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O que o caso Gabriela Pugliesi revela sobre como lidamos com o sofrimento

Christian Dunker

01/05/2020 04h00

Reprodução/Instagram

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Na semana passada a influenciadora fitness Gabriela Pugliesi convocou uma festa, presencial, em homenagem ao retorno da amiga Mari Gonzalez, que havia se confinado no programa "BBB20". O fato gerou a ira de seguidores tanto por contrariar a regra de isolamento social, quanto pela ideia de festejar, de forma ostensiva, exibido opulência e felicidade em um momento de tristeza geral e consternação.

Quando afirmei que a chegada do novo coronavírus nos colocava a todos diante de uma mesma dificuldade e que isso podia convocar sentimentos democráticos como a solidariedade, recebi a objeção de que os mais pobres e as populações vulneráveis estão sofrendo muito mais do que aqueles que podem manter uma quarentena viável e dispõem de recursos financeiros para evitar exposição e risco. Isso levanta uma discussão sobre nossa facilidade para hierarquizar formas de sofrimento e estabelecer políticas discursivas conclusivas nesta matéria.

Penso que há um grande problema na comensurabilidade do sofrimento e, por isso, advogo que o sofrimento de uma vida, em sua infinita singularidade e em seus próprios termos, assim como a perda de uma vida, em toda a sua dignidade, deve ser o nosso parâmetro nesta matéria.

Assim como a abordagem pela distribuição de bens simbólicos, sociais e culturais, e assim como a controvérsia entre igualdade e equidade, penso que a temática do sofrimento pode contribuir para o debate sobre que tipo de democracia queremos. Se por um lado tendemos a perceber o sofrimento, subjetivamente, como uma injustiça, nem por isso toda negação desta injustiça nos levará a liberdade e equidade.

No contexto da pandemia, onde nosso sentimento de injustiça cresce e os conflitos associados aumentam, a comparação entre formas de sofrimento se torna mais aguda. Neste ponto a conversa pode evoluir para comparações que opõem o serviço público precarizado na periferia contra a disponibilidade de leitos de UTIs nos grandes hospitais centrais, ou o número de mortes em uma cidade em comparação a outras.

Por outro lado, a situação, em vários países, e tal como pode acontecer em alguns estados do Brasil, pode nos levar a uma saturação do sistema. Ou seja, chegar a tal ponto no qual não vai adiantar a quantidade de dinheiro, simplesmente não haverá "oportunidades" para ninguém. Uso o termo "oportunidade" aqui de modo proposital, pois ele usualmente comparece na definição de democracia como um regime onde há oportunidades iguais para todos.

Geralmente pensamos a noção de oportunidade como progressiva, como avanços e escolhas mais ou menos graduais ao longo da vida. Ocorre que o sofrimento dá ensejo tanto a demandas de reconhecimento que transformam e equalizam injustiças objetivas, no sentido democrático, quanto oportunizam o empuxo para o direito ao gozo subjetivo, autocrático.

Neste ponto alguém levantará casos como os do presidente de um grande banco português e outros tantos milionários que foram levados pelo covid-19. Pode-se objetar aqui que a morte é um fato natural e as contingências de um corpo mais debilitado nos afetarão a todos como um fato natural e não social.  Sim e não.

Freud dizia que a pulsão de morte atua estabelecendo seu próprio tempo e à sua maneira. E é neste tempo que estabelecemos uma espécie de paradigma para a experiência de sofrimento, baseada no universal de nossa finitude. Mas o problema talvez não seja o fato de que um dia vamos acabar, mas justamente como isso vai acontecer, e é aqui que entra o sofrimento.

Estudando este conceito há algum tempo parece claro que nossas formas específicas de sofrer não se reduzem à regularidade dos sintomas, orgânicos ou psíquicos. Todos nós podemos contrair tuberculose ou depressão, mas nem todos sofrerão da mesma maneira. Isso acontece porque nosso sofrimento é determinado pela forma como ele é reconhecido pelo outro, seja este outro nosso parente, chefe e amigo, seja este outro o Estado, a empresa ou o direito.

Quando recusamos reconhecer uma forma de sofrimento, no fundo, talvez queremos criticar a sua hegemonia, ou seja, a coerção que recai sobre nós de ter que sofrer de determinada maneira para poder ser reconhecido. Por exemplo, em certos lugares é preciso ter um número extenso e pronunciado de sintomas da covid-19 para poder ser acolhido em um hospital. Antes disso, aguarde em casa, às vezes sem mesmo teste ou contraprova.

Pixabay

O segundo critério do sofrimento é que ele se exprime em estrutura narrativa. Ele envolve uma história, uma rede de acontecimentos e reações, que se confunde com a história de nossa própria vida, ao contrário de uma doença que se resume, via de regra, a um nome e seu processo causal associado. Neste ponto os casos mais graves do covid são especialmente cruéis porque colocam o sujeito, entubado, em situação de difícil contato com os outros, sem poder falar, muitas vezes sem poder se despedir.

Narrativas definem-se por uma espécie de apreensão ou interpretação das causas em uma série transformativa. Uma narrativa, ao contrário de uma descrição, estabelece porque e como de A chegamos a B, e não apenas a sucessão de eventos que nos levou de A a B. Muitas vezes as ilações causais ficam por conta do leitor, mas é este fato de transformações das causas em motivos e razões que cria a narrativa com um uso da linguagem essencialmente ligado ao tempo.

Se queremos democracia, neste caso, ela deve estar do lado da possibilidade de que a história destes sofrimentos seja contada do maior número possível de perspectivas, sem exclusão ou segregação, mas também sem sobrevalorização ou demérito, de uma narrativa sobre outra.

Como se pode perceber, visto de perto, considerado o sofrimento ele mesmo, e não apenas suas causas materiais ou sociais, todos os sofrimentos são equivalentes. E esta é sua propriedade democrática. Um pai rico que perde seu filho não hesitará em dizer que compartilha a dor com o pai pobre para quem ocorre o mesmo infortúnio. Isso nos remete à terceira propriedade do sofrimento: ele é transitivista, ou seja, ele passa de um para outro, a não ser que você crie barreiras ou hierarquias de diferenciação.

Se você está sofrendo, quem gosta de você está sofrendo também. Se aqueles que você gosta sofrem, você sofre por contágio. São estes muros que me parecem profundamente antidemocráticos, pois pleiteiam uma política de sofrimento baseada na expansão de um modo particular de sofrer.

Por exemplo, quando o neto de Lula faleceu, criou-se uma campanha de punição e escárnio em torno de sua ida ao velório. Escrevi uma coluna criticando severamente esta atitude, o que muitos viram apenas como um sinal de esquerdismo. Mas quando fui atacado em uma rede social, dizendo que aquela família não merecia respeito, tomei uma foto da pessoa que me disse isso e postei de volta: " … e se tivesse acontecido com esta família?". Para minha surpresa, a pessoa quase desfaleceu do outro lado e ameaçou denunciar-me, porque aquilo não se faz. Ou seja, não é possível democracia sem transitivismo, sem um certo regime de indeterminação de como aplicamos a lei do reconhecimento.

O adoecimento e a finitude são um modelo entre outros para reconhecermos que existe uma lei, que opera em posição terceira, que engloba e permite equalizar todas nossas diferenças: a lei da mortalidade. Ela não apaga as diferenças, mas coloca dispositivos como o luto como modelo para uma universalidade requerida pelo conceito de democracia.

Quando produzimos uma hierarquia de sofrimentos, em geral o afeto que se infiltra aqui é a culpa. A culpa do privilegiado diante do vulnerável. A culpa que nos leva a considerar as condições de desigualdade é infelizmente um afeto muito pouco transformativo. Ela nos faz olhar para o passado e a punir aqueles que não sofrem como nós. A culpa é um subterfúgio frequente para evitarmos a responsabilidade e nos refugiarmos no ressentimento e na impotência.

Outro problema aqui é associar a causa do sofrimento, como a desigualdade social e econômica, com a experiência do sofrimento ela mesma, porque isso tende a "subjetivar" o sofrimento dos ricos e "objetificar" o sofrimento dos pobres, hierarquizando demandas materiais e simbólicas.

Se queremos tornar a experiência da covid 19, uma janela de oportunidade para a democracia, é preciso tomar o sofrimento, de si e dos próximos como uma responsabilidade, ou seja, uma promessa e um engajamento, conforme a possibilidade de cada um.

Mas uma verdadeira transformação vai além de responder ao imperativo ético. Ela requer um terceiro tipo de atitude que Lacan chamava de implicação subjetiva. O termo não vem do universo moral, como a culpa, nem do universo jurídico, como a responsabilidade, mas da lógica.

Implicação acontece quando nos sentimos envolvidos no processo transformativo que nos ultrapassa, enquanto formas narrativas de sofrimento que conseguimos reconhecer como próprias, dignas e válidas e outras que não seriam. Na implicação cuidamos da experiência do sofrimento como coletiva, impessoal e anônima, justamente por isso universal.

  • Erramos: Diferentemente do que foi informado no primeiro parágrafo do texto, a influenciadora fitness Gabriela Pugliesi convocou uma festa presencial em homenagem ao retorno da amiga Mari Gonzalez, que havia se confinado no programa "BBB20". Antes, o texto dizia que a amiga havia sobrevivido ao covid-19. O texto foi corrigido.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.