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Perfil fake, pseudônimo: os efeitos psíquicos de uma vida escondida na web

Christian Dunker

15/11/2019 04h00

Crédito: Estúdio Rebimboca/UOL

Uma das descobertas mais surpreendentes, para aqueles que começaram a usar emails e redes sociais, ainda nos anos 1990, envolvia o uso de endereços ou perfis falsos. Alterar seu nome verdadeiro, mudar de gênero, explorar fantasias sexuais em situação de anonimato –isso produziu uma autêntica revolução nos modos de produção de identidades. Muitos teóricos da modernidade, como Giddens, Bauman ou Lipovestky, passaram a falar em identidades flexíveis.

O pós-modernismo explorava a combinação de estilos e o descompromisso de gêneros. A teoria política começava a perceber a importância da identidade para as lutas por reconhecimento. Em contextos específicos, a possibilidade da dar voz e fala desde uma posição minimamente protegida é crucial. A Primavera Árabe e muitas formas de resistência contra opressão se fazem valer do anonimato, sem falar na atitude de identificação propositiva com o anônimo, como gesto fundamental de universalização do pleito pela equidade social.

"Anonymous" (2011), o filme e depois a máscara, seja ela uma antecipação do "Coringa" (2019), tornaram-se uma referência para o ativismo hacker, que se espalhou pelo mundo, junto com os movimentos de Ocupação.

Parece ter ocorrido com a função crítica do anonimato algo análogo à inversão retórica das pautas identitárias: "se você pode ser feminista, eu posso ser machista", "se existe um orgulho gay, está autorizado o orgulho hétero" e "se há um movimento negro, isso torna legítimo o supremacismo branco". Ou seja, aquilo que é uma estratégia de defesa para quem está em posição minoritária na distribuição de poder é apropriado para gerar ainda mais desigualdade.

No caso do anonimato, isso se realiza por meio do uso de pseudônimos apenas e tão somente para reproduzir padrões de opressão e violência discursiva, atualmente presentes, representando um gesto de covardia em relação à consequência das palavras em relação à função de autoria. Robôs e fazendas de likes são alimentados pelo anonimato da rede, bem como grupos de incels e demais práticas da Deep Web.

A despeito das discussões jurídicas acerca da necessidade de um marco regulatório na web pouco tem-se salientado os efeitos psíquicos, de longo e médio prazo, de uma cultura do anonimato. Não estou falando do cyberbullying e das reações de vingança e ressentimento que o anonimato faculta (como o nude). Trata-se dos malefícios subjetivos da prática continuada de uma vida em estado de inconsequência com a palavra.

Um exemplo: no contexto das eleições de 2018 fui criticado por um "anônimo" que dizia ser a psicanálise uma ciência que colaborou com o nazismo. Fiquei indignado com uma fake news histórica tão insensata. Freud era judeu, teve seus livros queimados em praça pública por Hitler e a maior parte dos psicanalistas judeus teve que fugir da Europa, deixando rastros disso até hoje em países como Alemanha e Áustria.

Diante de uma pesquisa descubro, consternado, que o autor de tal afirmativa era, ele mesmo, um psicanalista, formado por uma consagrada sociedade de psicanálise e com intervenções televisivas e públicas em nome da psicanálise. Mas o pior estava por vir: ele mesmo era judeu.

O episódio deixou-me uma vasta lição, confirmada largamente pela clínica. Protegidas pela covardia do anonimato, eventualmente produzido pelo estado de massa, ou pelo nickname digital, pessoas lincham outras pessoas. Mulas com cabeças tornam-se mulas relinchantes sem cabeça. Pessoas são capazes de dizer "qualquer coisa", ainda que isso contrarie suas próprias convicções, crenças e pertenças identitárias, quando se lhes retira o efeito de consequência que vem junto com a noção de autoria. E de fato quando nos sentimos irrelevantes, sem história a nos implicar, nem futuro a fazer frente, a palavra se torna a arte da inconsequência para produzir efeitos no presente.  A bolha não é só no espaço. É também no tempo.

A ligação da palavra com seu contexto temporal de enunciação contrasta vivamente com o seu oposto. Ou seja, a dificuldade de livrar-se da implacável memória eterna dos conteúdos escritos em formato digital. Para os gregos, o destino tinha uma relação com as três Parcas ou Moiras que teciam com a Roda da Fortuna: Cloto puxava o fio da vida, Laques esticava o quinhão que caberia a cada um e Átropos (junto com Keres, Moros e Thanatos, os deuses da morte) cortava a linha, interrompendo a existência.

Depois disso, exceto no caso de um herói, o sujeito entrava no domínio da lembrança e da rememoração até ser esquecido e integrado à sua genealogia. Ou seja, o destino de cada um se misturava e se entrelaçava com o dos outros, permitindo o esquecimento do indivíduo assim que ele se tornasse parte de uma história coletiva no qual estava representado. Desta forma, o anonimato era gradativamente efeito da integração simbólica do indivíduo a uma comunidade de destino.

Ora, no mundo do anonimato digital, tudo parece ocorrer de forma invertida ao mito. O fio de uma vida se estica indefinidamente nas páginas que se transformam em memoriais involuntários. Em vez do esquecimento, como integração simbólica, uma existência sentida como irrelevante, ao ponto de já nos sentirmos anônimos antes mesmo da covardia do uso inconsequente do pseudônimo.

Por outro lado, o fio que nos liga aos outros é também o fio que nos condena à lembrança inexorável, que guardará para sempre tolices adolescentes, arroubos apaixonados, impulsos alcoólicos e demais incontinências verbais. O direito à inconsequência sempre foi uma proteção necessária para a infância, para os estados do espírito, seja a possessão pelo ódio, o delírio ou a loucura. Mas agora tudo será condenado ao mal do arquivo, ainda mais quando nossos dados passarem a ser estruturados e as coisas se tornarem ainda mais inteligentes.

Um novo sentido de responsabilidade com a palavra precisa emergir entre a coerção arbitrária dos algoritmos e a defesa reativa do anonimato.

Responsabilidade costuma ser reduzida a uma categoria jurídica baseada na capacidade de responder por seus atos diante da lei. Mas, antes disso, ela pode ser uma poderosa indutora de tragédias psíquicas e éticas.

A corrupção começa pela inconsequência com apalavra e com o anonimato moral. Empresas inconsequentes com a produção de algoritmos com relação aos quais elas se declaram irresponsáveis. Corporações que criam muros de proteção formados por atendentes eletrônicos, sistemas de call center e códigos artificiais de compliance. Programas viciantes, como mostra o episódio "Smithereens" de Black Mirror, que domesticam nossa atenção e raptam nossa presença. Crianças acostumadas aos nicknames dos videogames tornam-se adolescentes divididos entre o excesso e a falta de consequência com a palavra, que em seguida ingressarão em uma vida errática nas instituições ou nas formas de laços sociais. Nelas, o nome pode ser a última forma-valor que resta. Jovens adultos superendividados, em confronto aleatório com a lei, incapazes de compromissos institucionais elementares ou de promessas amorosas que ultrapassem a espessura de uma noitada.

Se pudesse dar minha contribuição para uma internet menos insalubre, diria que é preciso pensar regras que reduzam o anonimato inconsequente. Talvez cada qual poderia escolher a forma como quer ser reconhecido, mas que isso não seja pretexto para que a violência se alastre pela displicência continuada com a palavra.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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