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Cubismo prático: relações entre inteligência artificial, psicologia e arte

Christian Dunker

06/09/2019 04h00

Caucasus – Georgia

"O sujeito recebe sua própria mensagem de maneira invertida a partir do outro."

Esta era a fórmula desenvolvida pelo psicanalista francês Jacques Lacan quando utilizou pela primeira vez a teoria matemática dos grafos para pensar a subjetividade humana, nos anos 1950. O algoritmo empregado por Lacan, baseava-se na primeira geração da cibernética, popularizada por Wienner e Kahn, no contexto da teoria dos jogos.

Extraindo certas propriedades matemáticas de séries aleatórias, que podiam simular intuitivamente o método psicanalítico da associação livre, Lacan formulou um novo conceito de sujeito e uma nova noção de inconsciente. Dali em diante: "estruturado como uma linguagem".

Depois disso, ele aprofundou a lógica combinatória dos primeiros algoritmos empregando modelos topológicos para descrever a inteligibilidade espacial do sujeito: a banda de Moebius para representar a divisão do sujeito, a Garrafa de Klein, para falar das relações entre fantasia e realidade, o toro para descrever nossas identificações, o plano projetivo para escrever o descompasso entre o que pedimos e o que queremos.

Curiosamente são estas estruturas que vemos recorrentemente empregadas na arte cibernética contemporânea e seus exercícios em torno de séries recursivas. Séries de auto-interpenetração, séries que se transformam pela integração de sua própria regra de composição, séries que produzem homologias formais da realidade. Pianos que compõe músicas à partir da forma randômica das nuvens, panos que deformam-se como ondas do mar, séries sonoras acusmáticas nas quais a voz ou o som emerge, indeterminadamente, em relação ao corpo ou lugar ao qual pertence.

Um bom exemplo disso pode ser encontrado na recente obra de Rejane Cantoni, montada do Itaú Cultural de São Paulo, onde alguém poderia andar por um túnel que projetava em suas bordas sombras ortogonais da própria silhueta, mas em um espaço curvo.

As superfícies topológicas lacanianas têm em comum o fato de não serem perfeitamente legíveis em um espaço de três dimensões, subvertendo assim nossa relação intuitiva com o mundo, com a linguagem e com o tempo.

A nova estrutura de linguagem, que se anuncia com a internet das coisas, com a inteligência artificial, vai além da análise combinatória exaustiva das possibilidades de uma dada estrutura ou da recursividade das escolhas anteriores para prever escolhas futuras. Ela também não se limita a esconder seu próprio aspecto maquínico e artificial por trás de vozes que operam conversações em simulação perfeita ou respostas em tempo real. O desafio fundamental desta nova forma de AI é incorporar as possibilidades do universo quântico: autovalores e autovetores, superposição de estados de um sistema.

O que temos aqui é um outro tipo de regra e um outro tipo de relação entre regras e exceções. Casos singulares e não só repetições genéricas. Anomalias e eventos únicos, não apenas regras de composição de séries.

Isso envolve um problema que ultrapassa os dois termos usualmente mobilizados para abordar o problema da inteligência artificial em psicologia, ou seja: pensamento e linguagem. Para situações mais simples podemos imaginar que um é o espelho do outro e que usamos a linguagem para "traduzir" ou "expressar" nosso pensamento, assim usamos o pensamento para "interpretar" e "ler" a realidade.

Normalmente, associamos o pensamento com a causa formal, que ordena e classifica as coisas. A linguagem associamos com a causa material, que ilustra e representa as coisas. No caso desta nova linguagem, são as coisas que produzem forma e o pensamento, ou nossos atos de reconhecimento, que lhes atribuem algum conteúdo.

Para enfrentar tais problemas a pesquisa sobre formas estéticas cibernéticas torna-se estratégica. Pois elas exploram, metodicamente, tanto as metamorfoses entre padrões de inversão e reconhecimento de processos, como fenômenos de emergência de consciência recursiva.

Modos de Subjetivação são frequentemente definidos pela unidade entre uso da linguagem, trabalho do pensamento e orientações de desejo. É o que chamamos de forma de vida. Esta unidade pode ser, retrospectivamente, determinada como um corpo, uma casa, uma cidade, uma comunidade ou até mesmo a identidade de alguém.

Podemos agrupar tais unidades em constelações mais ou menos estáveis, basicamente compostas pela estruturação de padrões de relação prevalentes, de modo diverso das nossas atuais e precárias classificações baseadas em perfis e disposições. Por exemplo, a teoria da personalidade pode dividir formas de vida segundo perspectivas prevalentes de relação com o mundo e com o outro, tais como: Extroversão, Abertura, Conscienciosidade, Neuroticismo e Agradabilidade (a popular teoria dos Big Five). Estes tipos são criados pela análise fatorial de reações e atitudes, colhidos do uso de atitudes e da reiteração de concepções históricas sobre a personalidade.

De maneira análoga aos manuais de diagnóstico estatístico de transtornos mentais, ela é convencionalista. Ou seja, apenas descreve padrões regulares que reúnem signos, não infere deles nenhum princípio de causalidade ou etiologia.

O impacto potencial das novas tecnologias em nos modos de subjetivação promete aposentar este tipo de abordagem, pois elas captarão não apenas tendências e perfis genéticos mas o "DNA mental do sujeito". Portanto, o fator crucial deixará de ser a inteligibilidade do padrão de transformação na relação com o mundo, mas descrições de si mesmo como fator de autotransformação. Como se o diagnóstico alterasse a doença. Como se o ato de reconhecimento alterasse a natureza da coisa reconhecida.

Esta recursividade em segundo grau impacta dramaticamente a pesquisa sobre novas formas de subjetivação. Elas incorporam não apenas considerações de performances positivas, mas o fracasso e a detecção de incertezas.

Quando andamos no interior do túnel com nossas projeções ortogonais, percebemos nossas próprias perspectivas sobre o túnel projetadas à nossa frente ou ao nosso lado. Como se estivéssemos vivendo uma experiência de cubismo prático, na qual as diferentes perspectivas de nós mesmos são compostas como uma unidade que contém a imersão de um ponto de auto-representação.

Se isso for correto, deixaremos para trás o modelo de entendimento do sujeito baseado na oposição, realista ou impressionista, entre interior e exterior, dentro e fora. Passaremos a um modelo que se aproxima do que Lacan chamou de Garrafa de Klein, onde o interno e o externo possuem pontos de indeterminação e interpenetração.

Sobre o Autor

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

Sobre o Blog

Aqui vamos discutir o impacto da linguagem digital e das novas tecnologias nos modos de produção de subjetividade, nas formas de sofrimento e na capacidade de inventar sonhos à altura de novos mundos por vir.