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Bolsonaro é uma desonra para os que sofrem com a verdadeira histeria

Christian Dunker

10/04/2020 04h00

Andressa Anholete/Getty Images

Em seu desastroso pronunciamento de 24 de março de 2020, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu reunir uma quantidade inédita de tolices e inconsequências. Afirmou que o novo coronavírus é uma "gripezinha" ou um ""resfriadozinho", que só representa um perigo para pessoas com mais de 60 anos, e que ele, na condição de ex-atleta, estaria protegido do contágio. Tentou criar inimigos – esta é sua retórica de campanha transformada em prática de governo – e incluiu na lista governadores, prefeitos, imprensa e especialistas em saúde.

Desrespeitando a política mundial adotada na contenção do contágio e acatada por seu próprio ministro da saúde Henrique Mandetta, ele pediu a suspensão do confinamento e das medidas de isolamento social e fechamento do comércio tendo em vista os prejuízos econômicos que isso pode vir a trazer. Recorrendo à contabilidade mórbida de que a economia não pode parar, ele menospreza vidas que serão perdidas. Mas, por duas vezes no mesmo pronunciamento, Bolsonaro se valeu da mesma palavra para diminuir a relevância e periculosidade da pandemia: histeria.

Tudo se passa como se histeria e, por extensão, seu correlato, o pânico, fossem oriundos de causas inexistentes, falsas ou dotadas de realidade meramente "psicológica". Já é passada a hora de reverter esse uso incorreto e pejorativo da histeria, principalmente como sinônimo de algo inexistente, ficcional e exagerado. O mesmo uso diagnóstico ignoram os que, do alto de sua sabedoria psicopatológica, proclamam que os histéricos querem apenas atenção.

Comecemos lembrando que essa era a conotação que a histeria tinha no começo do século 19, ou seja, uma conformação ruim do caráter moral de uma pessoa. Herdeira das bruxas e das possessas, que eram objeto da demonologia e que levaram para a fogueira milhares de mulheres inocentes, a histeria era considerada um problema feminino. Isso se deve ao fato de ter sido descrita no século 4 a.C. por Hipócrates. Em resumo, o pai da medicina afirma que a histeria ocorre nas mulheres que tem o "orifício uterino estreito" [histeros, em grego, quer dizer útero] e que "não tem relações sexuais". A "matriz ressecada" se desloca para o fígado e os hipocôndrios, causando "obstrução da passagem do ar" e "sufocação súbita". O "branco dos olhos revira, a mulher fica fria", "perde a voz imediatamente, os dentes se cerram e a coloração torna-se lívida".

O tratamento preventivo era simples: para as moças, o casamento; para a mulher casada, o coito; e, para a viúva, a gravidez. Em outras palavras, histeria é um nome que Hipócrates daria para a reação normal diante do discurso de Bolsonaro: sufocação, dentes cerrados e perda da voz. Por outro lado, histeria representa perfeitamente bem o tipo de ignorância teórica e inconsequência ética que seu discurso está a convidar.

Charcot, Janet e Freud mostraram que a histeria ocorre em homens também. Indicaram que ela foi confundida historicamente com outras doenças, como a epilepsia, por sua inclinação para a sugestionabilidade. Os sintomas da histeria se distribuem em quatro grupos: dissociação da consciência, fraqueza do corpo, ataques ou espasmos e perda da razão. Todos eles de fato compõem um diagnóstico espontâneo do bolsonarismo.

A consciência se divide em dois: amigos e inimigos, bons e maus. Depois disso é só reaplicar a divisão criando, indefinidamente, novos inimigos. Quando aparecer um inimigo real, como um microorganismo, basta fingir que este é um inimigo imaginário. Se ele ameaça te derrubar, você acha que seu corpo de atleta forte e vigoroso é capaz de te proteger de qualquer fraqueza moral ou irresponsabilidade política. Se mostrarem que você está errado, reaja com um ataque histérico atacando todos que te contrariam. Finalmente, você terá perdido toda a razão. Só lhe restará dizer que histéricos são os outros.

Bolsonaro é uma desonra para os que sofrem com a verdadeira histeria. Esta não é uma doença de mentira, mas uma espécie de síntese de muitas formas de sofrimento psíquico. Seus sintomas são formas de dizer o que não pode ser propriamente lembrado e reconhecido na história do sujeito. São símbolos de memória, que podem tomar o corpo por meio de conversões motoras, como paralisias, ou sensoriais, como anestesias ou supersensibilidades.

Freud dizia que os histéricos sofrem de reminiscências, ou seja, da incapacidade de lembrar e externar os afetos separados pelo trauma e reconhecer o desejo que ali havia. Haveria então uma espécie de fixação do sujeito em um momento de sua história que ele não consegue superar, condenando-se a repetir sem se dar conta. De fato, há pessoas que vivem nos anos 1970, com sua confiança no estado – ainda que ele pratique a corrupção em nome da luta contra os corruptos –, na crença inabalável no progresso – ainda que ao preço do desastre ambiental – e na idealização de heróis violentos e torturadores.

A histeria era uma doença associada com a mentira, a dissimulação com uma progressiva indiferença aos fatos e aos outros. A "bela indiferença histérica", como dizia Freud, era capaz de negar a realidade mais direta e os fatos mais gritantes. Para Freud, ela tinha que ver, sempre, com uma experiência sexual mal tramitada e mal gerida psiquicamente. Esse repúdio do sexual fazia com que ele retornasse "fora de contexto", por meio de reações exageradas, em momentos de perda de consciência, onde se poderia encenar, inconscientemente, fantasias sexuais recalcadas.

Lembremos que, para Freud, o conceito de sexualidade não se resume ao coito ou ao genitais, muito menos a ilações étnicas sobre seu tamanho proporcional. Sexualidade aqui inclui todas as práticas e fantasias associadas com geração de prazer: fazer cocô, urinar em público, fazer piadas de conotação homossexual, menosprezar gêneros ou gozar narcisicamente com a imagem de si mesmo.

Um traço diagnóstico deste quadro é a chamada identificação histérica. Por meio dela, o sujeito se inclina a reproduzir e imitar o desejo alheio ignorando a própria falta de autorreflexão ou distanciamento. Por isso já se disse que a histeria representa um fragmento da verdade universal que faz nosso desejo se alienar nos desejos alheios, construindo assim heróis e idealizações que nos impedem de pensar e agir crítica ou de forma autônoma. Foi este traço que conduziu a histeria a ser pensada como um quadro onde a passividade e a reatividade predominam sobre a ação e a responsabilização sobre o próprio desejo. Quando confrontado com sua própria palavra, o histérico dirá: "foi o outro que me fez fazer isso!" Quando dispõe de condições para o exercício da violência e da opressão, isso se transforma em uma lógica da agressão preventiva.

Finalmente, a histeria pode ser considerada como um conjunto de sintomas baseados em um tipo de juízo específico que Freud estipulou na forma gramatical do "eu não quero saber nada sobre isso". É do repúdio ou da negação a saber sobre o próprio desejo que nasce o recalque dos desejos, a supressão das fantasias e o ocultamento dos complexos. Eles renascerão desde o outro, que se tornará, desde então o portador da verdade insuportável que eu mesmo não posso admitir. Ele será perseguido, odiado e usado por grupos e comunidades, em organização histérica para criar segregação, preconceito e afastamento do outro. Do casamento entre o medo do objeto que vem de fora, com o ressurgimento da angústia, que vem de dentro, nascerá o pânico, que vem do todos contra todos.

Daí uma característica muito importante da histeria: a identificação com o pai todo poderoso, que, ao mesmo tempo, é fonte de admiração e temor, mas que também na primeira oportunidade se mostrará frágil e poderá ser destruído por revelar a impotência por baixo do manto de sua idealização.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.