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Do Anonymous ao covid, uso de máscara vai mudar a lógica de nossas relações

Christian Dunker

05/06/2020 04h00

Pixabay

Em 2010 fiz algumas conferências em Dublin com um professor japonês, tradutor das obras de Freud para aquele idioma. Ele era sempre austero e como estávamos sob neve serrada decidi que meu esporte seria tentar tirá-lo do sério, por exemplo, sugerindo um jogo de futebol, com uma bola de papel no corredor da universidade ou perturbando-o no restaurante. Aos poucos ele foi cedendo aos maus modos brasileiros e iniciamos uma conversação menos formal. Foi então que ele apareceu com uma máscara, destas de pano branco, como as que temos visto por ocasião da pandemia de covid-19.

Considerei aquilo um golpe baixo, interpretando que ele estava querendo se proteger de micróbios e voltar a segurança e isolamento de seu espaço pessoal. Tive que ouvir então, para meu imenso constrangimento:

"Não, Chris, isso não é uma tentativa de me proteger de você. Acontece que amanheci gripado e uso esta máscara para te proteger de um potencial contágio."

Escutei o mesmo argumento de uma estudante da República Tcheca quando ela explicava como aquele país estaria se saindo muito melhor que seus vizinhos adotando, desde o início, o uso massivo de máscaras. Elas não ajudam você a se proteger, aliás, como elas ficam umedecidas com o tempo, pode ser que funcionem como berço para micro-organismos. No entanto, elas constituem uma tecnologia de proteção muito mais inteligente do que a mera defesa individual contra a invasão de um objeto intrusivo. Na verdade, ao protegermos o outro e ao supor que todos os outros seguirão o mesmo princípio terminaremos por ficar protegidos.

Neste sentido, a máscara não é apenas uma tecnologia de proteção, ela constitui um paradigma ético para os tempos que virão. Se insistirmos na moral da sobrevivência, segundo o princípio de que se cada um cuidar de si os outros serão beneficiados indiretamente ao estarmos reforçando um tipo de liberdade baseada no uso e abuso do que sentimos com a nossa propriedade.

Aliás, é bastante comum que o desperdício, o descuido e a displicência sejam formas de investigar os limites do que significa ter alguma coisa. Muitas crianças gostam de desmontar carrinhos, bonecas e casinhas. Alguns fazem isso para descobrir como o objeto funciona e do que ele é feito. Mas existem aqueles que desmontam brinquedos para investigar até onde algo é um objeto que pode ser possuído, pelo exercício livre da vontade. A máscara é uma espécie de exercício ético oposto disso, pois ela nos convida a exercitar a arte de despossuir a soberania sobre nossos próprios corpos.

Neste sentido a tecnologia representada pela máscara é o inverso da técnica do muro, empregada pela lógica dos condomínios. No muro, eu torno o outro invisível e perigoso. Eu me protejo dele criando uma realidade artificial onde só existem pessoas como eu mesmo. A máscara é uma forma de reconhecer a importância do outro, eu contenho minha boca, mas valorizo meus olhos.

Conversando com jovens muçulmanas que adotaram voluntariamente a prática do véu ou niqab na França ou na Inglaterra é comum ouvir que isso provoca uma valorização do olhar e que de toda forma representa um sinal de respeito.

A moralidade pública ocidental parece associar o encobrimento do rosto com a recusa em ser reconhecido, típica daquele que não quer mostrar sua verdadeira face, como é o caso dos bandidos e malfeitores. "Dar as caras" ou "dar a cara para bater" são expressões que indicam como interpretamos a transparência do rosto como sinal de autenticidade e valentia moral.

A máscara é signo da suspeita, mas também um símbolo do super-herói, ou seja, de nosso caráter dual e de nossa divisão subjetiva entre ser e parecer, entre o que se mostra e o que somos. A máscara representa a estrutura de ficção da vida em estrutura de teatro.

Se voltarmos um pouco no tempo lembraremos que Anonymous, cujo símbolo é uma máscara, é um dos primeiros movimentos sociais organizados por hackers no mundo virtual tendo por objetivo denunciar abusos de poder e excesso de controle dos Estados e corporações.

Em 2006, o filme "V de Vingança", com roteiro das irmãs Wachowski (as mesmas de Matrix) baseado nos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd, popularizou a máscara como símbolo da luta contra a opressão inspirando direta ou indiretamente os movimentos de ocupação que floresceram por volta de 2011.

A máscara servia então para indiferenciar o agente, fortalecendo assim a voz, que poderia ser "de qualquer um". Sem sofrer o deságio moral da raça, do gênero ou da classe, e ao mesmo tempo identificando-se com os que historicamente foram privados de sua palavra, os anônimos formavam um movimento de resistência.

A força do "qualquer um" já indicava a precedência do outro sobre o um, necessária aos processos transformativos. Mas isso não significaria apenas o triunfo do altruísmo sobre o egoísmo, mas uma espécie de curto-circuito e ultrapassagem dessa maneira de colocar os termos da questão.

Esta tecnologia da contraidentidade foi subitamente apropriada e invertida quando pseudônimos, robôs e perfis falsos passaram a se apropriar do anonimato para atacar outras pessoas e voltar a violência contra indivíduos e não mais contra corporações e instituições hegemônicas.   Rapidamente o anonimato digital tornou-se o procedimento básico das fake news e da pós-verdade.

A experiência da pandemia contém todos os ingredientes para produzir uma nova inversão nesta lógica da máscara. Depois dela teremos que confiar muito mais nos outros, saber que tipo de quarentena e que forma de cuidado cada qual tem consigo. Podemos mostrar os olhos, mas filtrar nossas palavras. Podemos nos ocupar do outro, porque por mais que finjamos que muitas vidas entre nós não importam, são invisíveis ou não contam, elas nos afetam biologicamente.

Corpos importam, não apenas suas vozes e seus pontos de vista, porque fazemos parte de um coletivo onde um mesmo micro-organismo se espalha. Sim, o vírus escolhe cor e classe, porque muitos não têm como se proteger e estão mais vulneráveis ou com menos condições de seguir regras sanitárias de distanciamento social. Mas não, a máscara não nos servirá de álibi desta vez.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.