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Tosco brasileiro: esquerda e direita disputam a hegemonia cultural

Christian Dunker

18/10/2019 04h00

Reza a lenda que quem mentisse teria a sua mão devorada pela Boca da Verdade

Com a ascensão do governo Bolsonaro, ressuscitou-se a antiga noção de hegemonia cultural, há muito envelhecida nos tonéis de carvalho do campo da esquerda.

Ela procede de duas afirmações aparentemente contraditórias em Marx. A primeira sugere que o antagonismo social poderia ser superado, gerando uma situação na qual a cultura, como dispositivo de posicionamento de contradições sociais e formalização de linguagens, prescindiria de mediações ideológicas.

Apesar de sua importância estratégica esta conjectura apresenta-se aos nossos olhos como de impossível realização. A segunda tese argumenta que o campo da cultura não é apenas um reflexo das relações econômicas de classe, ele também admite configurações mais transformativas ou mais conservativas. Neste sentido haveria uma disputa permanente entre os diferentes grupos sociais em busca de qual expressão cultural expressaria melhor a universalidade, vetorizando e hierarquizando padrões de cultura.

Tipicamente isso se exprimiria pela subordinação da cultura popular, periférica ou alternativa à cultura universitária, intelectual ou erudita. No segundo sentido, a hegemonia cultural não é uma tarefa que tem o impossível no seu horizonte, mas uma espécie de jogo ou de estratégia que funciona como caminho para a instauração da política da emancipação. Durante essa guerra de posições, as alianças táticas e as contingências históricas e locais não deixam claro quem está realmente concorrendo para a manutenção de seus privilégios particulares e quem está lutando pela universalização da liberdade e da justiça.

O primeiro sentido de hegemonia cultural está ligado a uma espécie de tudo ou nada, de possível ou impossível (chamado então de revolução). O segundo sentido de hegemonia cultural está ligado ao contingente e à ideia de que na política trata-se de apostas nas quais nunca se sabe realmente quem está representando quem.  

O teórico italiano Antonio Gramsci tomou as duas acepções de hegemonia cultural e aplicou-as para entender a função dos intelectuais na cultura, mais especificamente no interior dos partidos. À medida que a esperança revolucionária declinava, ao longo dos anos 1970 e 1980, a esquerda foi deslocando seu eixo das reivindicações econômicas e trabalhistas para a luta em defesa do social, representada pelos direitos humanos, pela redução da desigualdade na distribuição de renda. Cada vez mais também focada na concentração do capital social e cultural.

Com isso alterou-se também o objetivo da luta: não só tomar posse do Estado, mas considerar a noção de Estado ampliado, incluindo tudo aquilo que fosse de interesse público e comum. A função do intelectual do partido, ou intelectual orgânico, era pensar a sociedade do ponto de vista da sua totalidade. Mas isso foi gradualmente substituído por intelectuais específicos, concentrados em suas áreas de domínio, cada vez mais técnicos, movimento que se fez acompanhar pela profissionalização das atividades de ensino e pesquisa.   

Gramsci deixou dois herdeiros importantes nos anos 2000, o argentino Ernesto Laclau e a belga Chantal Mouffe. Teóricos da democracia radical, eles foram responsáveis pela revisão no entendimento do que vem a ser luta de classes. Eles observaram que a expressão de identidades e a luta pelo seu reconhecimento, tanto como políticas de Estado, quanto nas micro-políticas do cotidiano tornaram-se decisivos. Isso tornou o entendimento da luta cultural aplicado a uma sociedade cada vez mais complexa, do ponto de vista das gramáticas de reconhecimento e mais híbrida do ponto de vista da experiência de identidade.

O próprio sentido da luta política se alterou aqui, perdendo importância a força organizativa e diretiva do partido, e ganhando impulso a política baseada em comunidades ou em demandas organizadas por posições flutuantes, com grande atenção aos enunciados que as organizam.

Portanto, nos anos 2010, quando a política começa a se dar conta do fator digital, isso ocorre de modo relativamente atrasado. Formou-se uma nova hegemonia cultural marcada pelo descompasso entre o processo das instituições, com suas verticalidades e hierarquias, com seus sistemas precários de representação e distanciamento, contra uma nova organização emergente das pessoas em comunidades de gosto e de crença, com suas horizontalidades e desprezo por autoridades instituídas, com uma forte ênfase na expressão e grande suspeita sobre o mundo da representação e suas imposturas.

A disputa pela hegemonia cultural assume proporções globais em uma nova plataforma. A ideia impossível de ultrapassagem das mediações e a força do projeto revolucionário assume uma configuração completamente nova.  A partir de então o conceito de ideologia é redefinido com auxílio das ideias de Lacan. Não se trata mais de teses ou ideias fixas, que seriam por si só críticas ou ideológicas, como se houvesse uma fronteira clara e distinta entre política e não-política. Agora a ideologia passa a residir no uso ou na articulação de um discurso.

Teses inicialmente críticas podem admitir um uso ideológico, conforme o discurso na qual se inscrevem. Palavras de ordem ou significantes mestres, tornam-se mais eficazes na política do que conceitos e programas de governo. Novos influenciadores surgem como aglutinadores de demandas e portadores de significantes vazios, confirmando a hipótese Laclau-Mouffe.

Movimentos em rede, resistências digitais, acesso a bases de dados científicas e literárias, barateamento e simplificação dos saberes, públicos e privados, que em menos de dez anos realizou a maior inclusão cultural da história moderna. A partir de então qualquer um torna-se um produtor cultural em potencial, com instrumentos para tratar imagem, divulgar textos, produzir vídeos e interferir em debates públicos.

A cultura e a economia criativa tornam-se parte do universo do empreendedorismo. É aqui também que o proletariado muda de nome. Não mais os operários e sua potencial força de resistência, mas os desempregados crônicos, os imigrantes, os famintos sem voz, os zumbis errantes do consumo, as vidas matáveis, enfim os Coringas que se multiplicam por toda parte. 

Neste contexto preciso a ideia de hegemonia cultural é resgatada para descrever um conjunto de posições heterogêneas: domínio do pensamento de esquerda nas universidades brasileiras, política de tratamento de dependência química por meio da redução de danos, educação sobre gêneros nas escolas, exposições museológicas com temáticas sexuais, o papel do Estado no fomento cultural e científico, movimentos sociais de mulheres, negros, periféricos, homossexuais, indígenas e outras minorias.

A retórica da guerra foi apropriada de modo a descrever um sentido contrário ao que tinha no contexto inicial da hegemonia cultural. Em vez de ser uma forma de inclusão de mais pessoas no processo democrático, ou seja, uma radicalização e universalização dos bens econômicos, sociais e culturais, trata-se da expansão da guerra entre particulares, cada qual ambicionando sua própria democracia para seu próprio condomínio.  

A hegemonia cultural digital da direita foi recentemente mapeada pela Folha. Os sites de direita tem mais inscritos e são mais exclusivos. Quem os frequenta não frequenta a imprensa "livre" (… quae sera tamen), mas se empodera pela autoconfirmação. Seu ponto arquimediano é o protótipo histórico da ideologia, ou seja, a religião, especialmente a religião baseada em resultados. Sua verdade é a pós-verdade.

Tudo isso se encontrará nos textos de Olavo de Carvalho sobre o perigo "gramsciniano", no discurso de Bolsonaro na ONU, nos olhos fechados para a corrupção que corre solta pelos laranjais do seu Queiróz.

Trocando em miúdos: a operação brasileira da hegemonia cultural digital consiste em regressar aos anos 1970, ressuscitar o perigo comunista (que habita o imaginário dos avós e avós da primeira geração de nativos digitais), sugerir que "eles" querem dominar o mundo, usar isso para justificar a retórica da violência em nome da salvação das crianças e mulheres, transformando em ideologia política tudo aquilo que não for autêntica e genuinamente ligado à família e aos valores tradicionais.

Uma vez convencido disso o sujeito fará tudo aquilo que Gramsci previu, só que ao contrário: votará contra seus interesses de classe, acreditará em terra plana, advogará a escola sem partido (ou o home schooling), submeterá os intelectuais ao senso comum, denunciará toda elite como privilegiada …  a não ser ela mesma.

Uma vez imerso nesta ilusão o sujeito acreditará na tese de Marx de que é possível um poder exercido sem mediação: fala direta e autêntica do soberano com seu povo. Expressão direta sem representação, o que se tornará virtualmente possível por meio de recursos como o Twitter. Invertendo os teóricos da democracia radial ele acreditará que finalmente superou o antagonismo social e desde então o impossível é possível e o contingente é necessário.

Balanço da tragédia: a inclusão digital introduziu milhões de pessoas, até então excluídas, no debate político, ao mesmo tempo deixou que os "intelectuais orgânicos" da hegemonia neopentecostal tratassem a cultura como mero assunto de gosto e de crença. Estamos desde então submetidos à hegemonia cultural do Novo Tosco Brasileiro.             

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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