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Sofrimento Narcísico Digital: quando as redes sociais mostram nosso espelho

Christian Dunker

13/09/2019 04h00

Crédito: Alan Teixeira/Divulgação

As redes sociais revelaram algumas das nossas ilusões narcísicas, como ficarmos ofendidos quando nem todas as plateias batem palmas para nossas opiniões, ou acharmos que todos estão interessados no que dizemos

No ambiente das redes sociais, mesmo sabendo que sua mensagem chegou a dez ou quinze pessoas, a ilusão narcísica é de que estamos falando para o mundo, e que "todos estão escutando o que dizemos". Quando percebemos que nem todas as plateias estão dispostas a bater palmas para nossas opiniões, valores e formas de vida, tendemos a sentir isso como uma ofensa narcísica. Uma diferença real, cuja solução depende da verdade ou da prova de realidade pode ser reduzida a uma trama de interesses.

Aqueles que não conseguem impor suas opiniões ou onde suas opiniões parece não importar, tanto quanto gostariam, são levados a simpatizar com atitudes conspiratórias e a sofrer com os efeitos paranoicos do narcisismo digital. Essa parece ser uma patologia mais recorrente com os que padecem com o sofrimento de classe, ou seja, que vivem a incerteza e a obsessão de cair, ou a obrigação de subir, ou a necessidade de confirmar sua posição de classe.

A segunda ilusão favorecida pelo narcisismo digital é que "todo mundo" está interessado na sua opinião, e que sua mera participação em um site ou em uma rede social já possui em si algum valor. Seria algo semelhante a sentir-se mais importante simplesmente porque você saiu para a rua. O tamanho que cada qual atribui- a si tende a aumentar, assim como a importância de como os outros nos percebem.

Nos sentimos inquietos ou vazios apenas porque ninguém está confirmando que nos ama. Podemos ter a sensação de que deixamos de existir, que nos tornamos irrelevantes ou que estamos fazendo algo inadequado quando nos desligamos do olhar digital do outro. Disso decorrem efeitos de dependência, ansiedade e expectativa ascendente da presença virtual do outro.

O temor de tornar-se um zumbi, torna-se ainda mais devastador em uma cultura que despreza formas de vida e as deixa morrer como se não fizessem diferença. Esta segunda ilusão acometa mais frequentemente os que enfrentam o sofrimento de raça e etnia, seja pela via do preconceito seja pela via da opressão,  e que se vêem diante de processos políticos de extermínio silencioso e conivente, ou que temem o contato do outro que não compreendem, mas que supõe como um vampiro ameaçador.

A terceira ilusão decorre da aceleração das interações e da expansão do número de participantes. Combinado com a possibilidade de restringir quem entra e quem sai de seu teatro, isso redunda no efeito de redução do tamanho do mundo e de aumento proporcional da extensão do eu.

Resultado: começamos a sentir mais dolorosamente as quinas da realidade, quando saímos deste mundo feito sob medida e segundo nosso conforto, para fora da bolha. Aqui estão os efeitos de suscetibilidade e ressentimento narcísicos, como se toda diferença, oposição ou contrariedade fosse sempre vivida como desaprovação e desamor. Aqui estão os que sofrerem genericamente com a angústia do estrangeiro, os que não suportam o contato e contágio com o outro perigoso e intrusivo, o outro que no fundo é um fantasma de seu próprio passado mal elaborado.

A quarta ilusão do narcisismo digital é mais intrincada porque envolve a concorrência entre os diversos teatros. A partir de um certo tamanho, a métrica dos atos de reconhecimento tornam-se monetizáveis, criando efeitos de influência e valor de marca. Desta maneira, aquilo que no começo era apenas uma ilusão imaginária, fixada como norma passa a gerar transformações na realidade.

Como um boato que torna verdadeiro, retrospectivamente, o pressuposto mentiroso do qual partiu. Este circuito infernal de auto-confirmação e de aceleração de crenças inspira fanatizações, demonizações e polarizações próprias do narcisismo em forma de massa digital.

Temos aqui o sofrimento dos desconjuntados, dos que vivem um déficit permanente de unidade ou de desidentidade precária. Como Frankensteins, sem origem e sem destino, sem corpo próprio ou desejo, estão procurando um olhar estável que lhes dê lugar, o que obviamente dependerá de um teatro muito restrito e de um olhar muito poderoso.

O narcisismo é uma função direta de nosso sofrimento, mas não necessariamente de nossos sintomas. O narcisismo, prolongadamente mal-tratado, pode originar sintomas, como conflitos que em vez de serem enfrentados são substituídos por alterações do eu ou do mundo, mas não propriamente resolvidos.

Por exemplo, você sofre com uma suscetibilidade narcísica que te faz irritar-se visceralmente com o latido do cachorro do vizinho. Cada vez que o tal canino late você sente que como se fosse uma provocação contra você, uma espécie de folga e de invasão do outro sobre seu território moral e psicológico.

Você pode processar seu vizinho ou mudar de casa, alterando o mundo. Você pode meditar ou tomar calmantes para suportar o barulho. Você pode envenenar o pobre animal ou colocar tampões de ouvido. O fato é que há um conflito psíquico entre você e o que o latido representa. A coisa fica pior quando no seu universo psíquico aparecem "latidos digitais". Conflito que pode ser pode ser enfrentado com um verdadeiro reposicionamento subjetivo ou tratado com métodos paliativos do ponto de vista narcísico.

Ora, isso que dizer que a linguagem digital tem dupla incidência na subjetividade, quando se consideram os sintomas ou a os sofrimentos psíquicos. O uso sistematicamente compensatório ou paliativo das redes sociais pode deixar certos sintomas intratados, mais salientes.

O paranoico se tornará mais paranoico ao encontrar companhia que confirmam suas ideias persecutórias. O depressivo torna-se mais depressivo, ao reunir outras tantas consciências críticas e cruéis, que dão consistência para seus padrões de auto-observação. O ansioso torna-se mais ansioso ao perceber nos outros esquemas de produção, desempenho e realização muito melhores que os seus.  O esquizotípico recuará ainda mais, diante de tanta desordem, para seu próprio mundo e confirmará a cada vez que jamais faria parte de um clube que o aceitasse como sócio.

Por outro lado, a linguagem digital, e as redes sociais que elas tornaram possível, criam novas formas de reconhecimento, oferecendo conforto narcísico e acolhimento para muitas formas de vida, que antes estavam excluídas. Elas colocam os tímidos e os fóbicos em proximidade potencial e controlada com seus piores temores. Trazem luz para os cemitérios de libido e liberta, com seus Blogs, agregadores e plataformas as palavras amordaçadas na alma de cada um, fornecendo-lhes instrumentos narrativos.

Moral da história: não demonize o objeto; pergunte pelo seu uso.

 

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.

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