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Podemos evitar o desemprego na pandemia investindo na cultura da escassez

Christian Dunker

29/05/2020 04h00

Tony Winston/Agência Brasília

Como psicólogo e psicanalista percebo como o trabalho é muito mais do que uma maneira de ganhar dinheiro. Trabalhar localiza alguém simbolicamente no mundo, faz com que nos sintamos parte de uma obra coletiva, mas também nos oferece um cotidiano composto por demandas ordenadas conferindo um certo sentido de progresso ou orientação para nossas vidas.

Para a geração de meus pais era impossível contar a história da própria vida sem se referir aos avanços, dúvidas, retrocessos e crises sofridas ao longo do emprego. Uma longa narrativa pela qual as grandes decisões e encruzilhadas podiam ser transmitidas como lições morais de sacrifício e justiça. A lógica pela qual uma geração se sacrifica a trabalhar para que a subsequente pudesse se dedicar aos estudos criava um tipo de narrativa ética que moldou gerações, criando dívidas simbólicas e regras de gratidão.

Na geração de meus filhos, o trabalho dissociou-se do emprego e a migração de uma ocupação para outra, assim como a reinvenção da carreira, uma ou duas vezes ao longo da vida, é uma perspectiva normal. Em vez da longa epopeia daquele que veio de baixo e tornou-se alguém na vida graças ao seu esforço e dedicação, tornou-se objeto de suspeita ao modo da meritocracia. Em vez do longo romance em estrutura de epopeia agora temos pequenos contos, cheiros de predação e liberdade. Nem isso nem a criminalização dos agrupamentos de trabalhadores mudam a separação ética que ainda persiste entre o "trabalhador" e o "vagabundo".

Sem trabalho aumenta o alcoolismo, a violência doméstica, a depressão e a desorganização das relações familiares e amorosas. Sem trabalho entramos no grupo indeterminado dos suspeitos, dos perigosos e dos potencialmente improdutivos.

Neste contexto surge a pandemia do coronavírus, que é a um tempo uma ceifadeira medieval de empregos, mas também uma ocasião para repensarmos nossa relação com o trabalho.

Escutando as desventuras das pessoas nesta hora pude descobrir a combinação de inépcia, atraso e irracionalidade que reina nesta matéria no Brasil.

Considere você uma empresa de médio porte que enfrenta perdas crescentes na demanda e no seu faturamento. São quatro sócios e duzentos empregados. Depois de reduzir custos e aceitar a proposta do governo de reposição e compensação salarial ainda assim os clientes continuam a reduzir pedidos. O negócio irá à falência se não se demitir pelo menos dez funcionários. Mas na reunião em que se irá enunciar as más novas, um dos trabalhadores mais antigos anuncia: "se todos nós reduzirmos 10% de nossos salários conseguimos manter todos entre nós, pelo menos por mais alguns meses".

O conceito parece óbvio e necessário para um momento de crise, na qual, se todos fizerem um pequeno sacrifício a mais, muitos serão protegidos do pior. Se todos empobrecemos juntos, a economia sofrerá menos e a solidariedade se tornará um patrimônio amealhado pela empresa para seu futuro.

Os quatro sócios se emocionam, lívidos diante de uma decisão que é muito difícil de tomar e sempre repleta de consequências psíquicas. Ninguém esquece o momento da demissão. Fica para sempre na sua memória, como uma espécie de abismo, de desamor e de perda do lugar no mundo.

Mas no segundo momento consideram uma consequência impensada: seus próprios ganhos serão reduzidos também. Pode parecer algo análogo à distribuição de lucros, bônus ou premiações que muitas empresas adotam há tempos. Mas psicologicamente não é a mesma coisa.

Aprendemos algo completamente diferente quando se trata de ganhos ou de perdas. Ganhos incorporam-se no novo normal, realizam sonhos que são esquecidos imediatamente e apenas confirmam nossas promessas de crescimento e prosperidade. Perdas são sempre imprevistas, ainda que sabidas. Não conseguimos deixá-las para trás, pois elas parecem definir quem somos.

Perdas são registradas em outra área do cérebro, área que parece multiplicar por três ou por dois nosso nível de intolerância e sensibilidade. Perder junto cria assim uma ligação que não se obtém quando o assunto é ganhar junto. Reduzir danos, de forma negociada e consentida, torna a experiência de sofrimento compartilhada uma fonte de solidariedade e transformação.

Surge então uma desagradável objeção: não é legalmente possível, no nosso país, reduzir salários sem reduzir carga horária. Ou seja, temos uma legislação que impede um ato de distribuição protetiva do prejuízo. Isso gera um perigo crescente para aquele que recebe maiores salários.

Percebe-se o espírito da lei agindo aqui para impedir que empresários aproveitem-se do aumento de oferta para reduzir progressivamente o salário de todos, conforme as flutuações do mercado, fazendo os trabalhadores pagarem pelas incertezas do negócio. Mas isso impede a aplicação de princípios óbvios de preservação e solidariedade coletiva.

Por outro lado, a redução de salários acaba acontecendo do mesmo jeito com a contratação de profissionais mais baratos e, em geral, mais jovens, em substituição aos altos salários.

No universo dos professores universitários, que acompanho mais de perto, isso gerou uma predação bizarra. Desprezo por boas formações, demissão de doutores e mestres, precarização de docentes e a emergência do pior tipo de ensino à distância são procedimentos simples para reduzir salários. Mas a negociação emergencial, em contexto de pandemia, com 13 milhões de desempregados no país e um milhão de empregos perdidos em dois meses, simplesmente não é uma alternativa.

Assim como nenhuma alternativa é dada aos pequenos empresários que esperam qualquer medida protetiva do governo, enquanto são obrigados a ouvir que em reuniões ministeriais alega-se abertamente que se os pequenos fecharem poderemos "favorecer as grandes empresas".

Perdemos uma ótima janela de oportunidade para convocar líderes das comunidades e movimentos, associações e instituições ligadas aos mais vulneráveis a participarem da distribuição de equipamentos e recursos. Uma "boiada de desregulamentações" poderá passar em meio à crise, diz um. "Povos indígenas" são odiosos, diz outro. Ou "governadores e prefeitos devem ser processados", diz a terceira. Enquanto o presidente fala em armar a população. Talvez para dar tiros na capa de gordura do covid 19?

Ou seja, quase tudo pode ser dito ou pensado, menos a minha redução de salário, condicionada à manutenção do emprego destes com quem divido o destino de minha vida, minha história e talvez de meu futuro.

Assim como lutamos para "achatar a curva" de disseminação do covid, seria possível reduzir e distender a curva do desemprego, considerando a excepcionalidade do contexto. Claro que uma lei deste tipo poderia ser imediatamente usada para o "mal" gerando uma onda de injustificadas reduções salariais, a pretexto de extorsão dos empregos, pelos empregadores interessados em manter, ou quiçá ampliar, seus níveis de lucratividade. Mas outra coisa acontece quando se está prestes a falir ou a inviabilizar o negócio. A lógica que nos impede reduzir salários de forma consentida e pactuada é a mesma que nos impulsiona a incrementar consumo, devastação ambiental e aceleração de produção.

Se há algo que esta forma de vida pode nos legar de positivo é que é possível reduzir, que uma cultura da escassez pode trazer valores importantes, que lentificar pode ser tão decisivo quanto acelerar. Novas tecnologias legislativas e contratualistas precisam ser testadas nesta hora, se não queremos apenas nos impulsionar garantidamente para o abismo de todos.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.