferenças e estrangeiros dentro de nós mesmos, que seria sentida como natural, quando desdobrada na relação com o outro.

Exemplo na prática

Quando receberam as ideias de liberdade e equidade, provenientes da Revolução Francesa, iniciada em 1789, os habitantes da colônia francesa de São Domingos (hoje Haiti) iniciaram uma revolução que pusesse em prática tais ideias, abolindo a escravidão e postulando a autodeterminação de seu país, ainda que em lealdade à França. Napoleão ordena então uma violenta represália contra os insubordinados, enviando tropas para coibir a insurreição. Mas na noite do ataque os soldados franceses escutam seus oponentes haitianos, liderados pelo lendário Tussaint de Louverture, entoarem a marselhesa, o hino libertário francês. Não se sabe ao certo se isso teria insuflado a dúvida ou a identificação, mas o fato é que o exército napoleônico, que havia vencido prussianos e espanhóis, é derrotado.

Imagem de Toussaint Louverture no John Carter Brown Library (Reprodução)

Iniciada em 1791 e terminada em 1804, com a independência da colônia, gostaria de ver nesta aventura, que foi severamente punida pela metrópole, a contrapartida periférica e talvez a verdadeira primeira revolução libertadora do ocidente. Ou seja, a mesma tecnologia política e discursiva que gerou a queda da Bastilha criou a revolução de São Domingos, bem como a contra-revolução que destruiu aquela que era, até então, a colônia mais rica e mais produtiva do império francês.

Quando olhamos para a atual situação de censura e bloqueio de manifestações artísticas, intelectuais e religiosas no país não me parece suficiente evocar o direito à liberdade de expressão, como se a censura fosse apenas uma política de governo que seleciona arbitrariamente que tipo de informação deve ser veiculada e como. Isso acontece, repetindo capítulos mais atrasados de nossa história, mas o mais grave é que isso cria uma tecnologia de pensamento, que se instala como uma espécie de gramática racista para além de uma política de Estado local, que cedo ou tarde passará. É isso que chamo de racismo intelectual.

Ele não se mostra apenas na demissão de professores que ensinam Marx e outros autores indesejáveis em nossas universidades (sim, isto está acontecendo), mas na ideia de que pessoas se definem por autores que eles seguem, estudam ou praticam. Assim como há um colorismo inerente ao discurso da raça, começamos a pensar o teor de vermelhitude de nossos autores, o grau de pureza daqueles que aderem a uma corrente de pensamento ou uma escola de reflexão. Os cursos de psicologia começam a declarar, abertamente, que precisam impedir a entrada de novos psicanalistas (ou cognitivistas, tanto faz). A ideologia não se realiza mais no tipo de articulação entre as ideias e sua conexão com a realidade, no modo com as usamos como “instrumentos” para pensar. Elas se tornam marcadores segregativos do que as pessoas são: feministas, gayzistas, pós-modernos, evangélicos, politicamente corretos.

É o racismo intelectual que impede que o grupo Porta dos Fundos faça um vídeo representando Jesus Cristo com homossexual. É o racismo intelectual que adere certas palavras a certos proprietários remidos de seus sentidos. É o racismo intelectual que se expande como um vírus que atravessa esquerda e direita em uma mesma gramática conspirativa, denunciativa e irresponsável.

O legado intelectual do bolsonarismo, com suas ideias toscas e seus ministros vulgares, não é tão deletério quanto a disseminação do racismo intelectual que ele concorre para estabelecer como linguagem de base. Sua definição filosófica poderia ser equivalente da inversão da fórmula do universalismo, proposta por Paulo, em carta aos Gálatas: “Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” Mas em vez de ler aqui a suspensão do nacionalismo (judeu ou grego), o grito decolonial (escravo ou ou livre) e a crítica do binário de gênero (nem homem, nem mulher), o racismo intelectual afirma que tudo se resume a ser judeu ou grego, que só existem escravos e senhores e que nada escapará ao confronto entre homens e mulheres.

[1] Mbembe, A. (2017) Políticas da Inimizade. Lisboa: Antígona.

[2] Schwarcz, L.M. (1993) O Espetáculo das Raças. São Paulo: Companhia das Letras.

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Cidades mais inteligentes devem combater a lógica de condomínio http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/12/06/cidade-mais-inteligente-nao-deve-depender-da-imposicao-do-estado/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/12/06/cidade-mais-inteligente-nao-deve-depender-da-imposicao-do-estado/#respond Fri, 06 Dec 2019 15:05:59 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=218

Hendrik Will/ Unsplash

Estou aqui ao lado do mosteiro dos Jerônimos, diante de alguns pastéis de Belém, em Lisboa, depois de visitar a perspectiva a partir da qual teríamos sido descobertos. O termo tornou-se polêmico depois que descobrimos que “descoberta” sugere que nada havia no Brasil antes de 1500, negando-se assim os indígenas, sua geografia e sua história, bem como suas cidades. A tese se repete em nossa história. Por exemplo, durante a ditadura militar tornou-se um objetivo estratégico ocupar a Amazônia, como se nada ali houvesse, como se a floresta fosse uma vazio apenas porque não comporta cidades como as conhecemos.

A maior parte das aldeias indígenas brasileiras tende à forma circular, dispondo-se as ocas ora no centro ora na periferia. O formato parece dotado de uma potência natural pois sugere que em alguma medida estaríamos todos em posição de igualdade quando referidos a um centro comum.

Muitos diriam que esta sabedoria milenar é referendada pelas cidades medievais, com seus círculos murados em torno do centro em disputa e alternância, ora a igreja,  ora o palácio real.   Outros lembrariam que na distribuição grega, que dividia a cidade alta, onde ficava a acrópole, morada dos deuses, e a cidade baixa, onde se localizava a ágora, lugar da palavra e das trocas, só esta última era em formato circular. E foi esta que passou para a posteridade. Olinda e Recife que o digam.

A mania do círculo e a consequente disputa pelo centro talvez não foi a melhor ideia que já tivemos.  Ela chama a experiência intuitiva de que há um dentro e um fora, como que a justificar a necessidade de fronteiras, muros ou demarcações. Claro que podemos imaginar indefinidas esferas se incluindo umas às outras, como no brasão do império português, onde se vê uma esfera armilar. Uma esfera com furos parece algo mais simpático que um círculo, mas ainda tem um centro.

Entre os indígenas há um povo, os Arawetés, habitantes do alto Xingu, que não fazem aldeias circulares, mas algo desordenadas, com proximidade entre casas, mas sem uma ordem geométrica definida. Talvez isso derive de uma prática que acaba por regular o tamanho das aldeias a, digamos, 150 pessoas. Depois disso a comunidade tente a, espontaneamente, se dividir em duas e começar uma outra aldeia, nem tão distante, mas também não tão perto.

Segundo alguns este número teria propriedades mágicas quando se trata da aglomerações humanas. Ele corresponde, por exemplo, ao número de amigos que conseguimos realmente gerir, quando se trata de redes sociais como o Facebook. Depois que passamos muito de 150 pessoas a discórdia se torna ingovernável pela relação direta e pessoal. Surgem então regras escritas, normas e demais dispositivos de institucionalidade.

Quando estudei a vida em forma de condomínio[1] com seus sofrimentos mais ou menos típicos, como a formação de inimigos imaginários por trás dos muros, e, dentro dos muros, o narcisismo das pequenas diferenças (competições invejosas em função de detalhes diferenciadores irrelevantes, tipo marca de roupa ou carros), percebi que a função da distância incide de forma distinta entre classes sociais.

Para os ricos, a vastidão do espaço dá a impressão de que ele é um imenso vazio, esperando pela sua ocupação. O que se reflete na ambição, sempre mais ou menos contida, de colonizar o espaço público com seus interesses privados. Para os pobres, ao contrário, a falta de espaço na cidade faz com que espaços públicos sejam sentidos como intrusivos: a polícia que invade, o poder público de despeja, a força da lei que empurra para a periferia, as prisões que condenam ao amontoamento.

Há um centro na periferia e há uma periferia no centro, mas ainda assim continuamos a pensar a circularidade burra entre um e outro.

Se queremos cidades mais inteligentes é preciso tornar o círculo uma elipse, onde temos dois focos que se revezam. É preciso colocar as escolas como ponto de recuperação do princípio da comunidade, ainda que várias tenham mais de 150 alunos. Isso significaria reduzir o teor de institucionalidade das escolas, não no sentido de fazê-las governadas pelas famílias e pelos não-partidos, mas no sentido das aldeias Arawetés, onde podemos recuperar a palavra falada como instância de mediação de conflitos.

Escolas que reduzem seus muros e se entendem também como uma comunidade concorrem para uma cidade aprendente. Não haverá sistema jurídico, policiais ou prisões suficientes para uma cidade que é incapaz de falar e de ouvir. Uma cidade inteligente começa pela palavra, pessoal, direta e intransferível como meio primeiro e fundamental para enfrentar conflitos. Se a cidade não nos ensinar isso, ela nada nos ensinará senão círculos e centros.

É típico, e cada vez mais típico, que a cidade circular seja a cidade onde tudo funciona pelo escrito, onde nada no espaço público se realize sem comprovante de residência, fichas de posse, uso e propriedade. Isso nos levou a situação que temos hoje em São Paulo, esta cidade onde o cosmopolitismo é circular como o brasão português, na qual as construções informais, sem arquiteto, habite-se e alvará cresce muito mais do que a cidade que pode receber recursos, porque está com os impostos em dia, porque sabe pedir, porque está institucionalizada.

É preciso urbanizar, regular e demarcar terras indígenas e zonas de ocupação, mas antes de tudo é preciso reconhecer de forma mais inteligente o princípio dos 150, por meio do qual a cidade tem sua própria “inteligência”. Onde já existe vida inteligente antes do Estado chegar para colonizar, impondo a lei e a ordem, segundo o método do pisoteamento e da expulsão das populações para a periferia das periferias.

A tecnologia das cidades não pode mais se contentar com o dirigismo do planejamento, da ordenação por meio de uma institucionalização que não é neutra, mas que consolida os verdadeiros barões, com suas armas assinaladas, como proprietários e síndicos informais da cidade.

A circulação dentro da cidade pode melhorar muito com a internet das coisas, mas ainda não está certo se ela não trará apenas mais poder e mais recursos para a cidade formal, e mais miséria e isolamento para a cidade informal.

[1] Dunker, C.I.L. (2015) Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma. São Paulo: Boitempo.

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Adora filtro na selfie? Cuidado, manipular sua própria imagem é perigoso http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/filtros-instagram-manipulacao-digital-psicologico-saude-mental/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/filtros-instagram-manipulacao-digital-psicologico-saude-mental/#respond Fri, 29 Nov 2019 07:00:36 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=209

S. Hermann & F. Richter/ Pixabay

Desde 2017, redes sociais como o Snapchat e o Instagram disponibilizam filtros faciais e permitem manipular imagens acrescentando certos efeitos como a implantação de focinhos de cachorro, orelhas felinas, efeitos fosforescentes, metálicos ou surrealistas. Divulguei minha coluna aqui na UOL sobre o “Coringa”, aplicando uma máscara do inimigo de Batman sobre minha própria face. O filtro Beauty3000 produz ajustes automáticos permitindo escolher modelos de beleza, do tipo Plástica, Natural, Top Model, assim como variantes do tipo Cirurgia Plástica. O recurso é muito interessante quando pensamos em sua chave lúdica que nos permitiria experimentar versões de nós mesmos, mas ele pode alimentar certas disposições problemáticas, presentes em todos nós, ainda que mais agudas para alguns, particularmente em certas situações de vida.

Tais programas de maquiagem digital exploram padrões algoritmicamente determinados de beleza. Filtros como o Fix Me e Plastic chegaram a ser retirados pelo Instagram porque eles impunham uma versão excessivamente plástica, tendente a padrões de beleza por branqueamento, por exemplo.

Como todo brinquedo novo, tendemos a usar este tipo de recurso com grande variação no começo, para logo depois abandoná-lo, acabando por mobilizá-lo novamente em situações especiais ou periodicamente, em caso de crise. Tendemos a fazer reformulações de nossa imagem quando queremos iniciar ou fechar um determinado ciclo de vida. Cabelo novo, tatuagens e piercings podem funcionar como marcadores simbólicos deste tipo.

A renovação periódica de nossa imagem depende do que a psicanálise chama de sistema de identificações e mais especificamente da reposição narcísica.

O narcisismo não é uma conformação fixa, mas uma espécie de gramática capaz de conjugar diferentes modos de relação. Por exemplo, existem aqueles que precisam confirmar, de quando em quando, que continuam a ser amados, como um dia foram. Outros parecem ter uma espécie de hemorragia narcísica, que torna a demanda de amor infinita.  Outros ainda orientam-se para narcisismos de grupo ou de massa, onde valemos pelo clube que nos aceitou como sócio. Há aqueles que precisam ajustar, indefinidamente, seu sentimento de si, grandioso ou diminuído, com a imagem que supostamente os representaria “perfeitamente”. Incluem-se aqui os que estão em estado de guerra permanente com o peso, com as características anatômicas do próprio corpo ou com a forma como são enxergados e reconhecidos pelos outros.

Feliz ou infelizmente não nos reduzimos ao nosso narcisismo, ainda que este tenha sido o aspecto mais destacado pela nova experiência digital. Quando as reposições narcísicas ocupam a maior parte do trabalho e do custo psíquico, temos sujeitos cronicamente vulneráveis a depressões e ansiedades.

Na verdade, o sistema narcísico encontra-se em precário equilíbrio com duas outras dimensões de nossa subjetividade: nossos sonhos ou desejos e nossas modalidades preferenciais de satisfação ou gozo. Filtros e demais manipulações digitais são relativamente inócuos quando estão apenas a serviço de nossa reposição narcísica, mas tendem a se tornar perigosos quando inflam esta atividade psíquica de tal maneira a que ela passa a ser mais importante do que nossa responsabilidade com nossos desejos ou quando passa a ser o tipo preferencial de satisfação.

Para ser um pouco mais didático: o narcisismo fala de quem “você é”, o desejo do que “você quer”. Cuidados com sua imagem e variações as mais constantes são ótimas desde que não esteja a serviço de renunciar ao desejo.

Os novos filtros podem-se instalar de forma sub-reptícia, de tal maneira a induzir uma espécie de superestimação constante de nossa imagem. De fato, isso tem preocupado os que estudam os efeitos psíquicos da vida digital, pois criaria uma espécie de elevação do patamar geral, rumo a um novo normal, dotado de um “a-mais” de agradabilidade, logo um “a-menos” de aprovação no contato real. Surge assim a síndrome da decepção continuada.

O dilema encontra um correlato na nova medicina, chamada também de pós-compensatória.  Na medicina clássica as medicações e intervenções cirúrgicas ou protéticas visavam sobretudo refazer o trabalho que o organismo não conseguia realizar. O modelo era homeostático, pois tendia ao restabelecimento de um funcionamento de base, definido por Bichat, como o “silêncio dos órgãos”.

Contudo, com a aparição das primeiras manipulações genéticas, das drogas que levam o organismo a superar seu funcionamento de base, ou ainda das cirurgias plásticas e procedimentos dermatológicos, que não apenas reposicionam funcionamentos e tecidos perdidos, mas redobram e aperfeiçoam suas funções podemos considerar uma medicina biônica ou ciborgue. Nela é possível substituir ossos por próteses mais resistentes, aumentar a disponibilidade de neurotransmissores e acelerar o funcionamento mental, tornando alguém performativamente mais inteligente, menos sonolento, mais concentrado, menos introvertido ou simplesmente mais alegre.

Um doping narcísico  crônico e não regulado, é o que pode estar em curso com a infiltração de imagens mais positivas e esteticamente mais atraentes, simplesmente pela acomodação de filtros. O truque aqui é que a utilização destes filtros tendem a aumentar o interesse pelo uso da própria rede social, funcionando como uma espelho da madrasta de Branca de Neve, só que desta vez é um espelho corrupto, comprado para mostrar apenas o que queremos ver.

Uma ativação biônica deste tipo não levaria apenas a uma aceleração da reposição narcísica, semelhante à que se observa naquelas pessoas que depois de duas ou três cirurgias plásticas não conseguem mais parar de buscar a imagem perfeita, o que geralmente leva apenas a deformações grotescas.  Haveria também uma alteração do peso proporcional do narcisismo em relação ao nosso sistema de satisfações, estimulando a formação de uma população para a qual o prazer com a própria imagem controlada de si seria mais interessante do que qualquer pessoa real pode oferecer. Mas o prejuízo mais forte deste processo estaria nos efeitos de inibição, idealização e crítica que o narcisismo exerce sobre nosso desejo. Teríamos então uma civilização de apáticos, indiferentes e depressivos que diante da escolha entre ter uma imagem amável e segura ou desejar e ser desejado, com os riscos que isso comporta, escolheriam sempre a primeira alternativa.

Felizmente não é a primeira vez que teríamos tomado esta via, e nem por isso nos tornamos piores ou melhores. Os moralistas franceses do século 17 como La Rochefoucauld ,  La Fontaine ou La Bruyère, assim como os puritanos escoceses do século 18, como Hume e Adam Smith, ou ainda Mandeville, já nos advertiam dos perigos do amor próprio e das virtudes do egoísmo. Talvez precisemos voltar a eles para entender como do narcisismo mais exacerbado é também a matéria-prima para os desejos mais corajosos.

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Como o Brasil alcançou a mediocridade científica de hoje? http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/11/22/pacto-nacional-pela-mediocridade-cientifica/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/11/22/pacto-nacional-pela-mediocridade-cientifica/#respond Fri, 22 Nov 2019 07:01:31 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=194

Ahmet Turan Ince/Pixabay

Comecei minha experiência como orientador de dissertações de mestrado, em 1996 na, hoje falecida, Universidade São Marcos. O ministro da educação à época, Paulo Renato Souza, havia criado um novo projeto para as universidades brasileiras, o primeiro a considerar a emergência de novos centros de ensino e formação privados. Fazia parte deste plano a abertura massiva de novos cursos de graduação e pós-graduação, junto com a intensificação dos sistemas de controle.

O conceito central residia na ideia de competição entre as universidades públicas e confessionais com os novos grupos educacionais, que poderia trazer investimentos e aumentar a internacionalização, que naquela época era ainda um horizonte distante para a maior parte de nossa produção científica.

Esta verdadeira expansão da pós-graduação, colhia os frutos de uma política ousada, ainda que por motivos um tanto nacionalista. Afinal, desde os anos 1970 o Brasil decidiu fazer das universidades um polo civilizacional do país, investindo em pesquisa e abrindo universidades federais e estaduais por todos os estados da federação. Enquanto nossos vizinhos como Argentina e Uruguai optaram por popularizar o acesso às universidades, mas formar quadros de pesquisa no exterior, nós optamos por cursos de graduação mais restritivos, com vestibulares excludentes, mas contando com a pesquisa em pós-graduação como fator de integração nacional.

Enquanto países como Chile tornavam seus parques universitários caríssimos e elitizados, o Brasil subsidiava o investimento em educação pública universitária. A constituição de 1988 agravou esta percepção ao estabelecer a divisão de tarefas na educação:  ensino fundamental e médio para estados e municípios, ensino universitário para o Governo Federal.

Mas a grande ideia do ministro de Fernando Henrique não estava na abertura do ensino universitário à competição com grupos da iniciativa privada, mas na determinação de certos coeficientes de professores doutores e mestres que deveriam compor o quadro docente de qualquer  instituição de ensino que se quisesse apresentar-se como uma universidade, e não como apenas um centro universitário.

O diferencial entre fazer pesquisa e dedicar-se apenas ao ensino de graduação se tornaria, conforme a hipótese, um diferencial de mercado, que orientaria a captura dos melhores alunos.  Percebendo que já tínhamos um plantel básico de pós-graduações pelo país, isso seria uma forma de oferecer aos jovens doutores e mestre uma promissora carreira em uma atividade emergente da economia. Surgia assim uma alternativa, para os jovens doutores. Em vez de esperar décadas por uma vaga, por concurso, em uma pós-graduação, apostar em uma universidade privada.

Isso também funcionava como uma estratégia para gradualmente reduzir o crônico problema da concentração de recursos no sul-sudeste. Se as universidades privadas investissem pesadamente em pesquisa o Estado poderia investir nas regiões mais deficitárias na formação de recursos humanos. Isso tudo aconteceria em um cenário de saudável competição entre universidades públicas e privadas, em torno da distribuição de recursos, como bolsas de estudo.

O plano parecia viável, ou ao menos bem-intencionado, mas foi aqui que começou a se formar o pacto nacional pela mediocridade da ciência no Brasil.  O Conselho Nacional de Educação, com histórica e forte representação de escolas particulares, começou a atacar a cláusula da contratação de docentes com mestrado e doutorado, reduzindo progressivamente sua exigência ou diluindo sua importância em meio a outros tantos critérios para avaliações de universidades.

Gerd Altmann/ Pixabay

Rapidamente, as universidades particulares perceberam que investir em pesquisa não é um negócio vantajoso a curto prazo. Saíram rapidamente do páreo transformando a pesquisa em uma espécie de “imposto” que devia ser pago em troca da autonomia para poder abrir cursos livremente e sem critério. Por outro lado, a saída das universidades particulares da luta pelos investimentos em ciência aliviou o setor público que cresceu e se capilarizou, ainda mais, com os governos Lula e Dilma.

Ao mesmo tempo, os salários de professores qualificados em universidades públicas, que passaram a trabalhar em universidades particulares, começaram a cair de forma grotesca. Isso foi proporcional à entrada dos novos sistemas gerenciais implantados nestas universidades de massa, mas alimentadas pelo esforço nacional de inclusão, representado pelo Fies. Grupos como Kroton, Unip, Laureate, Cruzeiro do Sul e Uninove começaram a praticar reduções de carga horária, evadir-se da pesquisa científica, burocratizar a performance do professor, criando cursos apostilados onde a qualificação em pesquisa torna-se quase uma inconveniência.

Muitos desses grupos, que apostaram na fórmula da competição criativa, compraram pequenos centros universitários e formaram verdadeiros impérios. Muitos são ligados a políticos, como a Unipac do deputado Bonifácio de Andrada (PSDB/MG), que se espalhou pelo interior de Minas Gerais. Mesmo em faculdades tradicionais a contratação de professores, em regime de 40 ou 30 horas, originalmente destinada para contemplar pesquisadores, tornou-se apenas pretexto para alocar pessoas em trabalho administrativo.

Finalmente, nos anos 2010 chegamos à era dos rankings, nacionais e internacionais, como o RUF da Folha de S.Paulo. Podíamos agora avaliar a aposta feita trinta anos antes. O resultado todos sabemos: virtualmente em todas as áreas os resultados continuam a repetir-se com as universidades públicas e fundações confessionais (como as PUCs), nos primeiros lugares. Resultados pífios para aquelas que vieram para trazer liberdade, inovação e competição para a educação universitária.

É precisamente nesta hora que o pacto pela mediocridade da ciência se radicaliza. As universidades públicas começam a ser alvo de críticas pelo seu marxismo cultural, pelos recursos que consomem, pelo privilégio que representam, chegando ao questionamento da pesquisa científica como um valor, afinal “não tão importante assim”. Tive que assistir, com os olhos que esta terra há de comer, uma representante do Ministério da Educação, diante de quinhentos pesquisadores, declarar que: “não precisamos nos preocupar tanto assim em crescer, pois já fizemos um excelente trabalho”. Isso antes de pedir para projetar os dados do Mato Grosso do Norte – isso mesmo, e repetido (lembrando que o estado chama-se apenas Mato Grosso).

É irônico que quando as políticas de cotas começam a mostrar resultados efetivos, momento no qual temos, pela primeira vez em nossa história, mais estudantes negros do que brancos em nossas universidades, tenhamos que enfrentar, um retrocesso, com poucos equivalentes internacionais, na importância política e social da ciência.

É verdade que a universidade não soube tornar mais visível sua produção, nem se empenhar para tornar a formação política e científica básica nas escolas uma matéria decisiva. O apagão de professores, principalmente de exatas, foi se formando no Brasil debaixo dos olhos impotentes dos professores universitários.

Tornamo-nos mais preocupados em publicar artigos e remar na produção da pós-graduação, do que intervir em nossa realidade social ou em participar mais ativamente da formação e aplicação de nossas políticas públicas.  Nos despreocupamos dos cursos de graduação, pelos quais não somos assídua e sistematicamente avaliados. Por outro lado, nossos salários estão bem abaixo da realidade internacional, e pelo que nos pagam ainda fazemos bonito em manter universidades grandes, competitivas em termos de pesquisa.

giovannacco/ Pixabay

O pacto pela mediocridade da ciência no Brasil não se produziu por meio da redução da qualidade, ou da pujança de nossa participação no cenário global, mas pela estratégia de mudar o problema de lugar, sem resolvê-lo, mas sugerindo uma solução “barata e indolor”.

Se as universidades públicas, apesar de tudo, ainda estão muito à frente do que a iniciativa privada, apesar dos 30 anos de “livre comércio”, isso se deve, em grande medida, ao fato de que a ciência não é um negócio rentável, principalmente quando se considera a extensão das áreas envolvidas e quando se leva em conta a diferença entre pesquisa básica e pesquisa aplicada, envolvendo produção de tecnologia a longo prazo, ou ainda de tecnologia que serve apenas para nos controlar (como o monitoramento de queimadas na Amazônia ou o derramamento de óleo no mar).

O raciocínio medíocre diz o seguinte:

Mantenha o que for de absoluta excelência ou lucratividade e jogue fora todo o resto.   Fique com os fetiches do momento. Despreocupe-se com as áreas que são destinadas à formação mais genérica ou de longo prazo, como pensamento crítico e inovação, afinal, temos tantos problemas mais graves, como qualificar nossos alunos de ensino básico. Por que deveríamos nos preocupar com aqueles que são, de certa forma, privilegiados?

Este tipo de raciocínio cativa e conspira. Ele aproveita a desigualdade do país, em termos culturais, para mobilizar a hostilidade moral contra a ciência. Nosso problema agora não é mais oferecer chances equitativas de boa educação para todos (o que custa caro), mas eliminar professores ideológicos ou alunos que fumam maconha. Deixemos de lado os empresários que estão fazendo fortuna vendendo educação de baixa qualidade, explorando de graça nossos preciosos pesquisadores, formados a peso de ouro, com subvenções públicas e pagas por todos nós.

O argumento usa a justa indignidade contra a concentração de capital cultural no Brasil para sugerir que isto pode ser resolvido pela redução dos gastos em pesquisa.  Como se para acabar com a desigualdade econômica bastasse eliminar os ricos do país, em vez de ajudar mais pessoas a enriquecer. É um raciocínio tosco que explora a boa fé na religião da prosperidade gratuita. O tosco equipara o custo social da ciência com o da aprendizagem pela “internet”, ou com o dos “cursos à distância” (que em si não seriam má ideia, não fosse sua péssima aplicação, como extensão do golpe universitário).

O saber obtido por meio do paciente esforço educacional é, no fundo, impostor e ilusório, afinal, vejam só: “tantas pessoas fazem faculdade e depois não conseguem emprego”.  Percebendo que as regras de ascensão social não são tão claras quanto pensávamos, e que boas faculdades nem sempre redundam em bons empregos, percebendo ainda que há outros fatores segregativos ativos e em curso no Brasil, o pacto pela mediocridade na ciência te oferece trocar toda esta complexidade e risco por uma justa miséria intelectual para todos.

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Perfil fake, pseudônimo: os efeitos psíquicos de uma vida escondida na web http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/11/15/perfil-fake-pseudonimo-os-efeitos-psiquicos-de-uma-vida-escondida-na-web/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/11/15/perfil-fake-pseudonimo-os-efeitos-psiquicos-de-uma-vida-escondida-na-web/#respond Fri, 15 Nov 2019 07:00:21 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=182

Crédito: Estúdio Rebimboca/UOL

Uma das descobertas mais surpreendentes, para aqueles que começaram a usar emails e redes sociais, ainda nos anos 1990, envolvia o uso de endereços ou perfis falsos. Alterar seu nome verdadeiro, mudar de gênero, explorar fantasias sexuais em situação de anonimato –isso produziu uma autêntica revolução nos modos de produção de identidades. Muitos teóricos da modernidade, como Giddens, Bauman ou Lipovestky, passaram a falar em identidades flexíveis.

O pós-modernismo explorava a combinação de estilos e o descompromisso de gêneros. A teoria política começava a perceber a importância da identidade para as lutas por reconhecimento. Em contextos específicos, a possibilidade da dar voz e fala desde uma posição minimamente protegida é crucial. A Primavera Árabe e muitas formas de resistência contra opressão se fazem valer do anonimato, sem falar na atitude de identificação propositiva com o anônimo, como gesto fundamental de universalização do pleito pela equidade social.

“Anonymous” (2011), o filme e depois a máscara, seja ela uma antecipação do “Coringa(2019), tornaram-se uma referência para o ativismo hacker, que se espalhou pelo mundo, junto com os movimentos de Ocupação.

Parece ter ocorrido com a função crítica do anonimato algo análogo à inversão retórica das pautas identitárias: “se você pode ser feminista, eu posso ser machista”, “se existe um orgulho gay, está autorizado o orgulho hétero” e “se há um movimento negro, isso torna legítimo o supremacismo branco”. Ou seja, aquilo que é uma estratégia de defesa para quem está em posição minoritária na distribuição de poder é apropriado para gerar ainda mais desigualdade.

No caso do anonimato, isso se realiza por meio do uso de pseudônimos apenas e tão somente para reproduzir padrões de opressão e violência discursiva, atualmente presentes, representando um gesto de covardia em relação à consequência das palavras em relação à função de autoria. Robôs e fazendas de likes são alimentados pelo anonimato da rede, bem como grupos de incels e demais práticas da Deep Web.

A despeito das discussões jurídicas acerca da necessidade de um marco regulatório na web pouco tem-se salientado os efeitos psíquicos, de longo e médio prazo, de uma cultura do anonimato. Não estou falando do cyberbullying e das reações de vingança e ressentimento que o anonimato faculta (como o nude). Trata-se dos malefícios subjetivos da prática continuada de uma vida em estado de inconsequência com a palavra.

Um exemplo: no contexto das eleições de 2018 fui criticado por um “anônimo” que dizia ser a psicanálise uma ciência que colaborou com o nazismo. Fiquei indignado com uma fake news histórica tão insensata. Freud era judeu, teve seus livros queimados em praça pública por Hitler e a maior parte dos psicanalistas judeus teve que fugir da Europa, deixando rastros disso até hoje em países como Alemanha e Áustria.

Diante de uma pesquisa descubro, consternado, que o autor de tal afirmativa era, ele mesmo, um psicanalista, formado por uma consagrada sociedade de psicanálise e com intervenções televisivas e públicas em nome da psicanálise. Mas o pior estava por vir: ele mesmo era judeu.

O episódio deixou-me uma vasta lição, confirmada largamente pela clínica. Protegidas pela covardia do anonimato, eventualmente produzido pelo estado de massa, ou pelo nickname digital, pessoas lincham outras pessoas. Mulas com cabeças tornam-se mulas relinchantes sem cabeça. Pessoas são capazes de dizer “qualquer coisa”, ainda que isso contrarie suas próprias convicções, crenças e pertenças identitárias, quando se lhes retira o efeito de consequência que vem junto com a noção de autoria. E de fato quando nos sentimos irrelevantes, sem história a nos implicar, nem futuro a fazer frente, a palavra se torna a arte da inconsequência para produzir efeitos no presente.  A bolha não é só no espaço. É também no tempo.

A ligação da palavra com seu contexto temporal de enunciação contrasta vivamente com o seu oposto. Ou seja, a dificuldade de livrar-se da implacável memória eterna dos conteúdos escritos em formato digital. Para os gregos, o destino tinha uma relação com as três Parcas ou Moiras que teciam com a Roda da Fortuna: Cloto puxava o fio da vida, Laques esticava o quinhão que caberia a cada um e Átropos (junto com Keres, Moros e Thanatos, os deuses da morte) cortava a linha, interrompendo a existência.

Depois disso, exceto no caso de um herói, o sujeito entrava no domínio da lembrança e da rememoração até ser esquecido e integrado à sua genealogia. Ou seja, o destino de cada um se misturava e se entrelaçava com o dos outros, permitindo o esquecimento do indivíduo assim que ele se tornasse parte de uma história coletiva no qual estava representado. Desta forma, o anonimato era gradativamente efeito da integração simbólica do indivíduo a uma comunidade de destino.

Ora, no mundo do anonimato digital, tudo parece ocorrer de forma invertida ao mito. O fio de uma vida se estica indefinidamente nas páginas que se transformam em memoriais involuntários. Em vez do esquecimento, como integração simbólica, uma existência sentida como irrelevante, ao ponto de já nos sentirmos anônimos antes mesmo da covardia do uso inconsequente do pseudônimo.

Por outro lado, o fio que nos liga aos outros é também o fio que nos condena à lembrança inexorável, que guardará para sempre tolices adolescentes, arroubos apaixonados, impulsos alcoólicos e demais incontinências verbais. O direito à inconsequência sempre foi uma proteção necessária para a infância, para os estados do espírito, seja a possessão pelo ódio, o delírio ou a loucura. Mas agora tudo será condenado ao mal do arquivo, ainda mais quando nossos dados passarem a ser estruturados e as coisas se tornarem ainda mais inteligentes.

Um novo sentido de responsabilidade com a palavra precisa emergir entre a coerção arbitrária dos algoritmos e a defesa reativa do anonimato.

Responsabilidade costuma ser reduzida a uma categoria jurídica baseada na capacidade de responder por seus atos diante da lei. Mas, antes disso, ela pode ser uma poderosa indutora de tragédias psíquicas e éticas.

A corrupção começa pela inconsequência com apalavra e com o anonimato moral. Empresas inconsequentes com a produção de algoritmos com relação aos quais elas se declaram irresponsáveis. Corporações que criam muros de proteção formados por atendentes eletrônicos, sistemas de call center e códigos artificiais de compliance. Programas viciantes, como mostra o episódio “Smithereens” de Black Mirror, que domesticam nossa atenção e raptam nossa presença. Crianças acostumadas aos nicknames dos videogames tornam-se adolescentes divididos entre o excesso e a falta de consequência com a palavra, que em seguida ingressarão em uma vida errática nas instituições ou nas formas de laços sociais. Nelas, o nome pode ser a última forma-valor que resta. Jovens adultos superendividados, em confronto aleatório com a lei, incapazes de compromissos institucionais elementares ou de promessas amorosas que ultrapassem a espessura de uma noitada.

Se pudesse dar minha contribuição para uma internet menos insalubre, diria que é preciso pensar regras que reduzam o anonimato inconsequente. Talvez cada qual poderia escolher a forma como quer ser reconhecido, mas que isso não seja pretexto para que a violência se alastre pela displicência continuada com a palavra.

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Estes filmes nos fazem ver e fazer coisas estranhas à realidade http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/11/08/estes-filmes-nos-fazem-ver-e-fazer-coisas-estranhas-a-realidade/ http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/2019/11/08/estes-filmes-nos-fazem-ver-e-fazer-coisas-estranhas-a-realidade/#respond Fri, 08 Nov 2019 07:00:00 +0000 http://blogdodunker.blogosfera.uol.com.br/?p=172

Cena de Eli, da Netflix

Em outubro deste ano estreou na Netflix o filme “Eli”, com direção de Ciarán Foy, sobre um garoto que sofre com uma doença auto-imune, que o obriga a usar um traje especial e que passa a desenvolver alucinações quando tem que interagir com pessoas reais. Parece uma regravação de “O Menino da Bolha de Plástico” de 1976, estrelado por John Travolta, só que agora, em vez de um drama médico temos um filme de terror. Já no caso do menino da bolha, o filme apresentava uma combinação sutil entre ficção e o caso real.

De fato, o caso de David Vetter ganhou repercussão mundial no início dos anos 1970, pois a Síndrome da Imunodeficiência Combinada o obrigava a uma vida dentro de uma bolha. O tema parecia premonitório para os que viram o aparecimento da AIDS nos anos 1980, mas também porque uma condição rara parecia antecipar o tema das vidas isoladas e incapazes de resistir ao efeito tóxico, representado pelo mundo. Por isso é tão difícil dizer quanto e até onde exatamente uma ficção é realmente científica e quando ela é apenas e tão somente uma ficção.    

Freud escreveu um pequeno ensaio[1] sobre contos de horror e um certo efeito de estranhamento que eles podem nos causar. Na ocasião ele estudou o conto de E.T.A. Hoffman, “O Homem de Areia” [2], no qual uma criança tem estranhos sentimentos de que uma cena infantil, envolvendo a morte de seu pai, se reatualiza na vida adulta, resultando em efeitos de pavor, delírio e alucinação.

No início Freud argumenta que apenas as pessoas com certas dificuldades com suas fantasias infantis, de natureza narcísica, estariam expostas ao efeito “unheimlich”. A palavra é de difícil tradução envolvendo tanto o sentimento de estranheza familiar, como uma familiaridade estranha e ainda a sensação de que “algo que deveria ter ficado escondido repentinamente se revela”. Conforme Freud examina o fenômeno em uma vasta série de contos de terror ele começa a perceber que a fronteira entre o juízo ou percepção, de extração empírica ou científica, pode não ser tão simples.

Uma linha tão discutível quanto aquela que separa a vida infantil da adulta. Ao final somos confrontados com o conflito de juízos que podem e devem habitar a ciência, bem como com a perspectiva de que fantasias narcísicas de hoje podem antecipar achados científicos de amanhã. De toda forma a aparição de efeitos de despersonalização, alucinações breves e sentimentos de desrealização, podem ser desencadeados pelo contato com imagens que realizam uma parte de nossas fantasias.

Tudo se passa como se ao associar um fragmento da ficção, gerada por um filme ou uma narrativa literária, com fantasias infantis nós voltássemos a acreditar na sua realidade, assim como um dia acreditamos. Diante disso somos levados a completar o resto da fantasia introduzindo sons, vultos e impressões que não estão lá, mas que são vividos desta maneira, como um “sinal de realidade” que toda nossa mitologia infantil poderia ser despertada.    

Exemplos de fantasias infantis comuns são a de nós não somos filhos legítimos de nossos pais, de que eles são impostores e que nossos verdadeiros pais estão em outro lugar. Fantasias de que as mulheres ficam grávidas porque ingerem um determinado alimento, que é expelido como crianças pelo ânus, ou de que podemos engravidar sentando em um lugar quente onde outro homem havia sentado antes.

Na adolescência tais fantasias vão sendo lentamente postas à prova e substituídas por um novo sentido de realidade. Por isso uma inquietação típica da adolescência é aquela que nos fez perguntar se existem filmes ou imagens que desencadeiam processos mentais “estranhos” em nós. Por exemplo, “Poltergeist” é um filme de 1982, dirigido por Tobe Hopper, no qual uma criança parece receber sinais da televisão que aparece misteriosamente ligada durante as madrugadas. Mas estes sinais surgem quando a televisão entrava no modo “estática”, ou seja, quando sua tela assumir um chuvisco cinza, barulhento, indicando que a transmissão havia cessado e o canal estava fora do ar. Tal situação é semelhante à pergunta que certas crianças fazem sobre o que acontece no quarto dos pais quando eles trancam a porta. Onde eles estão quando os canais “saem do ar”.

A fascinação da criança que recebia mensagens com o Poltergeist (literalmente espírito brincalhão), diante da suspensão do envio de mensagens organizadas pela televisão, era uma ótima maneira de tematizar a ideologia.  É a suspeita, verdadeira em muitos sentidos de que aquele objeto não era apenas uma inofensiva televisão. O filme evoluía para mãos que sugavam pessoas para dentro da televisão e seres sobrenaturais que emergiam da tela. O problema é que depois de ver o filme a tal estática gerada pela televisão tornou-se um símbolo do “veneno da madrugada”, ou seja, esta sensação que temos quando acordamos e todos os outros estão dormindo. A angústia que deriva do fato de que nossa relação com a realidade parece se alterar substancialmente, quando estamos sozinhos. Como se a solidão externa desse luz ao bestiário interno de vozes até então suprimidas pela vida diária e suas ocupações.  

Na esteira de “Poltergeist” veio “Videodrome, a Síndrome do Vídeo” (1983) de David Cronenberg, onde cenas de tortura e violência real, supostamente rodadas na Malásia, afetavam as pessoas que recebiam as imagens de uma tal televisão a cabo pirata. A discussão sobre a realidade das imagens passou pelos filmes “snuff”, pela pornografia e pelo sexo sado-masoquista. Lembro-me até hoje de minha turma do curso de Psicologia trancada numa sala vendo o tal filme, com interesse científico em mãos, mas atentos aos fenômenos reais que podiam acontecer. A trama envolvia a construção de um “acumulador de imagens” construído pelo exército, mas que gerava efeitos colaterais no corpo daqueles que assistiam ao Videodrome, por exemplo a abertura de um orifício na barriga.  Assim como em “Poltergeist”, a tese do filme envolve a capacidade da televisão de realizar sugestões pós-hipnóticas e induzir efeitos alucinatórios de aspecto sobrenatural.

“A Bruxa de Blair” (1999) empregava um artifício semelhante mas por meio de outra estratégia. Neste caso um grupo de estudantes arma uma barraca para estudar o mito da existência de uma bruxa numa determinada floresta. Para tanto a investigação necessitava ser filmada em todos os seus detalhes. Notemos aqui a sólida convocação da ciência como parte indutora do efeito “unheimlich”.

Pois é justamente porque as imagens nunca captam a bruxa, mas apenas e tão somente os movimentos e gritos dos adolescentes, nos faziam intuir a existência de algo que não estava lá, mais ou menos como em “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) e no mais recente “Atividade Paranormal” (2007). Ou seja, neste caso não é a deformação de um aspecto da realidade, mas a supressão perceptiva de um objeto o que incita o tralho de nossa fantasia para completar a realidade faltante com a nossa própria de irrealidade íntima.

No agora clássico “O Chamado” (“The Ring”, 2002), série de três filmes, inspirada em uma versão original japonesa, que narravam a situação dramática de Samara Morgan, presa no fundo do poço em uma ilha deserta, o recurso empregado é de outro tipo. Trata-se da repetição de um mesmo sinal, que misteriosamente nos abduz para uma outra realidade, talvez existente apenas no sonho das pessoas. A chave da trama é que se um determinado telefonema fosse atendido, após termos contato com uma certa fita de vídeo, isso levaria a pessoa à morte em sete dias.

A tecnologia do vídeotape, hoje quase desaparecida, introduziu um fato novo em nossa fantasia cotidiana: um mesmo filme podia ser indefinidamente assistido na sua própria casa. Ao que tudo indica o suplemento tecnológico disponível nos fazia obter o efeito “unheimlich” desde outro procedimento, produzindo sensações de deja-vu ou de que aquilo que estamos vivendo já aconteceu antes. Na ilha-manicômio descobriu-se que Samara tinha o poder de alterar imagens e induzir efeitos alucinatórios nos outros. O truque funcionou levando pessoas a experimentar efeitos de pânico e terror com telefones, particularmente quando eles tocavam durante a madrugada. Novamente nos deparamos com esta estranhas sensações de que as ficções têm o poder de interferir e de criar estados de realidade insuspeitos, o que é verdade, sem que tenhamos que apelar para qualquer procedimento mágico ou sobrenatural.

Os efeitos de indução pós-hipnótica, descritos por Freud nos primórdios da psicanálise implicam certas condições para acontecer, tais como o rebaixamento da consciência, uma certa confiança na autoridade do hipnotizador e um estímulo visual ou sonoro, geralmente ritmado, para que a pessoa, em geral suscetível de ser sugestionada aceite as ordens do hipnotizador. É possível que as mensagens secretas, que Charles Manson ouvia a partir da música “Helter Skelter”, dos Beatles, indicando que sua vizinha, a modelo Sharon Tate, deveria ser morta, potencializaram este efeito de completamento da realidade pela fantasia, a partir de um outro ingrediente importante e perigoso: o fechamento do indivíduo em uma bolha relacional.

A família Manson, que girava em torno do seu chefe e líder Charles, era uma bolha feita para sustentar uma realidade à parte. Ora, tais condomínios psicológicos, feitos de isolamento e de recuo com relação a tudo que confronta ou desafia os valores do próprio sujeito são o verdadeiro perigo. Dentro deles Theodor Adorno, o filósofo alemão, pode ter sido o verdadeiro autor de “Helter Skelter”, como advoga Olavo de Carvalho. Contudo, um delírio não se torna mais verdadeiro apenas porque ele é compartilhado por um maior número de pessoas.

A Baleia Azul, os filmes de terror e as demais induções delirantes só funcionam a partir deste isolamento na bolha. Sem ela os filmes não nos fazem fazer nada do que já não estivéssemos fazendo antes, ainda que em nossa vida de fantasia.   

                

[1] Freud, S. (1019) O Infamiliar. Obras Incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

[2] Hoffman, E. T. A.  “O Homem de Areia” em Contos Fantásticos. Imago, Rio de Janeiro, 1989.

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