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Como as famílias de "Dark" representam as diferentes teorias do tempo?

Christian Dunker

17/07/2020 04h00

Divulgação

Para reduzir o spoiler, proponho aqui uma espécie de mapa para ler "Dark" como uma trama entre quatro teorias do tempo, cada qual representada por uma família ao longo de suas gerações.

"Dark" (2017-2020), criada por Baran bo Odar e Jantje Friese, derrotou "Black Mirror" e "Stranger Things", como melhor série de todos os tempos. A trama se passa na pequena cidade de Winden, no interior da Alemanha, incrustrada no que se presume ser a Floresta Negra, lugar mágico de onde se passam os contos infantis dos irmãos Grimm. A fictícia Winden é assolada pela desaparição de crianças que se repete a cada 33 anos. Nesta mistura de ficção científica e suspense podemos acompanhar o confronto entre quatro teorias sobre o tempo, cada qual representada por uma família, cada qual influenciada por uma espécie de mentor que, mais ou menos como os deuses gregos, interferem, mas não determinam completamente, o destino dos humanos. Uma caverna labiríntica e escura, no meio da qual há um portal de ferro, com a inscrição "Sic Mundus  criatus Est" ("E assim o mundo foi criado") é o meio de conexão entre o ano de 2019 para os anos de 1986 e 1953, (depois ampliado para 2052 e 1921).

Tiedmann

A família Tiedemann, que administra a usina nuclear, representa o tempo linear, com começo no gênesis e fim no apocalipse, cuja data, segundo a série, é 27 de junho e 2020.  A seta do tempo os torna obcecados com o tema das origens e pela restauração da ordem pela qual as coisas devem prosseguir, segundo a luta permanente entre luz e sombras, entre o bem e o mal. O misterioso pastor Noah comanda esta falange, cooptando crianças e enviando-as para diferentes posições temporais com o objetivo de que as coisas aconteçam exatamente como está previsto no livro.

Noah tem a tábua esmeralda, de Hermes Trismegisto, texto originário da alquimia, onde se encontra a expressão "Sic Mundus", tatuada em suas costas. Ele tem contra si Regina e Claudia Tiedemann que tentam bloquear seus planos, como uma espécie de contraface benigna do mesmo tempo retilíneo. A origem do tempo remete ao criador, assim como o fim dos tempos remeterá ao juízo final, o que se apresenta materialmente realizado por meio de um desastre atômico.

Kahnwald

A família Kahnwald parece representar o tempo circular tal como ele aparece nas narrativas míticas. Ao contrário das chamadas religiões históricas, que introduzem uma perspectiva de avanço temporal, os mitos orais se adaptam e se transformam circularmente sem que percebamos vestígios desta mudança.

Os mitos falam dos tempos originários e são transmitidos como ponto fora do tempo. Nesta medida, Jonas Kahnwald tenta reparar as situações ao longo do tempo para que tudo volte a se encaixar e as crianças sejam devolvidas aos seus próprios tempos. Que as estações do ano voltem a se suceder como sempre foram e as relações familiares continuem a se reproduzir. Ele representa a firme convicção de que seria possível voltar à posição inicial e restaurar a harmonia e a alternância natural das coisas como repetição eterna de ciclos de destruição e restauração. Talvez o misterioso Adam seja o mentor final deste eterno retorno.

Doppler

A família Doppler está associada à combinação entre a temporalidade circular do mito e a orientação progressiva e irreversível da reta cronológica. No momento em que o círculo está prestes a se fechar acontece uma pequena torção, um desencaixe que faz com que o círculo se desdobre em um espiral, concêntrica ou excêntrica, conforme o círculo subsequente seja menor ou maior do que o anterior.

Doppler está associado com as encruzilhadas nas quais alguém pode encontrar consigo mesmo em outra versão. Mais ou menos como no efeito Doppler, em física, onde a percepção sonora de um objeto em movimento varia conforme a posição em relação ao observador. É por isso que sentimos que o barulho de uma ambulância que se aproxima é mais agudo do que quando ela se afasta de nós. É o caso de Helge Doppler que está constantemente tentando negar o progresso e as circularidade do tempo, ora obedecendo e ora se insurgindo contra Noah, esquecendo de sua própria posição relativa.

Os atos de Helge, para contrariar os planos da seita "Sic Mundus", acabam por tornar possível a sua própria existência. Temos então um tratamento do problema do tempo por meio da contradição. Por outro lado, Charlotte Doppler parece ser a reverberação desta luta dialética entre o círculo indeterminado e sem sentido do mito e a reta da finalidade que orienta a experiência humana para algum objetivo, propósito ou finalidade.

Nielsen

Finalmente a família Nielsen representa os desaparecidos de uma época que surgem em outra, por meio de um túnel de minhoca. Mikkel Nielsen, Mads Nielsen, assim como Ulrich Nielsen vivem uma situação de circularidade quântica, por meio da qual um objeto enviado do futuro muda o passado, assim como algo enviado do passado altera o futuro. Eles estão presos neste loop temporal que se tornou possível graças à máquina de viajar no tempo construída por H.G. Tannhaus, o relojoeiro e autor do livro "Uma Viagem pelo Tempo". O livro é uma espécie de gato de Schrödinger, uma anomalia temporal que só existe para o que o suposto autor possa ter as informações necessárias para publicá-lo, tendo sido enviado do futuro para o passado.

Estas quatro teorias conflitantes do tempo parecem relacionar-se ao nome escolhido para a cidade fictícia onde a aventura acontece. Winden, em alemão remete ao substantivo Wind, ou seja, vento. O vento indica literalmente o sentido para onde algo vai e metaforicamente à ideia de mudança, imprevisibilidade, incerteza. Por outro lado, winden significa também torção, virada e retorno.

O sentido da vida

Ora, o sentido da vida pode ser lido tanto em termos de sua direção rumo à morte, de modo inexorável e irreversível, assim como a repetição do ciclo de renovação circular por meio do qual algumas pessoas nascem enquanto outras morrem. Contudo, há uma cidade real na província de Baden, na Alemanha, chamada Winden, e ela se localiza nas cercanias da Floresta Negra (Schwarzwald), a alguns quilômetros do grande colisor de Hádrons, o acelerador de partículas localizado na fronteira fraco-suíça.

A usina atômica construída em 1953, na Floresta Negra, onde Winden está incrustrada, vive o perigo real de um acidente nuclear,  como o que aconteceu em 1986 em Chernobyl, gerando o vento da morte, uma nuvem de radioatividde que afetou quase toda Europa. Lembremos que 1953, 1986 e 2019 são as datas cruciais da série. Aliás "escuro" em inglês, "dark", remete ao negro Schwarz, em alemão. Mas há uma quarta acepção possível que remonta a um cognato de winden, ou seja, Verschwinden, que quer dizer "desaparecer", "sumir", como as crianças de Winden ou as crianças levadas (winden) pelo flautista de Hamelin, dos irmãos Grimm. Desta forma, se poderia dizer sinteticamente, que as crianças desaparecidas (Verschwinden), foram levadas da cidade real e mítica, de Winden para um passeio em torção espiral, do futuro ao passado (winden), de tal forma a revelar o sentido, circular ou retilíneo (winden) da vida e de nossa existência.

Heidegger e Tiedemann

Se você ainda não está satisfeito com isso, considere que o filósofo Martin Heidegger (1889-1976) morava em uma cabana na Floresta Negra. A saída do túnel do tempo posicionava-se entre uma cabana e um abrigo subterrâneo, talvez um bunker da Segunda Guerra Mundial ou um abrigo antiatômico.

Heidegger já foi usado para defender uma espécie de retorno ao tempo originário da natureza, bem como criticado por sua adesão ao nazismo. Ele tinha sido seminarista na juventude (como Noah) e publicou sua obra máxima intitulada de "Ser e Tempo" (1927).  Nela a importância do ser-para-a-morte e da existência como tempo é discutida em um confronto entre circularidade e finitude da existência.

Heidegger retoma as indagações inaugurais de Santo Agostinho sobre o tempo, como intervalo entre o que "já não é" e o que "ainda não foi". Para o mestre de Hannah Arendt e Hans Jonas, assim como para a família Tiedemann, é necessário uma ato ou decisão para produzir o presente, pois ele não é mera passagem contínua do tempo. Memória e antecipação formam assim uma seta que é ao mesmo tempo progressiva e regressiva, luz e sombra, progresso e barbárie, a luta do bem com o mal.

Nietzsche e Kahnwald

Heidegger criticava a filosofia de Nietzsche (1844-1900), que  faleceu em Weimar, perto de Winden, depois de escrever "Para Além do Bem e do Mal" (1886), livro onde apresentou sua teoria do eterno retorno. Para ele nossa existência ocorre um número infinito de vezes e se define por um número infinito de recorrências cíclicas da mesma constelação de mundo. Se para Santo Agostinho e Heidegger o tempo é uma reta, para Nietzsche ele é uma estrutura circular.

Nietzsche era um estudioso dos mitos e tragédias gregas e percebeu que o que caracteriza seus heróis é que quanto mais eles tentam agir para modificar seu destino, mais eles concorrem para realizá-lo. A repetição que se renova de forma tão mais impiedosa quanto mais queremos fugir dela. Parece ser este exatamente a saga dos heróis da família Kahnwald, ou seja, da família do barco (Kahn) da floresta (Wald).

Na narrativa bíblica Jonas é enviado a Niníve para fazer sua população se arrepender antes do castigo divino. No caminho ele é envolvido por uma tempestade e é engolido por um peixe gigante que o vomita três dias e noites depois. Sua viagem recapitula a saga de heróis como o sumério Gilgamesh e os gregos Jasão e Ulisses, e também para uma grande teoria trágica do tempo, expressa nas obras de Franz Kafka (1883-1924), outro autor que trafegou nas cercanias da Schwartzwald.

Hegel e Doppler

Nietzsche, por sua vez, se opunha à filosofia de Hegel (1770-1831) que afirmava a existência de múltiplas experiências do tempo. Para o autor da "Fenomenologia do Espírito" (1807), conhecido como inventor da filosofia da história, o tempo tem uma estrutura em espiral por meio do qual cada acontecimento cria, retrospectivamente, as condições de sua própria justificação e existência.

Cada um vive em inúmeras temporalidades, todas elas realizando cadeias de determinação e contingência. Algumas delas se efetivam no que chamamos de presente, mas as outras versões irrealizadas do tempo do espírito permanecem latentes, aspirando por se tornar realidade conforme a disposição exata da contradição que as define.

Hegel foi o primeiro a perceber que o tempo e os atos do espírito se movimentam graças à força criativa da negação conservadora, também chamada de dialética. Portanto, não parece um acaso que o personagem que luta contra Adam e Noah, chame-se justamente Helge Doppler, um anagrama óbvio de … Hegel Doppler (o duplo de Hegel).

Einstein, Bohr e Nielsen

Resta-nos a família dos prisioneiros do tempo, ou seja, os Nielsen. A referência aqui parece ser dupla, ao radical que indica ninguém ou nada (nie) e a figura do grande físico e adversário de Einstein (1879-1955), quando se tratava da questão do determinismo, ou seja, Niels Bohr (1888-1965).

Esta concepção filosófico-científica envolve a controvérsia entre a física da relatividade e a mecânica quântica, no qual se mostrou que a seta do tempo não é irreversível. O tempo é reversível e até mesmo inversível em função da velocidade e da posição do observador.

Aqui o tempo tem a estrutura de um buraco de minhoca que pode voltar e engolir a si mesmo. Essa teoria aparece no livro de H.G. Tanhaus. Em "Dark" ele é o construtor da máquina que permite viajar no tempo. Mas ele só pode construí-la porque um viajante (Ulrich Nielsen) deixou um telefone celular que ele havia trazido do futuro para que ele pudesse inventá-la.

H.G. é uma referência a H.G. Wells que em 1895 publicou o romance "A Máquina do Tempo". Tanhaus é uma alusão ao protagonista da ópera de Wagner, chamada Tannhäuser, onde o herói derrota o conde da Turíngia no concurso sobre o que é o amor.

Nietzsche era amigo e admirador de Richard Wagner, até que este se converte ao cristianismo. Em seu último livro antes de enlouquecer, "O Caso Wagner" (1895), Nietzsche rompe com o compositor que teria regredido para uma mítica da valorização das origens e sua confiança no progresso.

No cinema, os portões de Tannhäuser são citados no monólogo proferido pelo replicante representado por Rutger Hauer em "Blade Runner: O Caçador de Androides", filme de Ridley Scott de 1982, inspirado no conto de Philip K. Dick:

Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas na órbita de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos estes momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer."

Na iminência de seu próprio fim, a máquina-replicante, com hora pré-programada para ser desativada, se humaniza por meio de um ato hegeliano. Movimento imprevisível e inesperado pelo qual ele salva a vida daquele que o persegue (Harrison Ford) e transmite sua experiência, prestes a se dissolver, no ciclo da repetição das gotas da chuva. E por este ato ele ganha o direito e o reconhecimento que o tornam alguém que tem direito a morrer e não apenas uma máquina que quebra e deixa de funcionar.

Ao contrário de sua própria declaração suas palavras se imortalizam na lembrança de todos nós e permanecem como testemunho vivo que o que torna alguém humano é sua capacidade de negar sua determinação "maquínica". Além de repetir o eterno retorno do mesmo, o replicante introduz na repetição uma pequena torção, uma pequena diferença dialética, que faz toda a diferença.

Tudo junto com uma nota trágica

A teoria do buraco negro, indutor das viagens através do tempo, que se materializa em "Dark", incorpora a crítica heideggeriana da técnica, a suspeita nietzscheana sobre a razão e o espírito de contradição hegeliano, mas agrega a isso uma nova nota trágica.

Contra aqueles que veem na viagens no tempo uma forma de consertar os erros do mundo, até mesmo prevenir crimes, como em "Minority Report", de Steven Spielberg, "Dark" recoloca o sem-sentido da tecnologia em outra chave. Tudo se passa como se nos futuros quânticos de Nielsen pudéssemos retroceder para a tragédia circular de Kafka, combinando o eterno retorno nietzscheano, o ser-para-a-morte de Heidegger e o desfazimento do acontecido de Hegel em um mesmo processo.

Na matéria de jornal que noticia da prisão de Ulrich Nielsen, que volta no tempo em busca de seu filho e de seu irmão, que tenta assassinar Helge Doppler, imaginando que ele é o causador das abduções das crianças, sendo preso por Egon Tiedemann, há passagens inteiras dos livros de Kafka como "A Metamorfose", "O Processo" e "O Castelo".

Todos com razão, em seu próprio tempo, em seu próprio acontecimento … infinito.

* Diferentemente do que estava escrito no texto, Gilgamesh é sumério, e não persa. O texto foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.