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Nova norma de financiamento do governo promove o cancelamento da ciência

Christian Dunker

14/08/2020 04h00

Movimento na biblioteca da FFLCH, na Universidade de São Paulo, na capital paulista (Cecília Bastos/ USP Imagem)

Muitas das dificuldades encontradas pela expansão do negacionismo científico podem ser atribuídas ao fato de que muitas pessoas não possuem envolvimento direto com a ciência, não sabem como ela se mantém, nem tem uma ideia, ainda que rudimentar, de como ela acontece. Uma pesquisa recente constatou que 90% dos entrevistados não sabem nomear pelo menos um cientista brasileiro, 88% não sabiam apontar uma instituição sequer que faz pesquisa no país e nenhuma universidade foi lembrada como lugar de produção confiável de conhecimento. Surpreendentemente a tendência a respeitar a ciência, gostar de temas científicos e atribuir autoridade aos cientistas é proporcional à desinformação que recai sobre ela. Uma representação sob bases experienciais tão frágeis pode ajudar a explicar porque a percepção de benefícios trazidos pela ciência caiu de 55% para 31% de 2015 a 2019,  e porque a confiança na ciência parece uma tendência decrescente.

É possível que boa parte da confiança e otimismo em torno da ciência advenha de uma confusão com a tecnologia, ou seja, objetos e procedimentos palpáveis renovam continuamente uma imagem de progresso. Por outro lado nunca sabemos porque mesmo o novo é mais caro, e como ele é efetivamente melhor. Algo análogo pode ser intuído na relação entre ciência e universidades. Como estas últimas ainda estão associadas com ascensão social, incremento e ganhos futuros, a ciência se associa vagamente com esta progressão e utilidade.

A pandemia de covid-19 ofereceu uma nova visibilidade sobre a ciência. Ela precisa estudar o funcionamento do vírus com sua capa de gordura em torno do RNA. Ela se integra com a tecnologia, na testagem e no processo produtivo em escala de massa das diferentes vacinas. Ela informa e municia a saúde pública, sugerindo regras de distanciamento social em conformidade com as curvas estatísticas de reprodução do vírus. Ela estabelece instruções sobre o comportamento protetivo, como o uso de máscaras, assim como o impacto disso tudo na saúde mental. Espera-se dela considerações éticas sobre a confrontação com a vida ou e a morte.

Ma assim como se descobre o valor da liberdade quando se a perde, estamos a discutir o valor da ciência quando estamos prestes a vê-la desmontada. Em uma iniciativa sem precedentes na história da ciência brasileira o Ministério da Ciência e Tecnologia, depois de muita confusão e em sequência a uma série de medidas erráticas, acaba de estipular áreas prioritárias de investimento em pesquisa, que definirão a distribuição de bolsas e consequentemente o investimento na ciência. Isso significa uma mudança no atual critério de distribuição de investimentos e bolsas. Atualmente cada área tem uma relativa autonomia para destinar montantes de pesquisa, segundo problemas e escolhas mais promissoras para os que estão mais próximos da pesquisa. Agora isso será feito indiretamente pelo "Estado". Contrariamente ao espírito "liberal" que comada a maior parte das políticas científicas mundo afora, aplica-se aqui o princípio do hegemonismo cultural, neste caso hegemonismo científico, que vemos constantemente denunciado pelo próprio governo.

A nova fórmula sugere que os investimentos devem ocorrer por projeto, logo nas áreas prioritárias, decididas pela "cabeça central estatal" a saber:

  • Tecnologias Estratégicas (espacial, nuclear cibernética, segurança pública, segurança de fronteira);
  • Tecnologias Habilitadoras  (inteligência artificial, internet das coisas, materiais avançados, biotecnologia, nanotecnologia);
  • Tecnologias de Produção (indústria, agronegócio, comunicações, infraestrutura, serviços);
  • Tecnologias para o Desenvolvimento Sustentável (cidades inteligentes, energias renováveis, bioeconomia, resíduos sólidos, poluição, desastres naturais, preservação ambiental);
  • Tecnologias para Qualidade de Vida (saúde, saneamento básico, segurança hídrica, tecnologias assistivas).

A lista parece ampla, mas na verdade é extremamente restrita em suas 24 categorias, comparada com as quase 1.281 descritas na tabela de áreas de ciência hoje em vigor na Capes. Observe-se que todas as prioridades são definidas como áreas tecnológicas e não científicas. Áreas inteiras como o direito e as ciências humanas não são prioridade, muito menos a matemática pura ou a chamada ciência básica, nas quais se faz o pesquisador.

O gesto é um tipo de cancelamento da ciência. O governo apoia-se em decisões que mimetizam a gramática digital: aqueles saberes que não me representam eu os cancelo e gostaria que eles não existissem. Se eles criam contrariedade e dissenção, elimine sua fonte de sustentação. Se há disputa sobre a autoridade para fazer isso, basta que eu tenha algum agrupamento de opiniões favoráveis e conte com a desinformação e a precariedade do debate.  Aquilo que não gosto coloco para fora e derrogo sua existência histórica. Aquilo que me interessa basta para representar o todo.

Diferentemente da política de muitos países vizinhos, durante muito tempo o Brasil investiu pesado na formação de um parque de pós-graduações envolvendo todos os estados e tendente a interiorização. Ao contrário de países europeus e mesmo universidades americanas de ponta, como Harvard e Yale, nós fizemos um esforço brutal para criar e manter universidades públicas de massa e ao mesmo tempo capazes de participar do universo da pesquisa científica. Isso envolve um sistema que basicamente começa na graduação, nas chamadas Iniciações Científicas, quando um aluno desenvolve sua afinidade com a temática de um determinado professor e começa a acompanhá-lo mais de perto. Depois disso, ele passa ao mestrado e ao doutorado, onde cumpre disciplinas e se integra a um determinado núcleo ou laboratório de professores. Dali para frente sua vida será ler, fazer experimentos, escrever artigos científicos e participar de congressos, seminários e encontros de sua área. Seguindo este modelo investimos no qual nossa pesquisa poderia interligar áreas diferentes com maior facilidade, uma vez que a pesquisa aconteceria em universidades com aspiração a integrar todos os saberes. A experiência obteve um resultado significativo, pois efetivamente produziu um conjunto extenso de universidades de acesso gratuito, várias delas bem colocadas em rankings internacionais. Mas com o corte de bilhões e a inadimplência das universidades federais, daqui a três ou quatro anos se poderá dizer que ela são improdutivas e compõe mais um serviço público desqualificado. Quando se observa os rankings nacionais comparando universidades públicas, que fazem pesquisa, com as privadas, onde ela é opcional, o resultado é massacrante em favor das públicas.

Aqui temos uma espécie de contraexemplo maldito. Quando ouço dizer que os impostos brasileiros são altíssimos pela qualidade dos serviços prestados, não sei muito bem como isso se aplica à saúde ou educação básica, às estradas ou cuidados com a cidade, mas no terreno da ciência isso é uma tolice. Justamente, naquela área onde o saber humano parece ser mais livre para criar e desafiar o instituído, naquela atividade que seria o objeto da mais livre concorrência entre "cérebros" as públicas derrotam as privadas, digamos por 7 a 1.

Depois de quase 30 anos de abertura para a "livre iniciativa universitária" o resultado é desastroso. Faculdades pífias, conglomerados riquíssimos, que não prestam satisfação a ninguém. Enganam alunos e oprimem professores com sistemas administrativos baeados em pactos de  produtividade mediocridade. Tudo isso baseado em financiamento estatal (não é o BNDS), via Fies e quejandos. Lugares de corrupção ordenada, impérios criados pelo favorecimento de licenciamento e concessões, proteções tributárias, no pior estilo da corrupção nacional. Ali não há doutores, os currículos são reduzidos e o resultado é um fast-food baseado na diminuição dramática da quantidade de "proteínas científicas" nos cursos de graduação.

Apesar disso tenta-se agora uma intervenção na ciência semelhante a que quase passou com a cultura. Tentam convencer as pessoas que a ciência e as universidades deveriam ser mais úteis. Segundo o verdadeiro espírito da "Universidade com Partido" escolhem dirigi-las para as áreas mais "importantes", porque rentáveis ou estratégicas, segundo seu próprio ponto de vista. Não se contentando com a redução sucessiva de orçamentos, com a troca errática de ministros da educação, com a tentativa de fundir o Ministério da Ciência e Tecnologia com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal (Capes) decretam agora a intervenção na ciência (já que no STF está um pouco mais difícil, por hora). Sem a menor coordenação entre o financiamento da pesquisa, que historicamente fica a cargo do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a formação de pesquisadores a cargo da Capes, a ideia é introduzir um dirigismo científico que colocará a perder 50 anos de investimentos na área.

A ironia é que isso acontece no mesmo ano que, pela primeira vez na história há mais negros do que brancos nas universidades públicas do país, e pela primeira vez há mais alunos egressos de escolas públicas do que particulares na USP.

O antigo ministro da economia Delfim Netto, dizia que primeiro é preciso fazer o bolo crescer, para depois disso dividi-lo melhor. Tudo se passa como se agora que conseguimos democratizar e criar um canal de ascensão social para grupos menos favorecidos, agora que chegou a hora de dividir o bolo, nós vamos jogar o creme fora, envenenar o recheio e vender as velas, porque estas sim servem para nos iluminar. Sim, há uma parte que cabe aos cientistas neste bolo. Durante anos nos preocupamos pouco com a divulgação científica, com a formação de professores de ciência e com a presença da ciência no enfrentamento dos problemas reais, inclusive políticos do país.

Viramos as costas para problemas emergentes e constituímos uma casta de burocratas fanatizados por avaliações e normas. Não fizemos por onde criar uma carreira de pesquisador, como carreira de Estado. Estimulamos a cizânia epistemológica e a hierarquização dos saberes, no mais pobre espírito de condomínio científico. Vendemos nossa alma para subir a nota na Capes, ainda que isso foi importante, até certo momento, para nossa profissionalização. Segregamos saberes em nome da pseudo-pseudo-ciência e da pureza das almas dos empreiteiros de bolsas e seus narcisismos de ocasião.  Fizemos ouvidos moucos para a exploração da mão de obra barata dos doutorandos, dos assédios e das marmeladas nos "peer reviews" [revisão por pares].

Boa parte desta operação só pode acontecer alimentada pela instrumentalização do espírito de negação da ciência como um saber de todos, feito por qualquer um, em uma língua comum que não exclui ninguém.

Foi fácil demais fazer os convidados engolirem o combo antipolítica e antiestablischment. É assim, depois de criado o fantasma da anti-universidade, que nós podemos desmontá-la quando ela se torna mais universal. Lindo jeito de fazer crescer o bolo e comer ele todo, mais uma vez. Esta força da ciência como expressão da razão foi facilmente derrubada pela lógica das opiniões e pelo culto de impressões. Ironicamente isso acontece quando a ciência se tornou mais próxima às pessoas. Por meio das tecnologias digitais é possível hoje ter acesso à maior parte dos artigos científicos do mundo. As bibliotecas se abriram e as informações ficaram disponíveis e transparentes.

Mas parece que tudo isso serviu para dizer que a cultura e a ciência são de graça. Caem do céu como a chuva e nascem de graça como as árvores. Como se não precisassem de água e pudessem ser livremente desmatadas por queimadas. Como está tudo ali, aqueles que se dedicam a cuidar do jardim só podem ser impostores, corruptos ou suspeitos. Estes que não sabem justificar sua própria utilidade.

Quando se esperava um aumento do reconhecimento da cidadania, quando a ciência e a cultura tornam-se mais inclusivas há um efeito de revolta contra os próprios instrumentos de emancipação. Efeitos destrutivos de uma subjetividade para a qual a ciência se tornou escrava da tecnologia e para quem a educação só serve como adorno ou instrumento.

A paixão da ignorância destrói as coisas não tanto pelo que ela desconhece, mas pelo que ela acha que sabe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.