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Adora filtro na selfie? Cuidado, manipular sua própria imagem é perigoso

Christian Dunker

29/11/2019 04h00

S. Hermann & F. Richter/ Pixabay

Desde 2017, redes sociais como o Snapchat e o Instagram disponibilizam filtros faciais e permitem manipular imagens acrescentando certos efeitos como a implantação de focinhos de cachorro, orelhas felinas, efeitos fosforescentes, metálicos ou surrealistas. Divulguei minha coluna aqui na UOL sobre o "Coringa", aplicando uma máscara do inimigo de Batman sobre minha própria face. O filtro Beauty3000 produz ajustes automáticos permitindo escolher modelos de beleza, do tipo Plástica, Natural, Top Model, assim como variantes do tipo Cirurgia Plástica. O recurso é muito interessante quando pensamos em sua chave lúdica que nos permitiria experimentar versões de nós mesmos, mas ele pode alimentar certas disposições problemáticas, presentes em todos nós, ainda que mais agudas para alguns, particularmente em certas situações de vida.

Tais programas de maquiagem digital exploram padrões algoritmicamente determinados de beleza. Filtros como o Fix Me e Plastic chegaram a ser retirados pelo Instagram porque eles impunham uma versão excessivamente plástica, tendente a padrões de beleza por branqueamento, por exemplo.

Como todo brinquedo novo, tendemos a usar este tipo de recurso com grande variação no começo, para logo depois abandoná-lo, acabando por mobilizá-lo novamente em situações especiais ou periodicamente, em caso de crise. Tendemos a fazer reformulações de nossa imagem quando queremos iniciar ou fechar um determinado ciclo de vida. Cabelo novo, tatuagens e piercings podem funcionar como marcadores simbólicos deste tipo.

A renovação periódica de nossa imagem depende do que a psicanálise chama de sistema de identificações e mais especificamente da reposição narcísica.

O narcisismo não é uma conformação fixa, mas uma espécie de gramática capaz de conjugar diferentes modos de relação. Por exemplo, existem aqueles que precisam confirmar, de quando em quando, que continuam a ser amados, como um dia foram. Outros parecem ter uma espécie de hemorragia narcísica, que torna a demanda de amor infinita.  Outros ainda orientam-se para narcisismos de grupo ou de massa, onde valemos pelo clube que nos aceitou como sócio. Há aqueles que precisam ajustar, indefinidamente, seu sentimento de si, grandioso ou diminuído, com a imagem que supostamente os representaria "perfeitamente". Incluem-se aqui os que estão em estado de guerra permanente com o peso, com as características anatômicas do próprio corpo ou com a forma como são enxergados e reconhecidos pelos outros.

Feliz ou infelizmente não nos reduzimos ao nosso narcisismo, ainda que este tenha sido o aspecto mais destacado pela nova experiência digital. Quando as reposições narcísicas ocupam a maior parte do trabalho e do custo psíquico, temos sujeitos cronicamente vulneráveis a depressões e ansiedades.

Na verdade, o sistema narcísico encontra-se em precário equilíbrio com duas outras dimensões de nossa subjetividade: nossos sonhos ou desejos e nossas modalidades preferenciais de satisfação ou gozo. Filtros e demais manipulações digitais são relativamente inócuos quando estão apenas a serviço de nossa reposição narcísica, mas tendem a se tornar perigosos quando inflam esta atividade psíquica de tal maneira a que ela passa a ser mais importante do que nossa responsabilidade com nossos desejos ou quando passa a ser o tipo preferencial de satisfação.

Para ser um pouco mais didático: o narcisismo fala de quem "você é", o desejo do que "você quer". Cuidados com sua imagem e variações as mais constantes são ótimas desde que não esteja a serviço de renunciar ao desejo.

Os novos filtros podem-se instalar de forma sub-reptícia, de tal maneira a induzir uma espécie de superestimação constante de nossa imagem. De fato, isso tem preocupado os que estudam os efeitos psíquicos da vida digital, pois criaria uma espécie de elevação do patamar geral, rumo a um novo normal, dotado de um "a-mais" de agradabilidade, logo um "a-menos" de aprovação no contato real. Surge assim a síndrome da decepção continuada.

O dilema encontra um correlato na nova medicina, chamada também de pós-compensatória.  Na medicina clássica as medicações e intervenções cirúrgicas ou protéticas visavam sobretudo refazer o trabalho que o organismo não conseguia realizar. O modelo era homeostático, pois tendia ao restabelecimento de um funcionamento de base, definido por Bichat, como o "silêncio dos órgãos".

Contudo, com a aparição das primeiras manipulações genéticas, das drogas que levam o organismo a superar seu funcionamento de base, ou ainda das cirurgias plásticas e procedimentos dermatológicos, que não apenas reposicionam funcionamentos e tecidos perdidos, mas redobram e aperfeiçoam suas funções podemos considerar uma medicina biônica ou ciborgue. Nela é possível substituir ossos por próteses mais resistentes, aumentar a disponibilidade de neurotransmissores e acelerar o funcionamento mental, tornando alguém performativamente mais inteligente, menos sonolento, mais concentrado, menos introvertido ou simplesmente mais alegre.

Um doping narcísico  crônico e não regulado, é o que pode estar em curso com a infiltração de imagens mais positivas e esteticamente mais atraentes, simplesmente pela acomodação de filtros. O truque aqui é que a utilização destes filtros tendem a aumentar o interesse pelo uso da própria rede social, funcionando como uma espelho da madrasta de Branca de Neve, só que desta vez é um espelho corrupto, comprado para mostrar apenas o que queremos ver.

Uma ativação biônica deste tipo não levaria apenas a uma aceleração da reposição narcísica, semelhante à que se observa naquelas pessoas que depois de duas ou três cirurgias plásticas não conseguem mais parar de buscar a imagem perfeita, o que geralmente leva apenas a deformações grotescas.  Haveria também uma alteração do peso proporcional do narcisismo em relação ao nosso sistema de satisfações, estimulando a formação de uma população para a qual o prazer com a própria imagem controlada de si seria mais interessante do que qualquer pessoa real pode oferecer. Mas o prejuízo mais forte deste processo estaria nos efeitos de inibição, idealização e crítica que o narcisismo exerce sobre nosso desejo. Teríamos então uma civilização de apáticos, indiferentes e depressivos que diante da escolha entre ter uma imagem amável e segura ou desejar e ser desejado, com os riscos que isso comporta, escolheriam sempre a primeira alternativa.

Felizmente não é a primeira vez que teríamos tomado esta via, e nem por isso nos tornamos piores ou melhores. Os moralistas franceses do século 17 como La Rochefoucauld ,  La Fontaine ou La Bruyère, assim como os puritanos escoceses do século 18, como Hume e Adam Smith, ou ainda Mandeville, já nos advertiam dos perigos do amor próprio e das virtudes do egoísmo. Talvez precisemos voltar a eles para entender como do narcisismo mais exacerbado é também a matéria-prima para os desejos mais corajosos.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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