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Arrogante... eu? Veja como identificar e curar "aquela pessoa que se acha"

Christian Dunker

06/03/2020 04h00

Freepik

Andando pelo país já há algum tempo, percebi um diagnóstico crescente mobilizado contra as elites econômica, cultural, religiosa ou política. Por mais que os argumentos sejam bons ou que a pessoa busque alguma ponderação, cedo ou tarde saca-se do bolso a palavra mágica devastadora: arrogante. Trata-se de uma variação adultocêntrica de uma crítica muito devastadora entre adolescentes, ou seja, nada pode ser pior do que "aquela pessoa que se acha".

Muitos dirão que esta observação é um tanto contraditória pois o supereu digital está a nos fazer cócegas justamente para que exerçamos nossa potência imaginária neste sentido. A partir de certo ponto aquele que "não se acha" torna-se ingênuo ou fracassado, e aqueles que não conseguem "se achar" são depressivos em potencial.

A arrogância tornou-se um significante de consenso. A direita o emprega para designar a incapacidade de autocrítica do PT e a esquerda o devolve mostrando como as atitudes ridículas, machistas e afrontosas do presidente e de seus ministros inspira-se na arrogância no uso do poder. Talvez não estejamos falando da mesma coisa, mas o exemplo se presta justamente a mostrar como o mal-entendido pode fechar o circuito da comunicação levando ao adensamento de sentimentos e convicções pouco transformativas.

Os psicólogos John Owens e Jonathan Davidson tentaram fazer uma caracterização da arrogância, enquanto um tipo clínico, com o respectivo mapeamento do funcionamento cerebral, descrevendo a Síndrome da Hubris. O termo tem sua origem nas tragédias gregas nas quais, invariavelmente, o herói cometia um ultrapassamento, cruzando o limite e a medida do humano (metron) e realizando um ato que seria próprio aos deuses de tal forma que a tragédia consiste em uma espécie de punição ou consequência para este ato para além da lei dos homens.

Por exemplo, Creonte estende um tapete vermelho para si mesmo na tragédia Antígona, e talvez em função disso sua esposa e seu filho se matam, sua palavra perde crédito e ele se vê obrigado a condenar a própria protagonista e futura nora a morrer emparedada. Neste sentido, o arrogante é alguém que se atribui poderes, saberes, dotes ou direitos que estariam além de si mesmo.

A síndrome de Hubris envolveria:

  1. Ver o mundo como um lugar de autoglorificação do próprio poder.
  2. Agir primariamente tendo em vista o engrandecimento da própria imagem.
  3. Mostrar preocupação desproporcional com a própria imagem e autoapresentação.
  4. Apresentar tom messiânico ou exaltação no modo de falar, por exemplo, usar o plural majestático "nós" em conversações cotidianas
  5. Identificar a si mesmo com o grupo, empresa ou nação de que participa.
  6. Mostrar excessiva autoconfiança.
  7. Achar que só deve apresentar contas para uma corte muito elevada, onde suas crenças e convicções poderão realmente ser julgadas.
  8. Impulsividade, reatividade e perda relativa da noção de realidade.
  9. Atribuir incompetência a todos que não seguem seu modo de pensar.
  10. Usar padrões morais elevados para evitar considerações práticas, custos ou resultados.

Se você assinalou cinco ou mais itens acima considere que você pode fazer parte do clube dos arrogantes. Por outro lado várias das atitudes acima descritas poderiam ser desejáveis para, por exemplo, um candidato a um cargo de alta responsabilidade ou funções nas quais o cuidado com a aparência e com a própria imagem faz parte do "job description", como, por exemplo, artistas, políticos ou mesmo um bom profissional de vendas.

Os que estudaram clinicamente o funcionamento da arrogância, como o psicanalista W. Bion, notaram que é o traço característico do arrogante que ele não se sente arrogante. Se deixado à sua própria sorte, com sua consciência solitária, sobre o travesseiro noturno, o arrogante sente-se miseravelmente pequeno e mal-reconhecido. Na verdade, sua arrogância lhe parecerá sempre preventiva ou defensiva em relação à dos outros. Eles não acham que sabem tudo ou que são superiores aos outros, muitas vezes são cronicamente dependentes de algumas migalhas a mais de amor. Isso explica por que aquele dócil e infeliz vai da lamúria da mesa de bar à tirania draconiana quando está atrás da mesa do chefe.

A maior parte das arrogâncias esconde uma fragilidade persistente na relação consigo mesmo. Aquela fragilidade mal tratada torna-se tão insuportável que uma parte dela é atribuída aos outros e a outra parte é invertida em seu contrário.

Encontrei grandes intelectuais que se achavam simplesmente burros, modelos cinematográficos que se sentiam, no fundo, muito feias e pessoas extremamente poderosas que viviam em crônica impotência. Mas bastava colocar um palco ou uma passarela na frente do sujeito e ele se transformava em uma águia narcísica. Inversamente, acompanhei muitas pessoas que em situação pública ou laboral mostravam-se humildes e obedientes para resplandecerem como cruéis, tirânicos e devastadores na vida doméstica ou familiar. Ou seja, dependendo do contexto nossa arrogância transforma-se em seu aparente oposto.

Chegamos assim ao nosso mal-entendido fundamental por meio do qual, por maiores que sejam as diferenças e polarizações o consenso nacional parece concordar que o Outro é sempre arrogante. O resultado não poderia ser outro senão a tragédia. O sábio de Bíblia em punho contra o artista de vanguarda que tenta lhe explicar as razões do mundo. Cada qual tentando convencer o outro a assumir sua ignorância desconhecida. No fundo, ambos lutam pela superioridade moral e demandam, secretamente, o reconhecimento do outro. Isso  não é um problema desde que não se passe a odiar a si mesmo ou ao outro porque o olhar do Outro é tão importante assim.

A arrogância tem tratamento. Ele não consiste em fazer-se vítima, invisibilizar-se ou humilhar-se em penitência por pensar, possuir ou valorizar algum traço que nos pertence. O tratamento para a arrogância não é rebaixar pretensões ou demonizar nossa ambição, que é afinal um dos nomes do desejo, mas transformar a sua diferença diferenciante em um objeto de partilha e solidariedade.

O problema do arrogante não são suas pretensões, mas a individualização destas pretensões, a exclusividade que elas carregam ou a segregação que elas implicam. Notemos que na palavra arrogante está contida a expressão rogar, que quer dizer pedir, implorar, demandar. O arrogante, no fundo, é alguém que não aprendeu como pode ser prazeroso e interessante dar. Ainda que seja dar o que não se tem, ainda que seja dar para quem não o pediu.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.