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Como passar nos testes psicológicos para seleção de emprego?

Christian Dunker

31/01/2020 04h00

Jason Coudriet/ Unsplash

Se você está lendo esta matéria achando que encontrará respostas corretas para os testes psicológicos, usados abundantemente em seleção ou entrevistas de emprego, você caiu no truque mais óbvio deste tipo de prova, ou seja, imaginar que existe uma resposta correta ou um perfil padrão desejável, em termos psíquicos ou de personalidade, ao qual você pode se adequar, enganando o selecionador usando os recurso de uma "cola" psicológica.

Você foi enganado da forma mais óbvia por meio de um estímulo "desejante", que você sabia ser provavelmente falso, mas embarcou na coisa assim mesmo. Adoramos truques, sugestões facilitadoras, manchetes atraentes e "corta-caminhos" ignorando que este é o meio mais fácil para ser enganado, por qualquer um, como acabei de mostrar.

Regra básica aqui é que os testes psicológicos não são, em geral, uma prova, na qual se pode hierarquizar as respostas e escolher quem está mais próximo ou mais diante de um ponto fixo ideal. Ter alguma ideia de quais são seus pontos fortes e mais fracos pode ajudar mais do que querer fazer um bonito figurino … falso.

Os procedimentos psicológicos dividem-se em quatro grandes grupos:

  1. Testes psicométricos que avaliam traços muito gerais, como o fator geral de inteligência que, em geral, compõe-se de tarefas muito simples, como reconhecer uma determinada regra de composição de um padrão gráfico ou perseguir uma determinada atividade psicomotora, como os antigamente empregados para avaliar candidatos a carta de habilitação para dirigir automóveis.
  2. Escalas de avaliação, que em geral parte de um entendimento genérico das personalidades humanas e verificam o perfil do candidato tendo em vista certas disposições de personalidade, tais como como a abertura para a experiência (openness to experience), conscienciosidade (conscientiousness), extroversão (extraversion), neuroticismo ou instabilidade emocional (neuroticism), amabilidade (agreeableness), ou então perseguem perfis psicopatológicos como a depressão, a ansiedade e o déficit de atenção.
  3. Provas neuropsicológicas, nos quais certas tarefas são avaliadas de modo comparativo de forma a determinar perdas de funções psicológicas como memória, atenção, organização do pensamento ou coordenação viso-motora. Neste caso temos tarefas relativamente simples, mas que vão se tornando mais e mais complexas pois o objetivo é determinar o nível do candidato em relação a ele mesmo.
  4. Procedimentos projetivos, nos quais se oferece um padrão relativamente ambíguo, do ponto de vista perceptivo ou narrativo e evoca-se no candidato um tipo de completamento da situação, onde aparecerão as tendências latentes do candidato, bem como seus mecanismos de defesa inconscientes.

No caso da competição por um emprego um elemento muito importante é a forma como a pessoa interpreta ou se coloca na própria situação de avaliação. Ou seja, a prova envolve, ainda que não se resuma, ao próprio posicionamento diante da prova. Há aqueles que partem desesperadamente para saber o que devem responder, o que é o correto e desejável e o que é o incorreto e indesejável. Ora, isso reflete uma atitude de excessivo ajustamento à situação, o que pode ser ótimo para cargos que envolvem obediência, mas será certamente desaconselhável para aqueles que exigem autonomia e senso crítico para pensar mais além do esperado. Inversamente há aqueles que interpretam a situação nos termos da valorização da sua própria autenticidade e se portam, de modo pouco errático em relação à interpretação das expectativas que sobre eles recaem.

Os testes psicométricos e as provas neuropsicológicas são muito difíceis de burlar. Seria como alguém treinar para ser mais inteligente. Se der certo, vai ser a longo prazo. É como aprender a jogar xadrez bem. Você decora as aberturas, evita grandes erros, mas no final se o outro está em um nível superior prepare-se para perder.

Os procedimentos neurológicos são igualmente "intreináveis". Experimente um jeito de adquirir uma memória muito melhor do que a que você tem… rapidamente.  O mais provável é que você entregue seu dinheiro e seu tempo a algum método feito para enganar incautos.

As escalas de avaliação são o tipo de procedimento mais instável pois elas demandam alguma sinceridade na maneira de responder a questões de valência moral ou de ambiguidade cognitiva. Há muita discussão sobre o uso deste tipo de escala em situação de seleção profissional pois, afinal, isso implicaria em favorecer certos perfis em detrimento de outros, assumindo-se que estes perfis possuem, genericamente, uma forte dependência, na interpretação do selecionador, em termos do corte de raça, gênero, classe e etnia. Isso, no limite, geraria uma tendência de repetição do mesmo perfil dos que lá já estão, com as prevalências que se pode imaginar.

Cada um dos testes se desenvolveu a partir de uma certa perspectiva de entendimento sobre o sujeito psicológico. Os testes de nível psicométrico pensam o sujeito a partir de uma distribuição de aptidões em uma curva normal do tipo Gauss. Eles são úteis quando se quer saber a posição de alguém quando se considera em comparação com milhões de outras pessoas.

O nível de redução que temos que fazer aqui para poder comparar as pessoas é muito grande, portanto, o grau de excepcionalidade que se obtém é proporcionalmente equivalente ao achatamento de muitos outros predicados de uma pessoa. Por exemplo, alguém fora da curva em termos de inteligência pode ser um mentecapto moral ou amplamente deficiente em termos de trabalho em grupo.

As escalas de personalidade conseguem agrupar perfis diferentes, reconhecendo assim que habilidades distintas apresentam ganhos e perdas em ambientes distintos. As provas neuropsicológicas  têm uma outra racionalidade, pois comparam o indivíduo em relação a si mesmo ao longo do tempo, ou o comparam em relação às médias muito genéricas obtidas pela população em geral.

Pixabay

Rorschach

Finalmente, temos os procedimentos projetivos. Eles se inspiraram no conceito psicanalítico de projeção, adaptado inicialmente por clínicos como Rorschach e Zulliger. Eles tem a ambição de descobrir a combinatória singular de reações e disposições daquele sujeito. Sua diferença e não sua igualdade para com os outros. Eles baseiam-se na ideia de que nossa reação, inclusive nossa reação perceptiva a certos estímulos indeterminados evoca em nós um completamento da mensagem, que segue os anseios e desejos de nosso inconsciente. Eles apelam para um outro ângulo do que não podemos treinar ou planejar em nós mesmos. Experimente ensaiar um ato falho, ou preparar-se para ser enganado ou para se enganar (autenticamente). Experimente dizer para si mesmo: "nesta noite eu vou sonhar com …"

Suzane Richtofen preparou-se para a prova de Rorschach na prisão, deu todas as respostas não desviantes, mas ao final não conseguia explicar para o aplicador onde ela teria visto o que diz que viu. A regra aqui é a seguinte: tudo aquilo que você odeia em você mesmo, que não consegue perceber em si, que te torna alérgico e intolerante com as suas partes menos conhecidas, tudo isso será visto projetado e depositado no Outro, que será percebido como repleto de figuras horrendas, vampiros e morcegos, partes interiores do corpo humano ou danças macabras. Você poderá ter choques e repúdios inesperados a tudo aquilo que desperta seus demônios interiores que você represa a grande custo psíquico. Você verá como seu complexo de normalidade está feito de projeção de suas loucuras, não assumidas, nos outros.

Contudo, o jogo de gato e rato entre os aplicadores de provas e os preparadores de entrevistados tende a desaparecer. Os testes psicológicos são uma estratégia reduzida para ver como a pessoa reage em um ambiente "controlado", com os estímulos comparativos que definem o texto. Isso era uma estratégia pertinente quando não se tinham acesso a dados reais de como as pessoas se comportam em tempo real, considerando-se longos períodos.

A má nova é que você já está fazendo testes de personalidade, nível, perfil neuropsicológico e projetivo sem saber.  Tomemos os testes de personalidade mais badalados do momento, inspirados nos "big five", como eles foram feitos? Examinou-se a lista imensa de predicados psicológicos, presentes nos diferentes testes ao longo do tempo e percebeu-se que eles poderiam ser agrupados nestas cinco tendências. Ora, as cinco tendências são relevantes simplesmente porque elas são tendências, não porque elas refletem alguma organização cerebral ou uma equação psicodinâmica.

Os big five são o retrato do que já existe, devolvido para você na forma de uma destruição de categorias. Com se pode intuir, sair das caixinhas é uma tarefa bem mais complicada do que enganar o que se espera do outro. As caixinhas são feitas pelo que você mostrou para o outro. Ele não inventou nada, só organizou o que já existe e devolveu para você, para você ter este agradável sentimento de que pertence a algum lugar, tem um nome e está em alguma posição na lista.

O teste de admissão que você já está fazendo sem saber são seus dados criados e distribuídos livremente no Facebook, no Instagram ou no Twitter. Com eles não precisamos de aproximações, médias e cortes comparativos do seu desempenho, temos uma imagem real de como você se comportou, em relação a tudo isso no passado, com curvas e algoritmos que rapidamente estarão disponíveis na forma de algoritmos personalizados.

Você acha que escapou de tudo isso porque não tem redes sociais? Ledo engano, algo análogo estará disponível pelo seu perfil de compra e engajamento.  Você não quer mostrar isso para os outros? Ok, será como dizer assim: com medo de ser comparado com os outros eu não fui à escola, não fiz vestibular e nem quero preencher meu Curriculum Vitae.

No futuro as entrevistas de empregos serão discussões abertas entre você e seu passado virtual. É nesta hora que veremos a verdadeira face dos fazedores de perfis falsos, dos haters profissionais, dos que sofrem de diarreia ou impulsividade verbal, dos que cultivam preconceitos e propensões políticas totalitárias, dos que frequentaram cronicamente programas de Q.I. rebaixado, consumiram demasiado lixo cultural ou simplesmente dos que terão poucos dados para mostrar e entrar no páreo.

Percebermos também curva ascendente ou descendente das habilidades cognitivas ou afetivas básicas.  O nível de repostas projetivas será muito fácil de aprender considerando o teor da conversa dominante hoje na rede. Minha filha foi parada recentemente na fronteira entre Israel e Jordânia, enfrentando um duro interrogatório, simplesmente porque seu passaporte era novo demais. Talvez será o futuro: os suspeitos se tornarão os que não conseguem comprovar a falta de desvios no passado.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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