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Divisão política produziu o Natal entre ruínas. Esta também é sua história?

Christian Dunker

20/12/2019 04h00

Pixabay

Por motivos políticos o Natal do ano passado quase foi cancelado em minha família. Salvou-nos uma prima que mora na Suíça e veio com a ideia de nos encontrarmos em território neutro, para não deixar a data passar em branco. Corria tudo inesperadamente bem até que minha querida tia alçou o seguinte comentário: "adorei sua entrevista na televisão". Silêncio espesso. Pontos de mira laser, em vermelho imaginário, começaram a aparecer na testa dos convivas. Meu filho engatilhou sua metralhadora verbal 0.40, semiautomática e minha filha abriu as ventas no estilo dragão cospe fogo.

Mandei um olhar tipo professor Dumbledore: "calma gente, é a tia querida". Perguntei o que ela tinha achado da entrevista. "Foi ótimo! Ainda bem que você não é de esquerda, né?". Ouvi aquele clique metálico das línguas, soltando as travas de segurança do palavrório e o fogo do dragão queimando o peru. Tentei ganhar tempo. "Tia, você viu a entrevista até o fim, mesmo?" "Vi sim, você estava lindo. O Brasil é que está uma tristeza. Tudo porque o PT mandou matar milhares de pessoas, roubou nosso dinheiro e apoiou aqueles venezuelanos".

Na condição de sobrinho querido eu estava envolto pelo manto da proteção invisível que recai sobre as boas pessoas desta família. Desde que usasse o tom de voz certo estaria eternamente encoberto pelo "cone desescutador". Não importa o que dissesse ou argumentasse, na ceia de Natal ou no horário nobre, em cadeia nacional ou na mesa da cozinha, continuaria a ser o pequeno Kiko que gostava de espirrar água no tapete da sala.

Quem nos conhece melhor do que aquela tia que nos viu crescer? O truque aqui é que este "nós" que serve de abrigo e porto seguro para nossas crises identitárias é também composto por uma ficção que se reatualiza a cada ano, ganhando ares de realidade. No fundo, o Natal nos coloca em contato com versões passadas de nós mesmos. Apesar de termos mudado profundamente ainda continuamos a ser o sobrinho querido e peralta. Mas essa narrativa corre em paralelo com as outras especulações sobre o mundo e seu destino trágico ou cômico. Ocorre que este estado de exceção intransponível e protetor, no qual embalamos nossos queridos natalinos, parece imune à lógica do preconceito e agressividade que podemos ter com relação a estes mesmos parentes quando eles migram para outro grupo de pertinência, político, econômico ou narcísico. Ou seja, tudo se passa como se Batman e Bruce Wayne fossem juntos à mesma festa.

Voltando ao Natal passado.  Estávamos na escadaria da Universidade de Freiburg, entre as duas estátuas de Platão e Aristóteles, na antológica Faculdade de Teologia e Filosofia. No topo do prédio, de uns cinco andares, lia-se em letras góticas a expressão "Ewig Deutschtum", algo assim como "Germanidade eterna", um famoso dito nazista.

No final da Segunda Guerra Mundial os americanos bombardearam a cidade e a fachada ficou parcialmente destruída. Surgiu então o dilema: seria melhor reconstruir tudo e apagar o passado nacional-socialista do lugar ou manter o frontispício para nunca esquecermos de como a coisa aconteceu?

Resolvi apresentar o dilema para minha tia. Mencionei que ali tinha dado aula um tal de Husserl, um dos maiores filósofos do século passado, especialista em matemática e ciência, que teve que se aposentar porque era judeu. Seu aluno, Martin Heidegger, tornou-se reitor da universidade, apoiando os nazistas em seu discurso de posse. Depois disso Heidegger envolveu-se com sua aluna, Hanna Arendt. Ela estudou como as pessoas comuns podem fazer maldades incríveis só porque acham que estão seguindo ordens. "Sim, tia, pessoas inteligentes também fazem bobagens horríveis. Não, tia, Heidegger não era comunista".

Muitos nazistas, assim como vários simpatizantes da ultra-direita, apoiaram a causa simplesmente para aumentar suas chances de subir na vida. Eliminar, real ou simbolicamente, inimigos políticos e concorrentes comerciais é uma fantasia que ressurge em momentos de penúria e escassez. O aprofundamento de preconceitos e estereótipos é perigoso porque estimula tais fantasias de que o mundo seria um lugar melhor se tivesse menos gente nele.

"Ouvi no rádio que o nazismo é de esquerda", comentou minha tia. Tive que explicar que isso era mentira, que o governo alemão fizera uma declaração oficial sobre isso e que os nazistas não perseguiram só judeus, mas também ciganos, negros, homossexuais, estrangeiros e … comunistas. Eliminaram crianças especiais, pacientes crônicos e doentes mentais, dizendo que eles representavam um alto custo para o Estado. No final, até mesmo os velhos eram levados para os campos de concentração pois eram um peso para a sociedade. "É melhor deixar a tal frase lá e cima. Serve para lembrar a história, senão as pessoas esquecem", murmurou minha tia.

Durante este ano de 2019 a alternativa entre apagar tudo e começar do zero ou reconstruir a partir das ruínas, esteve muito presente para mim. Vi como as pessoas podem evoluir mal e se apequenar quando interpretam que o mundo se tornou um lugar horrível, cheio de gente egoísta e violenta. Não é que isso seja falso, mas também não é verdadeiro. Percebi também como a suposição de que os outros são pessoas pérfidas e insensíveis interrompe conversas. Nos defendermos de pessoas tóxicas, de ambientes tóxicos, de relações tóxicas, de discursos tóxicos. Ao final selamos o casamento no nosso próprio condomínio, consagrando a profecia autorrealizadora sobre os outros.

Chegamos assim, entre ruínas e esquecimentos, ao Natal deste ano. Para muitos ele só será possível se esquecermos o Natal passado. Agir "como se nada tivesse acontecido" e atribuir as ofensas e desencontros ocorridos aos excessos etílicos e ao ambiente tóxico do país, não aos nossos próprios fantasmas familiares. Reconstruir o Natal como uma festa da memória, ainda que seja para comemorar que sobrevivemos juntos até aqui. Poderíamos assim lembrar dos que já se foram e comemorar os que estão chegando.

Esquecer pode significar perdoar, mas também negar. Assim como começar de novo, pode ser apenas um pretexto para fugir para frente, imaginando que não se deixa rastros nesta existência ou que tudo continuará para sempre circularmente igual neste Natal. Mas vamos lembrar bem como era o Natal antes da catástrofe. Ele costumava deixar um rastro enjoativo de repetição ritual, tensão entre as famílias disputando presença, martírio para filhos de pais separados ainda em guerra. Podíamos sair daqueles natais mais vazios do que entramos, ainda mais quando o excesso de presentes ou bebidas apenas denunciava a falta de alguma coisa mais. O Natal também é a consagração da mentira e dos segredos que constituem todas as famílias.

Mas agora você pode escolher o lado B do Natal. O Natal entre ruínas.  Ruínas são a essência da cultura. Ruínas são testemunhos materiais de que não há desejo que não venha de uma história de desejos desejados que o antecedeu. Deste ponto de vista não há início radical e novo, apenas o próximo capítulo da minissérie que, em geral, termina mal. As ruínas são essencialmente restos daquilo que um dia foi uma unidade integral. Uma família, ideal, que talvez nunca tenha existido é reconstruída a cada vez. Como os narizes faltantes das estátuas gregas, os vazios do Coliseu romano, os castelos abandonados da Escócia, as ruínas da história nos dão a chance de criar um novo passado a cada vez. Criar aquilo que poderia ter sido.

Por isso, o Natal das ruínas é também ocasião para balanço do que foi o ano, e que qual história queremos contar sobre ele. Balanço que é também desassossego diante de promessas não cumpridas e dos sonhos com os quais não nos implicamos. Por isso tanta gente tem medo do Natal, ele nos coloca em contato com testemunhas do que nós fomos (crianças, jovens e bebês), nos induzindo a comparação com o que nós somos e com o que nos tornamos. A chance de nos sentirmos culpados aqui é grande. Culpados diante da pálida realidade, poluídos por fantasmas e duendes internos.

Agora basta escolher, qual Natal você prefere?

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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