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Erotomania Digital: como a internet potencializa a paixão que nunca existiu

Christian Dunker

01/11/2019 04h00

Divulgação

Para a psicanálise, a paranoia inclui-se entre um dos tipos clínicos das psicoses, ao lado da melancolia e da esquizofrenia. Ela se caracteriza por alucinações, predominantemente acústicas (como vozes ou ruídos) e pela articulação do pensamento e do discurso em torno de uma grande teoria conspiratória.

Em seu estudo clássico sobre as formas de delírio na paranoia, Freud isolou quatro tipos de "perseguição" decorrentes da não aceitação de uma ideia desejante:

  • O delírio megalomaníaco, no qual o sujeito experimenta-se como se estivesse no centro do universo;
  • O delírio de perseguição, no qual o indivíduo interpreta que o mundo quer prejudicá-lo;
  • O delírio de ciúmes,  no qual a pessoa tem uma convicção inabalável de que alguém que o ama está cometendo algum tipo de traição;
  • O delírio erotomaníaco, no qual o indivíduo tem certeza de que uma pessoa o ama, ainda que este tenha declarado o contrário ou não tenha manifestado nenhuma evidência nesta direção. É sobre ele que vou falar mais a seguir e como a tecnologia tem interferido decisivamente nesse aspecto.

O ciúme, incorretamente chamado de obsessivo, ou possessivo, têm sido objeto de muitas obras no cinema e no imaginário popular, basta pensarmos nas obras de Nelson Rodrigues. A paranoia, apensar de ser excluída da última edição do Manual Estatístico de Transtornos Mentais, na última edição de 2013, continua a ser um tema primordial de nossos vilões, das histórias em quadrinhos e do cinema.

O termo é amplamente empregado para indicar uma relação de desconfiança ou de fixação temática no perigo representado pelos outros. A paranoia parece ser uma forma de sofrimento especialmente apta a ser instrumentalizada pelos sistemas político de produção do ódio e de inimigos a serem permanentemente vigiados ou preventivamente atacados.

Na mesma direção, a megalomania parece ter se integrado gradativamente ao universo normalopático de nossos ideais. Tornar-se alguém excepcional, acima de todos os padrões, incrível e dono de todos os méritos não parece ser o sinal preferencial que nossa época escolheu para indicar a loucura. A única diferença entre grandes benfeitores públicos e privado, com suas ideias geniais e os pobres mortais que se acham grandiosos, pode ser uma questão de tempo ou de ponto de vista.

Gostaria de chamar a atenção para a prima pobre dos delírios clássicos, meio esquecida por nossa cultura, apesar de estar cotidianamente infiltrada em nossos temores digitais. Trata-se da erotomania.

Descrita em 1921, por Gaëtan Clérambault, aliás reconhecido por Jacques Lacan como seu mestre em psiquiatria, a erotomania envolve a certeza de que uma outra pessoa, geralmente de uma classe social mais elevada do que a do sujeito, está secretamente apaixonada por ela. Às vezes a pessoa confirma tal crença ao interpretar certos sinais, enviados secretamente pelo amante. Por exemplo, gestos sutis, a escolha de certo modo de se vestir ou o uso de certas palavras, especialmente em mensagens públicas, são tomadas, no interior do código erotomaníaco, como sinais de interesse amoroso ou desejante.

Muitos fãs que experimentam sua relação com seu ídolo ao modo de uma conexão íntima ou de uma comunhão de almas, como se ele estive nas letras de música, nos seus pronunciamentos para a imprensa ou em seus atos mais triviais, confirmando seu afeto com relação ao erotomaníaco. Isso pode acontecer sem que, entre a pessoa que o tal ou a tal acredita estar apaixonada, e ele ou ela própria, tenha havido um encontro real sequer.

Formas brandas desta síndrome pode envolver um antigo amigo ou um conhecido que permanece em uma relação de suposta intimidade, ainda que não seja, em absoluto correspondido. Apesar do nome, a erotomania não é, primariamente, uma obsessão com o sexo, mas com o amor. Apesar disso, ela pode envolver um tipo de violência sexual, geralmente matizado pelo delírio de que isso seria uma espécie de tributo amoroso ao outro.

Assim como a paranoia verdadeira, de natureza psicótica, admite um equivalente trivial, ligado a certas formas de sociabilidade, a erotomania pode aparecer em formas perfeitamente integrada aos nossos modos prescritivos de amar e ser amado.

Sabe-se, por exemplo, que em instituições ou formas de vida excessivamente impessoais, como as grandes corporações, com seus códigos muito estritos de conduta e performance, florescem paranoias sistêmicas em torno de chefes que nos odeiam, de grupos que nos querem prejudicar ou de más intenções que começamos a perceber por toda a parte.

Neste sentido, experiências de intimidade, comunidade ou pessoalização de relações são um antídoto natural contra a paranoia sistêmica, mas não contra a paranoia clínica. A existência da paranoia sistêmica, assim como a integração de outras formas de sofrimento ao nosso modo "normal" de viver e de produzir,  foi investigada por nosso Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, notadamente no livro "Patologias do Social: Arqueologia do Sofrimento Psíquico" (Autêntica, 2018). Como dizia Adorno: "não é porque você é paranoico que os outros não te perseguem", ou seja, a nossa própria realidade social pode assumir formas paranoicas ou megalomaníacas.

Mas, no caso da erotomania, há um dispositivo tecnológico que parece ter se infiltrado decisivamente em seu modo de produção: a linguagem digital.

Por meio de redes sociais, sistemas de busca e a indelével incapacidade de apagar nosso passado digital são a porta de entrada infinita para a suposição de que aquele antigo amor, continua vivo e … mandando sinais. A máxima da erotomania sistêmica poderia ser esta: "você me ama, ainda que não saiba disso". Isso pode transformar um "não te amo mais" ou um "nunca te amei" em: "na realidade você está apenas esperando que eu mostre meu amor de forma melhor, mais intensa ou mais verdadeira" ou então "existem motivos secretos e impublicáveis pelos quais você se recusa a assumir o amor que sente por mim".

O medo, cada vez maior do stalker, ou seja, aquela figura que fica te seguindo e curtindo seus posts, que faz comentários sistemáticos na sua página ou que simplesmente vai em toda a festa na qual você está, é um medo da erotomania sistêmica. Por outro lado, este medo tem tornado muito difícil, especialmente para algumas pessoas, manifestar seu legítimo interesse amoroso, o que é um sinal claro de como a erotomania sistêmica inflitrou-se em nossos modos normativos de amar e ser amado.

Certos códigos, extremamente complexos e idiossincráticos para curtir uma foto no Instagram ou postar uma música do Spotify, são verdadeiros colírio para erotomaníacos latentes.

O problema é que em situação de exposição generalizada de privacidade, às vezes compulsória, dependendo da atividade do sujeito, e segundo o código de amabilidade que se espera da vida digital, a erotomania tem tudo para se tornar infinita.

Um aspecto culturalmente interessante aqui é que as descrições clássicas da erotomania afirmavam que ela era um quadro tipicamente feminino, o que tem se alterado substancialmente nos últimos tempos. Madame Bovary sofria com uma erotomania latente em sua crença de que em algum lugar, ainda que desconhecido e distante, alguém a amava profunda e inexoravelmente.

Se você está sendo objeto de uma perseguição amorosa do tipo que eu descrevi aqui, mande este texto para o seu stalker. Isso pode ajudá-lo a procurar ajuda e entender que realmente, sob hipótese alguma, você está interessado nele ou nela.  Amores reais precisam de intimidade e consentimento reais para acontecer.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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