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Porca, rato e veadinho: a guerra de emojis política diz muito sobre nós

Christian Dunker

25/10/2019 04h00

Crédito: Reprodução

Analistas de discurso estão atentos a como as variações nos modos de uso da linguagem criam padrões de poder e submissão. A forma como usamos a linguagem, é também a maneira como produzimos e reproduzimos relações entre poder, autoridade e coerção.  Com a chegada da linguagem digital, surgiu uma espécie de vácuo, pois não sabemos muito bem se usamos as regras da comunicação privada ou pública.

As plataformas que fazem a mediação e o suporte desta comunicação são precárias do ponto de vista jurídico. Elas fazem uma função pública mesmo pertencendo a empresas privadas, sem falar na opacidade dos algoritmos. Boa parte do empuxo político do mundo virtual advém justamente desta oscilação calculada entre níveis de linguagem.

Por exemplo, ao usar palavras chulas ou comentar hábitos alimentares grotescos, alguém pode ser criticado por falta de educação ou elogiado pela autenticidade da atitude. Tudo depende de como interpretamos e definimos o espaço onde estamos. Ocorre que assim como a definição de política é ela mesma parte da política, a definição do espaço já é um modo de apropriar-se dele, definindo suas regras de funcionamento e ocupação.

Essa combinação nova e explosiva ajudou a formar a cultura do ódio, cuja dinâmica pode ser entendida a partir da teoria freudiana do chiste. Postar um meme, um sticker ou um emoji é como contar uma piada, às vezes funciona, outras vezes não. Tudo depende do efeito causado.

Na recente desavença entre Joice Hasselmann e Carlos Bolsonaro vemos como a periculosidade política e a inconsequência cultural são exemplificadas. Uma guerra de emojis foi instaurada e repercutiu bastante na internet. Antes de adentrar na polêmica, precisamos voltar a Freud.

Ele dizia que o dito espirituoso depende da "paróquia" onde ele acontece, por isso ele é um fator de ligação e identificação entre pessoas. A piada cria seu público quando gera satisfação libidinal ainda que o tema da piada não seja a sexualidade. Tal satisfação pode aparecer como graça envergonhada ou riso escancarado. No fundo toda piada é uma "inside joke", depende apenas do tamanho do que consideramos como "dentro de nossa paróquia". Ou seja, o número de pessoas que "goza com nós".

O chiste, ao contrário do humor ou do cômico envolve três lugares de fala: aquele que conta, aquele que escuta e uma posição terceira que é o sujeito suposto com o qual nos identificamos para achar a coisa engraçada. Quando passamos a diante uma piada, trocamos de lugar com o contador inicial, de quem recebemos a piada e nos identificamos com esta terceira posição.

Desta forma conseguimos reabsorver um fragmento de gozo, causado pela repetição da experiência inicial de riso. Boas piadas criam assim este impulso irresistível de passá-las adiante para rirmos de novo da mesma ideia. Rir sozinho, recapitulando mentalmente o que ouvimos não se compara ao prazer de compartilhar uma boa piada. Passamos adiante, quando retweetamos ou compartilhamos, imagens, narrativas e mitos, porque passar adiante nos faz recuperar uma parte daquela satisfação que tivemos quando recebemos tais histórias. Esse mecanismo torna a piada uma espécie de miniatura da transmissão cultural.

Contudo, contar uma piada é uma espécie de negociação com as normas e com as regras, particularmente as que definem o que podemos falar e o que devemos silenciar, especialmente no espaço público. Logo, transmitir uma piada é assumir um risco cultural e político. Como distinguir a periculosidade deste risco?

Um caminho para isso seria avaliar se a piada aumenta ou diminui o tamanho da paróquia que ela cria. Por exemplo, piadas sobre mulheres, negros ou homossexuais, no fundo consolidam a paróquia dos homens brancos. Mas isso também depende de quem a conta. Piadas que trazem à luz nossos preconceitos e valores reprimidos são, por outro lado, uma ótima oportunidade para examinar tais valores, eventualmente construindo paróquias mais extensas e mais inclusivas. Uma política discursiva que simplesmente eliminasse as piadas, porque elas sempre evocam valores reprimidos, que ofendem algum tipo de paróquia, seria uma política opressiva.

Voltando ao caso entre Joice Hasselmann e Carlos Bolsonaro, presenciamos nesta semana uma guerra de emojis. O filho do presidente postou as seguintes figurinhas: um porco, um rato, uma cobra, uma galinha e uma lula.

Para entender a mensagem precisamos nos colocar no lugar da terceira pessoa e "saber que" Joice Hasselmann está sendo criticada por apoiar o presidente do PSL, Luciano Bivar, que por sua vez estava sendo criticado por Bolsonaro, em função do uso de falsas candidatas (laranjas), nas últimas eleições.

É preciso saber que Carlos estava tentando desqualificar Joice, como líder do governo no congresso, uma vez que ela tinha declarado solidariedade ao delegado Waldir, que estava sendo atacado por motivos análogos.

É preciso saber que Eduardo Bolsonaro queria tomar o cargo do delegado Waldir. É preciso saber que os irmãos Bolsonaro lutavam para obter mais cargos no governo ou em embaixadas. Este "saber" em terceira pessoa habilita o sujeito a participar da paróquia e traduzir os cinco emojis postados por Carlos em uma narrativa do tipo:

"Joice Hasselmann é gorda como uma porca. Ela aliou-se ao ninho de ratos corruptos do PSL para trair, como uma cobra, a família Bolsonaro. Devemos tratá-la como uma prostituta ou como uma galinha, que mantém relações sexuais com qualquer um. Ela deveria obedecer aos galos que mandam no galinheiro e não ao Lula, de quem está se tornando uma aliada em potencial."

Ao ser transposta para linguagem "infantil" dos emojis esta mensagem violentíssima alcança três objetivos:

(1) Sela o laço de unidade simbólica com os membros da paróquia masculina, familiar e bolsonarista.

(2) Faz com que esta comunidade sinta-se em comunhão "privada e direta" pois sanciona códigos exclusivos de decifração da mensagem.

(3) Evita assumir publicamente, para os não membros da paróquia, que o alvo de sua retórica é Joice Hasselman, fugindo ainda de potencias riscos jurídicos.

Além do conteúdo da mensagem temos aqui uma forma de comunicação que se assemelha ao uso de pseudônimos, avatares e perfis falsos usados para agredir os outros e se fazer responsável pela própria palavra. Ao invés de esconder ou trocar seu nome, Carlos esconde o nome de sua vítima, reservando-se a proteção do grupo e ao mesmo tempo mobilizando a ferocidade anônima do ódio contra ela.

Quando nos sentimos "livres" para dizer coisas ofensivas sem pagar a conta, mobilizamos nas pessoas preconceitos análogos e dizemos que eles podem ser  trazidos à tona impunemente. Aqui está o sentimento de satisfação, associado com a transgressão. Essa satisfação, como vimos, faz a piada ser passada para a frente, espontaneamente, sem que se consiga deter o processo por vias institucionais.

Aliás, esta é uma das dificuldades para conter o bullying, o assédio e a homofobia em escolas e ambientes de trabalho. Como a piada trabalha "por trás das linhas" do que é instituído, quando tentamos  reprimi-la, por meios institucionais, às vezes acabamos por potencializar sua eficácia. O assediador tende a recuar para a linha da vida privada quando é confrontado com os fatos. Ele dirá, por exemplo, que "estava brincando", que na verdade foi um "mal-entendido" ou que ele tem direito de publicar emojis de animais entre seus "amigos". Ou seja, ele reduzirá ou ampliará o tamanho da paróquia deformando as fronteiras entre espaço público e privado, conforme sua conveniência.

Quando Joice responde publicando emojis de três veados e de três ratos ela responde tentando mostrar como a virilidade de Carlos não é tão grande assim, pois ele precisa se esconder desta forma para dizer o que diz. O fato de que são três e não apenas um animal sugere que eles andam em bando, o que poderíamos traduzir por uma narrativa do tipo:

"Três irmãos veadinhos, que se sentem muito fortes só porque andam em grupo e proliferam como ratos que se aproveitam do lixo."

Mas há uma segunda narrativa embutida neste novo bestiário nacional. Ao chamar Joice de Peppa Pig, Carlos Bolsonaro não está apenas criando uma narrativa, ele está reforçando um discurso. Este discurso envolve declarações de Frota (quando era do PSL) sobre deputadas biscates, uso de decotes muito ousados e desqualificação de mulheres na política. Ele vem da campanha eleitoral onde as mulheres de esquerda forma caracterizadas como sujas.

A palavra "suja" remete a porca, tanto quanto a obesidade. Ela tem uma implantação forte com o racismo brasileiro, para os quais os negros eram considerados sobretudo sujos. A sujeira é uma das conotações morais mais antigas para falar da sexualidade inadequada. Ela é também o nexo que liga sexualidade ao dinheiro. Aliás, se diz "dinheiro sujo", como sinônimo de corrupção.

Por isso não é muito eficaz apontar que este discurso é machista e violento, (o que é evidente), porque o que ele está fazendo é dizer, em sua enunciação: "Somos machista e violentos mesmo! Ninguém vai nos impedir de continuar a contar esta piada! Quando os outros nos criticam por isso eles só fazem reforçar nossa identidade secreta."

A defesa de Joice não passa por aí. Ela diz que Carlos é como uma cachorrinha obediente, a Lassie, que ele é um covarde, ou seja, não é macho como quer mostrar.

No fundo ela foi traída por um ato de deslealdade, quando o mesmo discurso de ódio e exclusão, que os levou ao poder, é agora usado para segregá-la. Sua denúncia chave é que existe uma rede que opera perfis falsos de redes sociais dentro do Palácio do Planalto. Ou seja, ela confirma, como testemunha ocular que está havendo corrupção, entre os bolsonaristas, que eles são "sujos", porque "jogam sujo" e não são confiáveis. Desde sempre eles usam mulheres, nos esquemas de laranjas, vejam só, para operar campanhas falsas.

As piadas têm um valor pedagógico, elas são como fábulas, do tipo A Cigarra e a Formiga, que foram tão importantes para formar a moralidade no século XVII francês, ou no século XVIII alemão. Perroult, os irmãos Grimm e depois Christian Andersen exploraram fartamente o tema dos animais falantes para trazer à tona, como há mais animalidade em nós do que gostaríamos de admitir. Mas a grande e talvez única diferença entre eles e os humanos é que nós somos seres falantes, que contam piadas e reproduzem sistemas de opressão.

Quando figuras públicas se tratam em chave de fábula bestiária, elas não estão apenas lutando por seus interesses de poder, mas ensinando às próximas gerações que a falta de etiqueta hoje será a ausência de ética amanhã.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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