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Droga, comercial ou pornô na web dão "gatilho"? Saiba o que isso quer dizer

Christian Dunker

31/07/2020 04h00

Andrea Piacquadio/ Pexels

Anos atrás estava dando uma aula de psicopatologia quando tive que entrar nos detalhes de um caso de anorexia, envolvendo os efeitos debilitantes a longo prazo da falta de nutrientes e da descompensação bulímica. Foi quando uma aluna ergueu o braço e comentou: "professor, o senhor não devia falar disso sem avisar antes porque dá gatilho". Demorei alguns instantes para entender o sentido da palavra "gatilho" naquele contexto. Depois de algum trabalho de análise de discurso se aclarou o seguinte movimento:

  1. A expressão "gatilho" surgiu no ambiente psicológico brasileiro nos anos 1990 quando a aparição do HIV-Aids reforçou as campanhas contra o consumo de drogas, principalmente as drogas injetáveis. No processo de descontinuação do uso seria muito importante localizar e depois se afastar das circunstâncias que favoreceriam o uso –por exemplo, certos ambientes, certos amigos, certas situações de ansiedade ou contrariedade– que poderiam compor os "gatilhos" que desencadeariam recaídas para cada um. Afaste-se dos gatilhos. Era essa a recomendação para aqueles que estavam demasiadamente expostos a transtornos de adicção, impulsão e compulsão.
  2. Nos anos 2000 o "gatilho" esteve associado à grande metáfora trazida pelos antidepresssivos. Segundo ela, a depressão é causada pelo desequilíbrio de serotonina, dopamina ou adrenalina no cérebro. O desequilíbrio destes neurotransmissores tem uma causa genética e independe das nossas formas de vida e são indiferentes ao modo como falamos, trabalhamos ou desejamos. No entanto, a depressão se desencadeia por meio de certos estímulos ambientais desfavoráveis, tipicamente ansiogênicos ou estressantes.
    A imagem é perfeita para quem pensa que o gatilho (trigger) é parte de uma arma, como um revólver, que dispara, sabe-se lá contra quem desde que algo ou alguém aperte o gatilho. Depois de apertado não há muito o que fazer, nos resta apenas um circuito de ações mecânicas que vão da liberação do cão (a parte traseira da arma), o choque contra a espoleta, a explosão no tambor e a emissão da bala pelo cano. Ou seja, há apenas um momento no qual podemos efetivamente fazer alguma coisa e este envolve a detecção do que para cada pessoa faz o papel de gatilho.

Segundo Orlando Coser [1], na trilha de Susan Sontag [2], as doenças convocam metáforas que tornam as explicações científicas acessíveis e encadeadas com narrativas cotidianas. Considere por exemplo, o uso corrente de expressões "ele lutou até o fim a batalha contra o câncer" ou "a guerra contra a covid fez mais uma vítima".

Nada mais antigo e hipocrático do que pensar o adoecimento como um análogo da guerra: é causada por um inimigo intruso, que debilita a unidade e funcionalidade de nossos corpos, exige mobilização de tropas de defesa imunológica (anticorpos) e um conflito para expulsar o alienígena que tomou conta de em nosso corpo.

Imagine agora aqueles que "perderam" a guerra, que não foram "corajosos o suficiente"? Metáforas sempre têm um sentido mais extenso ou menos intenso do que aquilo que elas metaforizam.

  1. Nos anos 2010 a internet tornou-se um instrumento inédito de alcance e comunicação entre os brasileiros. Com ela abriu-se o campo para a postagem de imagens de todo tipo, muitas delas envolvendo violência, erotismo e bizarrices de todas as formas. Ao mesmo tempo as metáforas cerebrais começaram a ser exportadas para todas as partes do mundo [3] como condição básica para nossa autointerpretação como uma cultura depressiva.
    Se considerarmos que os "gatilhos" tinham sido parte de nossa narrativa mestre em termos de saúde mental nas duas décadas anteriores, nada mais óbvio do que o uso de "gatilhos" como meio de atrair a atenção das pessoas, afinal isso era precisamente o tipo de estímulo contra o qual elas deveriam estar preparadas e advertidas. Mas neste ponto já havíamos cruzado um outro Rubicão em termos de saúde mental, aquele que diz que toda forma de contradição, contrariedade e conflito deve ser evitada, como uma maneira de induzir saúde mental. Ora, este é um princípio totalmente falso e em desacordo como a ideia original de "gatilho".
    Doravante, tornou-se óbvio que há uma responsabilidade "social" daqueles que enviam mensagem que podem gerar conflito.
  2. Nos anos 2020 o uso de "gatilhos" tornou-se ferramenta para o marketing e uma estratégia para aumentar o alcance e visibilidade de qualquer postagem. Formou-se uma espécie de regramento para o consumidor digital e uma moralidade baseada no consentimento prévio. Conectada com a prática da "lacração" e a cultura do cancelamento, esta moral baseia-se no direito a restrição: "apaga porque dá gatilho".
    O gatilho deixou de ser o spoiler da psicopatologia para tornar-se sinônimo de "gerou reações que eu não previa quando cliquei". Nisso mistura-se pornografia e violência com tudo aquilo ao qual fui "exposto" sem aviso prévio ou consentimento declarado de que queria receber.
    Por outro lado, os gatilhos passaram a ser entendidos também como indutores de reação, e entre elas as reações de compra e engajamento. Há gatilhos que enfatizam:
    A escassez ("compre 'djá' senão acaba");
    A urgência ("chegou a White Monday");
    A novidade ("foi lançado um novo gozofone");
    De prova social ("seja você também um boomer");
    De autoridade ("segundo Universidade Olavo de Carvalho o gatilho sempre manda");
    Reciprocidade ("experimente esta zica que não sairá do seu computador grátis por 15 dias"):
    Causalidade ("participe deste movimento pelo fim dos movimentos"):
    Antecipação ("o lançamento do século");
    Simplicidade ("você nem perceberá seu cartão de crédito gemer"):
    E cálculo do gozo ("enlarge your penis now").
    Um autor como Augusto Cury, totalmente inconsequente do ponto de vista da teorização psicológica séria, vende milhões de livros ensinando como fechar "janelas killers" e evitar gatilhos ruins para sua vida mental.

Alargado e generalizado desta maneira a noção de gatilho se aproximará curiosamente de tudo e qualquer coisa que adquire alguma reatividade em nossos complexos psíquicos.

OpenClipart-Vectors/ Pixabay

O tema foi assunto da aproximação entre Freud e Jung nos anos 1900-1910, envolvendo estudos experimentais em torno do tempo de reação, do choque e da hiperassociação gerada por uma determinada palavra. A ideia de complexo, proposta por Jung, nada mais significava do que a inclinação que alguém tem a reagir de modo "desviante" ou "tendencioso" diante de um determinado assunto.

"Complexos", como, por exemplo, o de Édipo e o parental (que funde pai e mãe em uma mesma imago), ou os complexos de  intrusão e desmame, nada mais são do que a capacidade que algumas palavras (chamadas por Lacan de significantes), possuem de atrair outras palavras, ao modo de uma cadeia repetitiva.

Durante os anos 1940-1950 o conceito foi assimilado ao desenvolvimento dos testes projetivos, inspirados na psicanálise, como o Rorschach e o Tematic Aperception Test (TAT). Neles existem certas reações às imagens apresentadas, como o choque dissociativo, que são genericamente indicativo de transtornos mais graves.

O problema de conceitos mais antigos, como os de "inconsciente", "trauma" e "complexo", é que eles se integraram de tal forma em nossa cultura que produzem uma espécie de falso entendimento naturalizado. Isso aconteceu com um dos primeiros processos de "gatilho" descobertos na história da psicologia chamado de "ataque histérico", por Janet, Charcot e Freud.  Mas ao contrário de "gatilho", que parece uma palavra moderna, séria e dotada de prestígio, "histérico" tornou-se uma palavra velha, inusual e associada com "algo que não existe, é puro fingimento, porque sua natureza é histérica".

Observemos que o uso frequentemente desqualificativo da palavra "histeria" é uma maneira de calar ou desqualificar uma forma de sofrimento historicamente ligada a mulheres. Ocorre que um ataque histérico é justamente uma síndrome psicomotora, envolvendo alteração de consciência, causada por um significante específico, que se liga ao complexo patógeno do sujeito, desencadeando reações dissociativas e de despersonalização (semivoluntárias).

Também não é um acaso que a maior parte dos "gatilhos" se ligue justamente com as duas experiências, estudadas por Freud, como possuindo valor etiológico para a gênese de sintomas neuróticos: a sexualidade e a violência. Agora pense no revólver e em como a sexualidade "dispara" processos incontroláveis e ao mesmo tempo chama a representação social de violência.

"Gatilhos" devem ser conhecidos e respeitados por todos nós, mas acontece que sua natureza singular é tal que qualquer significante pode se tornar um "gatilho", sendo impossível uma prevenção genérica contra eles. Por outro lado, a invocação do "gatilho" pode ser uma reação e um alerta difuso contra o excesso de pornografia e violência, corrente na web. Uma maneira de conter a crescente falta de educação e respeito nas trocas discursivas, tantas vezes mediadas pelo álibi irresponsável do pseudônimo.

Entre uma e outra posição gosto sempre de lembrar de quando era um jovem pai e decidi levar meu filho e meu sobrinho para ter contato direto com a alta cultura exposta ali no Museu de Arte de São Paulo, o Masp. Tentando salvá-los de coisas ignóbeis como "Os Padrinhos Mágicos",  "A Vaca e o Frango" e "Johnny Bravo", tive que enfiar minha sacola intelectual no saco diante das observações curiosas e críticas dos dois, do tipo: "tio, por que aquela mulher pelada aí está indo para aquele caldeirão quente cheio de diabos em volta?"

Cultura é risco. Quem quiser uma vida sem risco volte para "Os Padrinhos Mágicos". Mas ainda assim acho que aqueles santos em exposição erótica masoquista, aqueles retirantes famintos e aquelas cenas de guerra detonaram algum "gatilho" na cabeça dos dois.

REFERÊNCIAS

[1] COSER, Orlando (2010) As Metáforas Farmacoquímicas com as quais Vivemos. Rio de Janeiro: Garamont.

[2] SONTAG, Susan (1984) A doença como metáfora. Tradução Márcio Ramalho. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

[3] Watters, Eaton (2010) Crazy Like Us: the globalization of American Psique. New York: Simon & Schuster, Inc.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.