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Qual é a conta a se fazer para enfrentar a perda de dinheiro na quarentena?

Christian Dunker

17/04/2020 04h00

Steve Buissinne/ Pixabay

O Brasil está fazendo contas. Quanto dinheiro perderemos, quanto falta para terminar o isolamento social, quanto dinheiro receberei, quanto tempo tenho para resolver este conjunto de novas demandas que se formaram na situação de crise. É muito importante olhar com justeza e parcimônia para nossos recursos. Isso inclui nossas contas bancárias, nossas dívidas e nossos haveres. Nesta hora, o impulso para negar as incertezas desagradáveis em uma política, consciente ou inconsciente, de avestruz será sempre uma tentação.

Tenho visto pequenos desastres domésticos assumirem proporções muito maiores dos que deveriam em função do absoluto ou momentâneo descaso com o fato de que vivemos em uma condição de exceção. Quando ficamos doentes entramos em uma espécie de parênteses da vida, nos tornamos irritáveis, arrogantes e egoístas, todo o mundo parece ter que se dobrar diante de nós ou então toda a culpa do mundo cai diante de nossa cabeça. Ainda que saibamos que não é nada disso, sentimos assim.

Poucos se lembram que quando Freud foi introduzir o conceito de narcisismo em psicologia, ele o apoiou em três situações específicas: o estado de apaixonamento, a relação entre os pais e seus filhos pequenos, e a situação de adoecimento orgânico. Ocorre que agora estamos todos em uma espécie de adoecimento coletivo. Contrariados, preocupados e tomados por um enorme sentimento de injustiça. Quem ou o que teria nos amado tão pouco para nos ter enviado este malefício? Outros ainda perdem tempo maldizendo o carteiro que nos transmitiu estas más novas e os terceiros ainda estão negando o conjunto da obra, achando que nada disso está acontecendo.

Portanto, se tivéssemos que escolher um momento para negociar e apreciar o sentido da balança das justiças e injustiças este certamente seria um dos três "top 10" dos menos recomendáveis. No entanto, como sói acontecer, é exatamente agora que teremos que rever nossa contabilidade doméstica. Quem lava os pratos e quem tira o lixo? Quanto vale um tanto de roupa lavada contra o aspirador de pó e a temível lavagem do banheiro? Ou seja, temos que fazer contas em um momento no qual a carga mental confronta-se com a contabilidade do dinheiro.

Carga mental é um conceito, mais ou menos feminista, que questiona porque as mulheres, via de regra, devem se ocupar com as decisões e os planejamentos dos afazeres domésticos, para além do fato de realizarem a partilha dos afazeres. Muitos maridos reclamam que estão absolutamente dispostos a "ajudar" ou que serão benevolamente "obedientes" diante das ordens de suas esposas ou companheiras. Esta colocação deixa de lado que o encargo e responsabilidade, a preocupação e a necessidade de se antecipar a uma "ordem" direta, não lhes diz respeito. Por outro lado, a renegociação da conta doméstica pode ser brutalmente interrompida pelo argumento de que "ele" (mas nem sempre) "traz o dinheiro para casa". O que se pode dizer é que esta conversa é um círculo geralmente infernal no qual ambos saem ressentidos por não terem seu empenho e esforços suficientemente reconhecidos.

A lógica da injustiça se acumula assumindo tons preocupantemente perigosos, para o momento, no qual a violência doméstica cresce exponencialmente. Neste ponto a solução tática é relativamente simples de dizer e quase impossível de praticar: assumir, metodologicamente que estão ambos erados e que o verdadeiro problema é a extensão de serviços requeridos pela casa e pelos filhos ou a exiguidade dos recursos financeiros. Antes disso será preciso reconhece o caráter excepcional da situação enfrentada, reduzir ideais e expectativas, e declarar que a casa não seguirá funcionamento normal, porque não estamos em uma situação normal: a louça não ficará perfeitamente lavada e o pó poderá ser um problema a aceitar.

Mas este problema tem agora um correlato muito menos frequente, realmente induzido pela pandemia do novo coronavírus, a conta entre empregados, patrões, pais e escola, fornecedores, locatários e inquilinos, condôminos, precarizados, informais, freelancers e prestadores de serviços em geral.  Assim como o vírus mostrou que toda vida é uma vida, capaz de ser infectada e de transmitir, chegou a hora de reconhecer que estamos todos em um mesmo barco econômico e que não dá mais para fingir que milhões de pessoas que habitam as periferias jurídicas da economia simplesmente não existem.

Nesta situação o regime jurídico, tanto de proteção quanto de ofensividade, está parcialmente suspenso. Falência? Nem que você queira. Talvez daqui a pouco.  Claro que se você tem meios poderá mandar todos embora, deixar seu funcionário doméstico passar fome e quando isso tudo passar, voltar ao funcionamento normal (considere achar outro funcionário para evitar vingança).

Primeiro lugar, vamos ter que conversar considerando coisas como segurança alimentar e proteção ou renda mínima. Vamos ter que fazer a conta suspendendo o nosso regime geral de relação com a lei e com a justiça: igual para todos. Nesta situação a justiça não é igual para todos porque a justiça está parcialmente inoperante. Portanto, pare de pensar exclusivamente em direitos e considere, ainda que seja por esta breve quarentena, que  as obrigações morais podem ter a força momentânea de mimetizar a equidade jurídica. Você pode ter esquecido, mas antes dos contratos escritos estão os pactos feitos pela palavra. Neste quadro, que tal considerar que quem tem mais entra com mais, quem tem menos entra com menos? Cada qual segundo suas necessidades, a cada outro segundo suas possibilidades?

Assim como a sua roupa não está lavada como antes, seu funcionário não consegue produzir com o mesmo nível de excelência e presteza que ele entregava antes. Dívidas podem ser prorrogadas, mas que tal fazer isso de comum acordo?Descrevo aqui a solução encontrada por uma escola de São Paulo, que vale mais pelo conceito e pelo paradigma que pode representar do que como modelo para toda e qualquer situação. Diante da redução de custos (de cerca de 5%) e da necessidade de manter o salário dos professores, haverá uma redução nas mensalidades escolares, mas esta não se aplicará igualmente a todos. Será preciso explicar e apresentar cada situações particular de tal forma que aqueles que podem pagar mantém seu valor e aqueles em situações difíceis podem contar com o esforço adicional de escola e do resto da comunidade.

Logo se levantará a voz  daquele que dirá: mas as pessoas vão mentir para obter o benefício e apresentar uma contabilidade falsa para saírem-se melhor ainda, aproveitando-se da vulnerabilidade alheia. Sim, as pessoas podem mentir, elas podem criar versões falsas, mas será que isso não refletirá a sua incapacidade adquirida de pesar situações de dinheiro, sempre de modo impessoal e jurídico? Será que uma escola que mereça este nome não teria que, nesta hora, arriscar um procedimento inovador e pedagógico? Em vez de esperar a lentidão programada da necropolítica, que deixa matar e deixa morrer apenas com a fumaça da morosidade e dos pretextos que sempre poderão ser mobilizados por aqueles que não se dispõem a perder em nenhuma condição.

Na mesma medida esperamos o ato de renúncia parcial de seus salários daqueles que se dispõe a exercer cargo público de natureza política. Não é e não será obrigatório, mas entre o direito e a justiça, há uma história a ser contada e, para o bem e para o mal, ela virá com o fim da quarentena. É ali que saberemos quem poderá dizer que está contra a corrupção e quem só diz que isso é um problema para continuar a se beneficiar dela, dentro e fora da lei.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.